Quem cresceu perto do campo sabe: o produtor olha para o céu antes de olhar para a planilha.
Chuva demais, seca que não acaba, geada fora de hora. Isso sempre fez parte da vida de quem planta. E o cooperativismo sempre esteve ali do lado, ajudando o associado a atravessar os anos difíceis. É uma das coisas mais bonitas do nosso modelo.
O que mudou foi a intensidade. A gente viu o Rio Grande do Sul debaixo d’água em 2024. Viu safras perdidas pela seca em várias regiões. Viu crescer as renegociações e os alongamentos. O clima entrou na sala de crédito e virou assunto de balanço.
Em uma carteira real de crédito agrícola que analisamos neste ano, a grande maioria das operações apresentava histórico de exposição a eventos climáticos extremos.
Mas eu quero falar do outro lado dessa história. Porque junto com o desafio vieram
ferramentas que o cooperativismo nunca teve.
Tenho escutado muito de gestores uma frase:
“O produtor é bom. O problema foi o ano.”
É verdade. E é justamente por isso que existe saída. Se o problema não é o produtor, e sim o clima, então dá para tratar o clima como informação. Dá para enxergar antes.
O sistema financeiro sempre aprendeu a medir perda depois que ela acontece. Hoje dá para medir exposição antes.
E o primeiro passo é mais simples do que parece. Cada operação de crédito rural registrada no SICOR já leva a localização das áreas financiadas. A carteira já está no mapa. Ninguém precisa começar do zero.
O ZARC continua sendo uma referência valiosa. Construído a partir de séries históricas e critérios agronômicos, ele orienta quando e onde plantar para reduzir riscos climáticos.
O que faltava era olhar para o presente. Saber o que está acontecendo nesta safra, com estes associados, agora.
Mas o clima sozinho também não conta tudo. Duas propriedades vizinhas, debaixo da mesma chuva, podem ter riscos bem diferentes. Uma tem CAR em dia, bom histórico de crédito e boas práticas de manejo. A outra, não. A leitura que realmente ajuda a decidir é a que junta clima, perfil socioambiental e histórico de crédito num olhar só.
É aí que a coisa fica bonita.
Quando a cooperativa enxerga com antecedência que uma região vai entrar em estresse hídrico ou receber chuva extrema, ela pode ligar para o produtor. Conversar sobre o seguro. Rever a janela de plantio. Ajustar o cronograma antes que a parcela vire atraso.
O dado deixa de ser só ferramenta de risco. Vira ferramenta de cuidado.
E tem um detalhe que me emociona. O produtor sozinho dificilmente teria acesso a esse tipo de inteligência. A cooperativa tem. Ela consegue fazer, em escala, algo que protege cada associado individualmente. Isso é cooperação na prática.
A regulação também caminha nessa direção. O Banco Central já pede que o risco climático seja tratado de forma estruturada e as IFRS S1 e S2 já fazem parte do ambiente regulatório brasileiro, com adoção gradual pelas instituições. Talvez sua cooperativa não esteja obrigada diretamente. Mas quem empresta recursos, quem segura a safra e quem compra a produção já está sendo cobrado. E vai procurar parceiros que consigam mostrar essa informação.
Quem se antecipa não está só cumprindo regra. Está virando o parceiro preferido.
Porque não basta dizer que se preocupa com o clima. Vai ser preciso mostrar.
Isso tem nome: evidência.
Ou, na linguagem desta coluna: lastro.
E esse lastro está ao alcance. O dado existe. A tecnologia existe. E o cooperativismo tem uma coisa que nenhuma tecnologia substitui: estar perto de quem produz.
O clima vai continuar mudando. A diferença é que agora dá para ver ele chegando.
Então deixo a pergunta:
O que a sua cooperativa faria se soubesse, uma ou duas semanas antes, quais associados vão precisar dela?
Mauricio Rodrigues é CEO da ESGreen

Matéria exclusiva publicada na edição 135 da Revista MundoCoop












