A economia brasileira deve encerrar 2026 em ritmo mais moderado, apesar de um desempenho melhor do que o esperado para a agropecuária. No novo Relatório de Política Monetária (RPM), publicado em setembro, o Banco Central reduziu de 2% para 1,8% sua projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e apresentou uma primeira estimativa de 1,4% para 2027. A revisão considera uma composição menos favorável do crescimento no segundo trimestre e indicadores que apontam atividade mais fraca no terceiro. rpm202609p
Enquanto setores mais sensíveis ao ciclo econômico perderam dinamismo, agropecuária e indústria extrativa ajudaram a sustentar a atividade. O movimento aparece também nas novas projeções setoriais: o BC elevou a estimativa de crescimento do agro de 1,7% para 2,8% em 2026, ao mesmo tempo em que reduziu as previsões para indústria e serviços. rpm202609p
O cenário integra uma leitura mais ampla de desaceleração da economia desde o fim de 2024. A inflação apresentou algum alívio nos últimos meses, com o IPCA acumulado em 12 meses recuando de 4,72% em maio para 4,22% em agosto, embora continue acima da meta e com expectativas ainda desancoradas. rpm202609p
Agro sustenta 2026
A revisão positiva para a agropecuária considera a melhora das estimativas para a produção de grãos, especialmente milho e algodão, além do desempenho acima do esperado no segundo trimestre. Depois de uma safra marcada pela força da soja nos primeiros meses do ano, o setor manteve expansão mesmo diante de uma base de comparação elevada. rpm202609p
A perspectiva muda, porém, quando o horizonte avança para 2027. O Banco Central projeta crescimento de apenas 0,5% para a agropecuária no próximo ano, após 2,8% em 2026. Entre os fatores considerados estão a elevada base deixada pela safra atual, preços altos de insumos, endividamento dos produtores e riscos climáticos superiores aos habituais.
O clima recebeu atenção específica no relatório. Em um estudo sobre os efeitos de El Niño e La Niña nas principais lavouras brasileiras, o BC analisou soja, milho, algodão, arroz, cana-de-açúcar e café. Os resultados indicam impactos diferentes conforme a cultura e a região, mas apontam efeitos adversos do El Niño de forma mais disseminada sobre milho, algodão e arroz. Para a soja, ganhos em algumas regiões podem compensar perdas em outras no resultado nacional. rpm202609p
Com as projeções climáticas atuais, o estudo identifica risco negativo para a produtividade agrícola em 2027. O próprio Banco Central ressalta, contudo, que o resultado deve ser interpretado como um fator de risco, e não como uma previsão da próxima safra, já que clima é apenas uma das variáveis que explicam as oscilações de produtividade. rpm202609p
Crédito perde ritmo
O ambiente de juros elevados também continua produzindo efeitos sobre o mercado de crédito. Segundo o relatório, endividamento, comprometimento de renda e inadimplência permanecem elevados, enquanto as concessões de recursos livres às pessoas físicas mostram desaceleração. rpm202609p
Mesmo nesse cenário, o estoque de crédito continua crescendo. O Banco Central revisou ligeiramente sua projeção para 2026, de 9% para 9,1%, com avanço acima do previsto nas carteiras de recursos direcionados e desempenho menor no crédito livre às pessoas físicas. Para 2027, a primeira estimativa aponta expansão nominal de 8,8%. rpm202609p
A composição desse crescimento deverá mudar. A expectativa para 2026 é de alta de 7,2% no crédito livre e 11,7% no direcionado. No próximo ano, o BC prevê aceleração do crédito livre, especialmente no financiamento às empresas, e moderação das carteiras direcionadas. Em termos reais, o saldo total deve crescer 3,7% em 2026 e 4,7% em 2027. rpm202609p
A inadimplência adiciona pressão ao cenário. Em julho, os atrasos superiores a 90 dias chegaram a 4,9% da carteira de crédito do Sistema Financeiro Nacional, maior percentual da série histórica. No crédito livre às pessoas físicas, o indicador atingiu 7,8%. Já no crédito rural direcionado para pessoas físicas, chegou a 8,8%, também em nível recorde. Parte da elevação dos indicadores, ressalva o BC, está relacionada a mudanças regulatórias adotadas desde 2025. rpm202609p
Consumo avança menos
A desaceleração também aparece nas projeções para as famílias. O Banco Central reduziu de 2,1% para 1,2% a estimativa de crescimento do consumo em 2026. Em sentido contrário, elevou de 1,5% para 2% a previsão para a formação bruta de capital fixo, indicador associado aos investimentos na economia. rpm202609p
Para 2027, o consumo das famílias deve avançar 1,4%. A projeção considera uma desaceleração gradual do mercado de trabalho, menor crescimento da ocupação e dos rendimentos e a permanência de níveis elevados de endividamento e comprometimento da renda.
A política monetária continua sendo um dos principais condicionantes desse cenário. Em setembro, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 13,75% ao ano, embora tenha mantido a avaliação de que o ambiente exige cautela diante da inflação, das expectativas e das incertezas internas e externas. rpm202609p
Com crescimento projetado de 1,4% para 2027, o próximo ano tende a combinar expansão mais moderada da atividade, menor contribuição do agro e do crédito direcionado e continuidade dos efeitos da política monetária restritiva.
Por Redação MundoCoop com informações do Relatório de Política Monetária do Banco Central












