O Dr. José Alves de Souza Neto é cirurgião-dentista e foi o fundador e primeiro presidente da Cooperativa Uniodonto Atenas Paulista em 1994. Foi vice-presidente de administração e finanças da Federação Paulista de Uniodontos de 2001 a 2004 e, sucessivamente, presidente da mesma Federação até 2007. Possui MBA em gestão em saúde pela Fundação Getúlio Vargas, no Brasil, e curso executivo em negociação pela Universidade de Irvine, na Califórnia, Estados Unidos. Atualmente, é presidente da Uniodonto de Atenas Paulista, membro do conselho fiscal da OCESP (Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo), coordenador do setor de saúde da OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) e, por fim, presidente da Uniodonto do Brasil. Desde setembro de 2024, é presidente da Cooperativas das Américas, escritório regional da Aliança Cooperativa Internacional.
Conte-nos sobre você – como você ouviu falar de cooperativas pela primeira vez?
Eu ouvia as pessoas falarem sobre cooperativas desde criança, mas minha primeira experiência direta com o movimento cooperativo só aconteceu aos 34 anos. Naquela época, um grupo de amigos meus, que eram cirurgiões-dentistas, e eu ficamos curiosos sobre um sistema de cooperativas odontológicas chamado Uniodonto.
Decidimos descobrir mais, tentamos entender como esse modelo funcionava e percebemos que poderíamos construir algo semelhante em nossa região. Assim, em 11 de novembro de 1994, fundamos a Uniodonto de Jaboticabal – agora conhecida como Uniodonto Athenas Paulista – que começou com 64 cirurgiões-dentistas.
Foi assim que começou minha jornada no mundo das cooperativas. Primeiro por curiosidade, depois por meio do envolvimento ativo e, finalmente, pela constatação de que esse modelo poderia transformar não apenas nossa prática profissional, mas também a comunidade em que vivíamos.
Qual foi o seu percurso desde o início da carreira até a presidência da Cooperativas das Américas?
Minha carreira começou justamente na cooperativa que ajudamos a fundar, onde atuei como seu primeiro presidente. Ao longo dos anos, assumi outras responsabilidades dentro do Sistema Uniodonto e também em diversas entidades do movimento cooperativista brasileiro.
Fui membro do conselho diretor da Federação das Cooperativas Uniodonto do Estado de São Paulo, onde ocupei os cargos de vice-presidente de administração e finanças e, posteriormente, de presidente. Em seguida, assumi a presidência da Uniodonto de Brasil, cargo que ocupo até hoje.
Ao mesmo tempo, tive a oportunidade de participar de outras organizações dentro do movimento cooperativo brasileiro, como a Sescoop São Paulo, a OCESP e a OCB.
Meu envolvimento com a Aliança Cooperativa Internacional surgiu por incentivo de um grande amigo e ativista cooperativista, Américo Utumi, que infelizmente já não está entre nós. Posteriormente, passei a representar o Brasil no conselho diretor da Cooperativas das Américas. Em 2022, fui convidado por minha querida amiga Graciela Fernández para atuar como primeiro vice-presidente durante seu segundo mandato. Em setembro de 2024, como Graciela precisou se afastar da presidência por motivos pessoais, fui nomeado presidente da Cooperativas das Américas.
Olhando para trás, vejo uma jornada construída passo a passo. Quando fundamos aquela pequena cooperativa em 1994, jamais imaginei que um dia seria responsável por liderar o movimento cooperativo em todo um continente.
De que forma a sua experiência em cooperativas de saúde moldou a sua abordagem na liderança de um organismo multissetorial muito mais amplo?
Eu dividiria essa experiência em dois pontos. O primeiro é que trabalho em um setor altamente regulamentado e fiscalizado, o que exige um alto nível de organização, gestão, responsabilidade e adaptabilidade.
Mas talvez o segundo ponto seja ainda mais importante. Estou à frente de um sistema composto por 115 cooperativas, presentes em todos os estados brasileiros, que reúne mais de 22 mil dentistas cooperados e atende mais de 3,5 milhões de pessoas.
Manter a unidade entre cooperativas que operam em regiões com estruturas, culturas e necessidades tão diferentes é um desafio muito semelhante ao que enfrentamos nas Cooperativas das Américas.
Nosso continente é extremamente diverso. Temos países e regiões com realidades econômicas e sociais muito diferentes. Todos precisam ser ouvidos, respeitados e apoiados. O desafio é enorme, mas o movimento cooperativo nos oferece exatamente as ferramentas necessárias para construirmos soluções coletivas e transformarmos nossa região em um lugar melhor para todos.
O que significa para o movimento o fato de o Panamá, um setor cooperativo relativamente pequeno, estar sediando as Assembleias conjuntas da ACI/Américas e a conferência global?
Para mim, isso demonstra muito claramente a amplitude da visão cooperativa. Somos um movimento composto por cooperativas de diferentes setores, de diferentes tamanhos, de diferentes países e com diferentes circunstâncias, mas todas merecem ser ouvidas e respeitadas.
O fato de o Panamá não estar entre os maiores movimentos cooperativos do mundo não é um obstáculo. Muito pelo contrário. Escolhê-lo para sediar um evento desta magnitude demonstra, na prática, o que defendemos.
O movimento cooperativo compreende as diferenças, coexiste com elas e lhes dá espaço. Não podemos falar de participação democrática e inclusão apenas quando nos convém. Precisamos praticá-las dentro do nosso próprio movimento.
Isso faz parte fundamental do nosso DNA: reconhecer a importância de todos, independentemente do seu tamanho.
O Panamá foi escolhido em parte pelo seu simbolismo como uma ponte literal entre os hemisférios. O que esse tema significa para você, em termos práticos, para o movimento cooperativo?
A imagem é muito objetiva e, ao mesmo tempo, muito bonita. A Ponte das Américas atravessa o Canal do Panamá e restabelece fisicamente uma conexão que o canal interrompe. Para mim, essa imagem captura muito bem o que o movimento cooperativo faz.
O movimento cooperativo constrói pontes entre pessoas, comunidades, organizações e capital. Construímos pontes quando transformamos vulnerabilidade em oportunidade, quando atendemos necessidades que o mercado ou o Estado não conseguiram suprir e, sobretudo, quando promovemos a inclusão econômica e social.
Construir pontes significa unir o que antes estava separado. Significa possibilitar que pessoas à margem da sociedade tenham acesso a trabalho, renda, dignidade e perspectivas para o futuro.
Talvez esta seja precisamente uma das melhores definições do que fazemos todos os dias como cooperadores: construímos pontes.
Você pode apontar um exemplo concreto, das Américas ou de outro lugar, em que uma cooperativa tenha contribuído visivelmente para a construção da paz ou para a reconciliação social?
Temos vários exemplos, mas estou particularmente interessado na experiência da Colômbia, onde o movimento cooperativo desempenhou um papel na reconstrução econômica e social de comunidades afetadas por décadas de conflito.
Isso também nos ajuda a ampliar nosso próprio conceito de paz. Paz não significa simplesmente a ausência de guerra. Paz também significa ter trabalho, renda, oportunidades, dignidade e perspectivas para o futuro.
Quando uma cooperativa reúne pessoas, cria oportunidades econômicas e lhes permite tomar decisões em conjunto e construir seu futuro em conjunto, estamos reconstruindo algo fundamental: a confiança.
E acredito firmemente que não pode haver paz duradoura sem confiança, inclusão e oportunidades.
Como você vê os três pilares da Estratégia da ACI 2026-2030 — Praticar, Promover, Proteger — se manifestando de maneiras diferentes nas Américas?
Nas Américas, enfrentamos realidades econômicas, políticas e sociais extremamente diversas. Por essa razão, Praticar, Promover e Proteger precisam assumir um significado concreto dentro de cada uma dessas realidades.
Praticar significa demonstrar diariamente, por meio de nossas próprias cooperativas, que nossos princípios e valores funcionam. Promover significa garantir que mais pessoas conheçam, compreendam e escolham o movimento cooperativo, especialmente as gerações mais jovens. E proteger significa garantir ambientes legais e regulatórios que reconheçam nossa identidade e permitam que as cooperativas se desenvolvam sem serem forçadas a se tornarem algo que não são.
Os três pilares são inseparáveis. Não podemos proteger o que não promovemos, e não podemos promover o que não praticamos genuinamente.
Qual a mensagem mais importante que você gostaria que os delegados levassem para casa do Panamá?
Gostaria que cada participante voltasse para casa compreendendo que “Construir Pontes” não é apenas o tema de uma conferência. É uma responsabilidade que todos compartilhamos.
Precisamos construir pontes entre cooperativas, entre diferentes setores, entre países, entre gerações e, sobretudo, entre pessoas.
Estamos vivendo em uma época em que muitas forças parecem trabalhar para nos dividir. O movimento cooperativo precisa fazer exatamente o oposto: nos unir ainda mais.
Se cada pessoa sair do Panamá pronta para construir uma nova ponte ao retornar à sua cooperativa, à sua comunidade ou ao seu país, teremos alcançado muito mais do que apenas uma grande conferência. Teremos iniciado um movimento.
O Panamá precisa ser o lugar onde discutimos pontes. O mundo precisa ser o lugar onde as construímos.
Fonte: The Co-op News com adaptações da MundoCoop












