Três dias de debates, encontros e provocações colocaram o cooperativismo financeiro no centro das discussões sobre o futuro da economia brasileira. Realizado entre 26 e 28 de agosto, em Goiânia (GO), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito, o Concred, encerrou sua edição com a marca de um dos principais espaços de discussão estratégica do setor.
Com o tema “Cooperativismo Financeiro: no campo e na cidade, juntos na construção de um futuro sustentável”, a estimativa é que o evento reuniu cerca de 5 mil participantes, incluindo grande parte das principais lideranças do cooperativismo financeiro nacional. Ao longo da programação, diferentes perspectivas convergiram em como transformar a força conquistada pelo setor em capacidade de resposta diante de um ambiente econômico, tecnológico e social em rápida transformação.
Entre o campo, a economia e os novos desafios
Um dos nomes de maior destaque da programação foi Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e embaixador do cooperativismo para a FAO. Em sua participação, o agronegócio apareceu não apenas como uma frente de negócios, mas como uma das principais oportunidades estratégicas do Brasil diante da crescente demanda mundial por alimentos.
Rodrigues chamou atenção para a necessidade de aproximar ainda mais o cooperativismo financeiro do agropecuário. Em sua avaliação, a capacidade brasileira de ampliar a produção de alimentos dependerá também de mecanismos que garantam crédito aos pequenos e médios produtores, especialmente em momentos de maior restrição financeira.
Se o crescimento abre novas possibilidades, também aumenta a responsabilidade de quem está crescendo. Foi essa outra face do debate que apareceu na participação de Tania Zanella, presidente executiva do Sistema OCB.
Ao falar sobre o crescimento do cooperativismo, Tania colocou em pauta o quanto os novos cooperados realmente compreendem o modelo do qual passam a fazer parte. A expansão, segundo a reflexão apresentada no Concred, precisa caminhar junto com o fortalecimento da cultura cooperativista, da participação e da formação de novas lideranças.
A discussão ganhou ainda mais relevância diante de um cenário marcado por inteligência artificial, mudanças geracionais e novas expectativas dos consumidores. A tecnologia pode ampliar capacidades, mas não elimina a necessidade de desenvolver competências humanas, fortalecer vínculos e preservar os elementos que diferenciam o cooperativismo.
No campo regulatório, Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, trouxe o alerta para o tamanho alcançado pelo cooperativismo financeiro exigir uma gestão proporcionalmente mais preparada para lidar com riscos.
Em sua participação, Aquino chamou atenção para pontos como inadimplência, pressão competitiva, eficiência operacional, governança, sucessão e endividamento das famílias. O desafio, portanto, não está apenas em manter o ritmo de expansão, mas em garantir que ele aconteça de forma sustentável e responsável.

Quando a disputa é pela atenção
Entre os muitos debates sobre estratégia e futuro, um painel trouxe uma provocação de outra natureza, mas diretamente relacionada à capacidade das cooperativas de se conectar com seus públicos, o “Comunicação Disruptiva: como cooperativas de crédito podem inovar, engajar e gerar valor na nova economia da atenção”.
A conversa contou com a participação de Felipe Godoy, executivo de marketing com mais de 17 anos de experiência e passagem pela liderança de marketing de empresas como Pinterest e Canva no Brasil. Sua atuação profissional está justamente na interseção entre estratégia, criatividade, dados e comunicação. A mediação foi conduzida por Luis Claudio, diretor da MundoCoop, que levou para o palco uma discussão especialmente relevante para um setor que busca se aproximar de novas gerações e ampliar sua presença em ambientes digitais.
A provocação inicial de Felipe resumiu o tamanho do desafio. “Nunca foi tão fácil botar uma campanha no ar, mas nunca foi tão difícil fazer as pessoas prestarem atenção.” Na chamada economia da atenção, ter recursos para comunicar deixou de ser suficiente. O desafio está em criar algo que as pessoas efetivamente queiram consumir. Para isso, segundo a reflexão apresentada no painel, marcas precisam partir de histórias, contextos e assuntos que já fazem parte da conversa das pessoas, colocando a narrativa no centro e deixando produto e marca em segundo plano.
É uma mudança importante de lógica, onde em vez de esperar que o público vá até a marca, é preciso levar a marca até os espaços onde as pessoas já estão. E as redes sociais se tornaram um dos principais territórios dessa disputa por relevância.
A questão, então, não é apenas ser visto. É conseguir fazer com que alguém pare, preste atenção e estabeleça algum tipo de conexão com aquela mensagem. “Ser relevante é diferente de ser percebido como relevante”, como resumiu Godoy.
Ainda, durante a mediação, Luis Claudio destacou uma questão atual e urgente para as cooperativas. “Precisamos entender o cooperado de hoje, mas o cooperado do futuro. Se queremos pensar no futuro cooperado, precisamos pensar no jovem, e não estamos fazendo isso.”
E não para por aí!
Ao encerrar sua 16ª edição, o Concred deixa um setor maior, mais presente e também diante de desafios mais complexos. As discussões realizadas em Goiânia mostraram que o próximo ciclo não será determinado apenas pela capacidade de crescer, mas pela qualidade das escolhas feitas durante esse processo.
A MundoCoop foi Mídia Oficial do 16º Concred e acompanhou de perto os três dias de programação. Nossa equipe esteve presente nos principais debates, painéis e encontros que movimentaram o congresso e, agora, prepara uma cobertura exclusiva e completa do evento.
Os principais conteúdos, análises, entrevistas e reflexões estarão na próxima edição da Revista MundoCoop e também em um e-book especial sobre o 16º Concred, reunindo os assuntos que ajudam a entender para onde caminha o cooperativismo financeiro brasileiro.
Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop
Fotos: MundoCoop












