Ao sair dos EUA para um intercâmbio na China, em 2016, Alex Witherspoon não imaginava que a viagem mudaria os rumos de sua vida: no ano seguinte ele fez amizade com o conterrâneo Derek Frech, especialista no mercado americano de chá, e com a chinesa Xiaoyan, conhecedora do mundo digital e dos agricultores chineses. Juntos, eles fundaram a cooperativa One River Tea, que vende chá para o mundo inteiro e é gerida por quatro sócios-proprietários, sem patrões nem empregados.
Os sócios agora querem multiplicar o modelo. Por isso destinam 15% da receita para apoiar cooperativas de produtores rurais chineses, criando uma corrente de solidariedade econômica que já financiou desde a compra de mudas e fertilizantes até o pagamento direto em dinheiro para os agricultores. Parte dos recursos ainda alimenta um fundo comunitário ou garante a compra da produção excedente a um preço fixo, protegendo os produtores da volatilidade do mercado.
“Vendedores on-line, no mundo todo, deveriam repartir os lucros. Os clientes querem apoiar você. Mesmo que perca um pacote ou envie o chá errado, você não é tratado como um comerciante ruim, mas como um defensor social que está ao lado dele e dos agricultores”, diz Witherspoon. “Não temo que sejamos repentinamente substituídos por alguém com chá mais barato ou uma campanha bombástica nas redes sociais.”
A cada três a seis anos, a cooperativa encerra o ciclo de apoio a uma região e transfere o suporte para outra. “O objetivo é que, quando nos mudarmos para o próximo local, esses produtores já não precisem mais de nós”, afirma Witherspoon. “Eles terão todos os contatos diretos, um lugar legal para receber hóspedes e vários anos de cultivo orgânico consolidado”, acrescenta.
A trajetória da One River Tea mostra como funciona o cooperativismo chinês na prática, mas a análise das engrenagens que movimentam o setor no país vem do professor Xu Xuchu, da Academia Chinesa de Desenvolvimento Rural da Universidade de Zhejiang. Ele é uma das principais referências na área e ajudou a redigir o Regulamento Provincial de Cooperativas de Zhejiang (2005) e a Lei Nacional de Cooperativas Especializadas de Agricultores (2007).
Há 2,94 milhões de entidades legalmente constituídas como cooperativas na China. Xu alerta, porém, que os critérios chineses para se definir uma cooperativa podem divergir dos adotados pelos demais países. O Ministério da Agricultura chinês fala em “mais de 2 milhões” de cooperativas em atividade. Antes de 2020, o número crescia rapidamente, mas muitas existiam só no papel, para receber algum tipo de apoio do governo. A partir de 2021, Pequim passou a combater as cooperativas fantasmas e adotar critérios rígidos para registro e funcionamento.
Xu explica que as cooperativas rurais chinesas adaptam os princípios tradicionais de Rochdale às suas necessidades práticas. O princípio do “um membro, um voto”, por exemplo, é flexível e cada cooperativa tem autonomia para definir a regra de voto em seu estatuto. Essa flexibilidade resolve um problema prático: como há poucos empreendedores no meio rural chinês, a lei permite certa autonomia para atrair talentos, mas exige que os agricultores representem no mínimo 80% dos integrantes para que a cooperativa não se torne um negócio privado e pertença, de fato, aos próprios produtores.
Outro desafio foi limitar o apoio governamental. “As cooperativas precisam do apoio do governo para começar, mas apoio excessivo sufoca sua autonomia. Onde traçar essa linha foi uma questão que debatemos repetidamente,” explica Xu. “O governo capacita, fornece financiamento, políticas e treinamento, mas não interfere nas decisões internas.”
Witherspoon tem outra opinião. Para ele, governos em todo o mundo podem e devem se tornar coproprietários e coorganizadores de negócios cooperativos. “Uma nova lei coletiva entrou em vigor no ano passado. Em Anhui [situada na bacia dos rios Yangtzé e Huai, no Leste da China], onde estamos trabalhando, 10% do que damos à aldeia vai para a conta coletiva, permitindo que as autoridades atuem mais na gestão e regulamentação das cooperativas. O líder da aldeia diz que sempre quis educar os agricultores sobre manejo orgânico e promover o chá local por meio de uma plataforma pública compartilhada, mas não tinha dinheiro para isso.”
Ao longo de muitas viagens para dar treinamento a diretores e integrantes de cooperativas rurais, Xu percebeu um padrão: “Onde o líder é capaz, a cooperativa sempre encontra maneiras de resolver seus problemas de financiamento e gradualmente abre mercados. Onde o líder é fraco, mesmo com apoio financeiro e político, a cooperativa acaba fracassando.”
Por isso ele considera a capacitação de gestores o maior desafio. “Há três manifestações típicas de capacidade insuficiente: alguns líderes são excelentes agricultores, mas não sabem manter contas, entender mercados ou lidar com bancos. Outros transformam a cooperativa em sua própria ’empresa privada’, carecendo de espírito cooperativo e marginalizando os outros membros. E há os que não sabem construir marcas ou usar comércio eletrônico, então, seus bons produtos não conseguem alcançar bons preços.”
Em visita a Jiangsu, na China, Luis Zarref, coordenador para a América Latina da Associação Internacional para a Cooperação Popular (IAPC/Baobab), conheceu um centro de formação camponesa construído pelo governo em uma cooperativa. A estrutura une capacitação e tecnologia: no térreo, há uma escola para agricultores e técnicos, enquanto o andar superior abriga uma central de monitoramento inteligente para processamento de dados e gestão via internet das coisas (IoT). Zarref acredita que a agricultura digital pode fortalecer o papel das cooperativas.
Fonte: Valor Globo












