O agronegócio brasileiro encerrou 2025 responsável por praticamente um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No período, o setor gerou R$ 3,2 trilhões em bens e serviços no período, de acordo com os dados apresentados no Panorama do Agronegócio Brasileiro, publicado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
O Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária também alcançou um novo patamar e chegou a R$ 1,49 trilhão, alta de 11% em relação a 2024. O agronegócio ainda concentrou 28,4 milhões de trabalhadores, o equivalente a 26,3% das pessoas ocupadas no Brasil.
Os números ajudam a dimensionar a posição alcançada pelo setor.
Contudo, sustentar esse espaço exige capacidade para administrar um ambiente cada vez mais complexo.
Os debates realizados no SuperAgro 2026, evento realizado pela Exame no último dia 11, colocaram essa mudança de cenário em evidência. Silvio Crestana, pesquisador da Embrapa Instrumentação e ex-presidente da instituição, avaliou que o setor precisa ampliar sua capacidade de antecipação diante de fatores que já não atuam de maneira isolada. “Para mim, a palavra atual é risco e não crise. Só chegamos a uma crise quando não soubemos identificar os riscos e nos antecipar a eles”, afirmou.
Exposição externa
A expansão internacional do agronegócio adiciona uma nova camada a esse cenário de riscos crescentes. O setor respondeu por 49% das exportações brasileiras em 2025 e comercializou seus produtos com mais de 200 parceiros
Alguns mercados, porém, ainda concentram uma parcela relevante dessas vendas. A China respondeu por 33% do valor exportado pelo agro brasileiro, equivalente a US$ 55,3 bilhões. A União Europeia concentrou outros 15%, com US$ 25,2 bilhões, e os Estados Unidos representaram 7%, ou US$ 11,4 bilhões.
O Brasil também ocupa posições de liderança em algumas das principais cadeias globais. O país é o maior exportador de soja, café, suco de laranja, açúcar, carne bovina, carne de frango e algodão. O agronegócio brasileiro ainda ocupa a segunda posição nas exportações de milho e a terceira na carne suína.
Essa presença abre mercados, mas também aumenta a exposição às mudanças comerciais, políticas e tecnológicas que ocorrem fora do país. Crestana destacou esse caráter interligado dos desafios ao analisar o cenário durante o SuperAgro. “Risco geopolítico, de clima, está tudo junto, é sistêmico”, afirmou.
A pressão não termina nas relações comerciais. As mudanças climáticas colocam outra variável diretamente sobre produtividade, custos e renda dentro do campo.
Risco climático
Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, chamou atenção no SuperAgro para os impactos diferentes que o avanço do El Niño pode provocar entre regiões e culturas. O especialista apontou uma probabilidade superior a 81% de atuação do fenômeno entre outubro e dezembro, com maior risco de estiagem no Matopiba e no Norte, redução das chuvas em partes do Centro-Oeste e Sudeste e precipitações acima da média no Sul.
A soja aparece entre as culturas mais expostas. Cogo estima que entre 45% e 50% da área brasileira destinada ao grão pode ficar sob influência do fenômeno. Os dados da CNA ajudam a dimensionar o impacto econômico dessa exposição: a soja liderou o VBP agropecuário em 2025, com R$ 372,2 bilhões enquanto a carne bovina veio na sequência, com R$ 250,8 bilhões, seguida pelo milho, com R$ 168,1 bilhões.
Os efeitos climáticos, entretanto, não atingem o território brasileiro da mesma forma. A diversidade regional da produção pode amortecer parte das perdas nacionais, embora determinadas áreas e cadeias permaneçam mais vulneráveis. “É desigual porque, quando prejudica uma área, acaba ajudando outra. O Brasil tem essa característica e, por isso, a perda total não costuma ser tão grande”, explicou Cogo.
O aumento dos custos adiciona outra preocupação sobre a resiliência das lavouras. Cogo projetou uma redução de 10% a 15% no consumo de fertilizantes diante da alta dos preços dos insumos e alertou que a menor utilização pode aumentar os impactos de uma eventual adversidade climática.
Algumas cadeias encontram mecanismos adicionais de proteção. Cogo citou o café ao destacar que a presença de pequenos produtores organizados em cooperativas amplia o acesso à orientação técnica. As características da cultura, contudo, limitam parte das alternativas de adaptação diante das oscilações de chuva e temperatura.
O desafio não está apenas em ampliar a produção. O setor também precisa proteger uma produtividade construída ao longo de décadas diante de riscos que passaram a atuar de forma simultânea.
Tecnologia e competitividade
A capacidade de responder a esse ambiente recoloca ciência, tecnologia e conhecimento no centro da estratégia. O Panorama do Agronegócio Brasileiro, da CNA, associa parte da transformação da agropecuária brasileira nos últimos 50 anos aos sucessivos ganhos de produtividade, aos investimentos em ciência e tecnologia e ao desenvolvimento de sistemas produtivos adaptados às condições tropicais.
Essa trajetória ajudou o país a construir uma posição relevante nas principais cadeias globais. O Brasil lidera atualmente a produção mundial de soja, café, suco de laranja, açúcar e carne bovina e aparece como maior exportador de soja, café, suco de laranja, açúcar, carne bovina, carne de frango e algodão. Dados atualizados apresentados pela CNA mostram ainda que as exportações do agronegócio brasileiro cresceram 4% em 2025 e alcançaram US$ 150,2 bilhões.
As ferramentas mudaram, mas a lógica permanece próxima. A ciência e a tecnologia ajudaram o Brasil a ampliar sua capacidade produtiva nas últimas décadas e agora também podem apoiar a antecipação de riscos e a tomada de decisões.
Crestana destacou no SuperAgro o potencial da inteligência artificial, da integração de informações e de tecnologias como os gêmeos digitais para ampliar essa capacidade. O pesquisador apontou que as ferramentas permitem cruzar diferentes dados e simular cenários antes de mudanças na produção. “O ponto central, porém, não é simplesmente acumular dados. É conseguir cruzar informações de diferentes origens e transformá-las em conhecimento útil”, afirmou.
A resposta aos novos riscos, no entanto, não se limita às ferramentas digitais. A discussão no SuperAgro também aproximou produtividade, conservação e viabilidade econômica ao abordar o avanço da agricultura regenerativa. Renata Piazzon, CEO do Instituto Arapyaú, destacou que os eventos climáticos já afetam os ciclos agrícolas e a avaliação de crédito aos produtores. “Agricultura regenerativa não é mais apenas uma agenda ambiental, mas uma agenda econômica e, por muitas vezes, de sobrevivência dos negócios”, afirmou.
A renda do produtor ocupa uma posição central nessa equação. Luis Collaço, gerente de ESG para chocolate e biscoitos da Nestlé Brasil, relacionou a adoção de práticas sustentáveis à capacidade de manter a atividade economicamente viável. “Não tem produtor verde no vermelho, ele tem que ganhar dinheiro”, afirmou.
Por João Victor Rezende com informações da Exame e da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil












