O agronegócio brasileiro atravessa um momento de transição geracional sem precedentes: estima-se que boa parte das propriedades rurais do país ainda não tem um plano formal de sucessão, justamente em um cenário de maior volatilidade climática, oscilação de preços e pressão por eficiência. Nesse contexto, as cooperativas têm assumido um papel cada vez mais ativo, não apenas como prestadoras de serviço, mas como articuladoras de continuidade para o produtor rural.
É sobre esse pano de fundo que José Geraldo da Silveira Mello, vice-presidente do Conselho de Administração da Coopercitrus e também produtor rural, conversa com a MundoCoop. Ele aborda como a preparação de novas gerações, tanto dentro das famílias quanto no mercado de trabalho do campo, se tornou tão urgente quanto a própria adoção de tecnologia, já que máquinas, drones e sistemas digitais só geram resultado quando há gente qualificada para operá-los.
Para construir um legado, uma cooperativa precisa preparar quem dará continuidade às propriedades. Por que a sucessão familiar ainda exige tanta conscientização?
A sucessão precisa ser planejada com antecedência. Todos nós temos um período em que estamos diretamente envolvidos na operação, mas também precisamos compreender que chegará o momento de preparar outras pessoas para assumir responsabilidades.
Eu também sou produtor rural e procuro aplicar isso na minha família. Tenho dois filhos agrônomos e uma filha que atua em outra área. Tenho buscado transmitir conhecimento, experiência e valores, além de organizar o processo de sucessão.
A cooperativa trabalha para conscientizar os produtores sobre a importância desse planejamento. Criamos a Liga Coopercitrus Jovem justamente para aproximar as novas gerações, mostrar as oportunidades existentes no campo e estimular a continuidade das atividades familiares.
Também procuramos oferecer apoio em questões financeiras, patrimoniais e jurídicas. Algumas famílias possuem estruturas mais complexas e precisam avaliar instrumentos como holdings, doações e outras formas de organização. Nesses casos, a cooperativa pode aproximá-las de profissionais especializados e ajudá-las a compreender as alternativas disponíveis.
Mais do que transmitir uma propriedade, é necessário preparar as pessoas para administrá-la e tomar decisões. A sucessão precisa ocorrer no momento adequado, com diálogo, planejamento e participação das diferentes gerações.
Além da sucessão familiar, como preparar os jovens para ocupar as novas funções que surgem no agronegócio?
A educação é fundamental para o futuro do agronegócio e da própria cooperativa. Por meio da fundação mantida pela Coopercitrus e de parcerias com instituições como Fatec e Etec, buscamos preparar profissionais para atividades que estão se tornando cada vez mais especializadas.
Essas iniciativas abrangem áreas como mecânica pesada, agricultura de precisão, Big Data aplicado ao agronegócio e processamento de informações. O objetivo é formar pessoas que futuramente possam atuar nas oficinas, nas áreas de tecnologia e em outras estruturas da cooperativa e das propriedades rurais.
O campo mudou muito. Hoje, máquinas, drones, dados e sistemas digitais fazem parte da rotina do produtor. Por isso, não basta apenas adquirir tecnologia. Precisamos ter profissionais capazes de operar, interpretar, realizar a manutenção e transformar essas ferramentas em resultados concretos.
Investir em educação significa preparar capital humano para os postos de trabalho que já existem e para as funções que ainda surgirão. Essa formação também ajuda a aproximar os jovens do agronegócio, porque mostra que o campo oferece oportunidades em diferentes áreas do conhecimento.
Com o avanço de tecnologias, o aumento do uso da inteligência artificial e a democratização da agricultura digital, a inovação tem ocupado um espaço cada vez maior na produção rural. Como aproximar essas soluções da realidade dos cooperados?
O agronegócio não para, e a cooperativa também não pode parar. Estamos trabalhando com iniciativas relacionadas à inteligência artificial, à agricultura digital, aos drones e a outras tecnologias que possam melhorar a atividade do cooperado.
As aplicações realizadas com drones, por exemplo, estão crescendo no campo. Ao mesmo tempo, é necessário preparar operadores, oferecer suporte técnico e estruturar oficinas capazes de atender esses equipamentos. Não adianta levar uma tecnologia à propriedade se o produtor não tiver pessoas qualificadas para operá-la ou uma estrutura de manutenção disponível.
Também avançamos em frentes relacionadas a defensivos, produtos biológicos, bioinsumos e fertilizantes. A busca é por soluções que tenham custos mais acessíveis e contribuam para ampliar a produtividade e a eficiência da propriedade.
A inovação precisa estar conectada às necessidades reais do produtor. Nosso planejamento estratégico procura identificar onde a tecnologia pode reduzir custos, melhorar processos, aumentar a segurança e gerar mais resultados. A inovação não pode ser apenas uma novidade; ela precisa fazer sentido dentro da atividade.
A partir da sua trajetória acompanhando o sucesso da Coopercitrus, quais caminhos devem orientar as cooperativas nos próximos anos?
O agro brasileiro continuará mudando, e precisamos acompanhar esse movimento. Um dos principais caminhos é ampliar a diversificação das propriedades, principalmente porque muitas regiões ainda dependem de poucas culturas.
Em algumas localidades, por exemplo, a produção está concentrada em cana-de-açúcar e citros. Ao mesmo tempo, os produtores enfrentam doenças, mudanças climáticas, oscilações de mercado e outros riscos. Por isso, buscamos variedades mais resistentes e estudamos alternativas que possam complementar a renda, como o cultivo de cacau e de café canéfora.
Essa diversificação é especialmente importante para os pequenos e médios produtores, que representam a maior parte da nossa base. Eles precisam de atividades economicamente viáveis, adaptadas às condições de cada região e capazes de garantir a continuidade da propriedade.
O futuro passa pela tecnologia, pela sustentabilidade, pela formação das pessoas e pela criação de novas oportunidades de produção. A cooperativa precisa continuar olhando para essas transformações e oferecendo alternativas para que o cooperado permaneça competitivo e sustentável.
Por João Victor Rezende – Redação MundoCoop

Entrevista exclusiva publicada na edição 133 da Revista MundoCoop












