Megacooperativa japonesa Zen-Noh amplia presença no Brasil com compra de 30% do Grupo Cereal 

Há quase uma década, a japonesa Zen-Noh entrou com força no Brasil pela porta das grandes tradings, a partir de uma joint-venture com Amaggi e LDC, a ALZ. Agora, decidiu apostar em uma empresa que nasceu no interior de Goiás e hoje fatura mais de R$ 5 bilhões.

A federação de cooperativas agrícolas do Japão, que reúne centenas de milhares de produtores japoneses e é um dos maiores grupos agrícolas do mundo, acertou a compra de 30% do Grupo Cereal, em operação anunciada nesta sexta-feira, 24 de julho.

Com o deal, a expectativa das empresas é de aproximar ainda mais a produção brasileira dos mercados asiáticos e também dar novo fôlego aos planos de expansão da companhia goiana, que vem crescendo com força nos últimos anos.

O valor da operação não foi divulgado e a conclusão do negócio ainda depende da aprovação dos órgãos reguladores.

Pelo acordo, a família Barauna, que comanda o Cereal desde a fundação, em 1981, permanecerá com 70% da companhia, mantendo o controle acionário majoritário, a gestão e a condução estratégica da empresa.

O fundador Evaristo Lira Barauna assumirá a presidência do Conselho de Administração do grupo.

A Zen-Noh Brasil é uma subsidiária da empresa norte-americana Zen-Noh Grain Corporation (ZGC), ligada, por sua vez, à japonesa Zen-Noh, federação que reúne 945 cooperativas agrícolas do Japão, congrega milhões de agricultores do país e está presente em 10 países/regiões ao redor do mundo.

Nos resultados mais recentes, que correspondem ao ano fiscal de 2024, que vai de abril de 2024 a março de 2025, a Zen-Noh faturou 4,8 trilhões de ienes (cerca de US$ 30 bilhões no câmbio atual).

A companhia japonesa atua no Brasil desde meados da década passada. Primeiro, estabeleceu parceria em 2013 com a Coamo, a maior cooperativa agropecuária do Brasil, para o fornecimento de grãos e dois anos depois, em 2015, estabeleceu um escritório em São Paulo.

A relação da Zen-Noh com o agronegócio brasileiro começou a ganhar mais corpo em 2017, quando a empresa passou a integrar, ao lado da Amaggi e da Louis Dreyfus Company (LDC), a ALZ Grãos, joint venture voltada à originação e exportação de soja e milho.

A ALZ concentra suas operações no Matopiba – região que reúne áreas agrícolas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – e opera um terminal de exportação no Porto de Itaqui (MA), por onde escoa parte da produção destinada ao mercado internacional.

Com sede em Rio Verde (GO), município que é o segundo maior produtor de soja e milho do Brasil, o Grupo Cereal atua na originação de grãos, comercialização de insumos agrícolas, processamento de soja e produção de biodiesel. Emprega aproximadamente 1 mil pessoas.

No ano passado, a companhia faturou R$ 5,2 bilhões, 23,8% a mais que os R$ 4,2 bilhões de 2024. O lucro líquido do período subiu fortemente, somando R$ 292 milhões, 104% de alta.

A companhia vem acelerando um ciclo de expansão nos últimos anos. Entre 2020 e 2025, investiu cerca de R$ 800 milhões na ampliação da indústria, construção de armazéns e aumento da capacidade de produção de biodiesel, conforme informou ao AgFeed seu CEO, Adriano Barauna, em entrevista concedida no ano passado.

Só no ano passado, foram aportados R$ 160 milhões, destinados à ampliação das unidades de armazenamento e aquisição de novas, levando a um aumento de 150 mil toneladas na capacidade ao longo do ano.

Para este ano, a expectativa da direção do Cereal era de investir mais R$ 100 milhões para ampliar a capacidade estática em, no mínimo, 50 mil toneladas e também para dar início a um projeto de expansão da capacidade produtiva de sua usina de biodiesel, passando de 650 mil litros para 1 milhão de litros por dia a partir de 2027.

Com operação diversificada, hoje o Cereal recebe cerca de 2 milhões de toneladas anuais de soja e milho, possui capacidade estática de armazenagem de 700 mil toneladas distribuídas em 14 unidades, esmaga 3 mil toneladas de soja por dia em uma unidade processadora de grãos e também produz biodiesel.

Para Ricardo Capone, presidente da Zen-Noh Brasil, a compra de parte do capital acionário do Cereal ocorreu após a identificação de uma empresa brasileira que reunia características consideradas essenciais pela cooperativa japonesa.

“A Zen-Noh avalia continuamente oportunidades de investimento alinhadas à sua estratégia global de longo prazo, e o Grupo Cereal reúne atributos que consideramos essenciais: uma trajetória sólida de mais de 40 anos, excelente reputação, profundo conhecimento do agronegócio brasileiro e forte relacionamento com os produtores rurais”, afirmou Capone, em nota.

Em vez de uma aquisição integral da empresa brasileira, a companhia japonesa disse, em entrevista conjunta com o Cereal por e-mail, ao AgFeed, que optou por uma participação minoritária justamente para preservar a gestão local.

“A aquisição de uma participação de 30% preserva a gestão local e o controle familiar, ao mesmo tempo em que permite unir a experiência internacional e a capacidade de investimento da Zen-Noh ao conhecimento e à presença regional do Grupo Cereal”, afirmaram as empresas.

Embora os detalhes financeiros não tenham sido revelados, a Zen-Noh afirma que o objetivo central da operação é fortalecer a capacidade de investimento do Grupo Cereal à frente.

“A parceria tem como principal objetivo fortalecer a capacidade de investimento do Grupo Cereal para sustentar seu crescimento de longo prazo. Isso inclui, principalmente, investimentos na expansão da infraestrutura, como armazenagem e recebimento de grãos em pontos estratégicos, além de apoiar a expansão geográfica da empresa e ampliar oportunidades de negócios”, afirmaram as duas empresas.

As companhias, contudo, preferiram não detalhar como os investimentos serão distribuídos entre os diferentes projetos.

Além de dar sustentação ao crescimento previsto para os próximos anos, a expectativa das empresas é que o acordo também permita ampliar gradualmente o acesso da produção brasileira de grãos – e da originação do Cereal – aos mercados internacionais, especialmente na Ásia, aproveitando a rede global da cooperativa japonesa.

“Ao unir a presença regional do Grupo Cereal à rede global da Zen-Noh, fortalecemos nossa capacidade de conectar a produção brasileira aos mercados internacionais de forma sustentável e de longo prazo”, disseram as companhias.

Uma fonte com conhecimento do mercado de grãos ouvida pelo AgFeed avalia que operações de fusões e aquisições entre tradings e empresas agrícolas tendem a ser mais comuns para que as comercializadoras consigam destravar a originação de grãos.

“Os M&As têm acontecido para solucionar problemas. A trading precisa do grão, ela só quer ter o grão e não quer resolver uma série de coisas no meio. Como resolver isso de forma segura? Com sociedade com empresas que originam o grão”, avalia.

Questionadas pelo AgFeed sobre uma eventual ampliação da participação acionária da Zen-Noh no Grupo Cereal no futuro, as empresas responderam que esse tema não está em discussão no momento.

“O foco das empresas está na implementação da parceria e na consolidação da aquisição da participação de 30%. Não comentaremos eventuais movimentos futuros”, disseram.

O Grupo Cereal foi assessorada pelo Rabobank e pela Alianzo, enquanto a Zen-Noh contou com Deloitte, Santos Neto Advogados e SL Process como assessores na transação.


Fonte: Italo Bertão Filho (AG Feed)

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