A confirmação de um El Niño forte a partir de novembro entrou no radar dos analistas de inflação no Brasil. A expectativa é de que o fenômeno climático impacte a produção de grãos, além de hortaliças e leite.
No início de junho, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontou 63% de probabilidade de um El Niño muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Com a confirmação, bancos e analistas começaram a revisar projeções de inflação.
O Copom, por exemplo, manteve a Selic em 14,25% ao ano, mas destacou dois vetores altistas: a persistência da desancoragem das expectativas, associada a choques de petróleo e efeitos climáticos sobre alimentos e energia, e estímulos à demanda, que podem elevar a atividade acima do potencial.
Como resultado, a projeção do IPCA para 2026 subiu de 4,6% para 5,2%.
No setor financeiro, o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) revisou o IPCA de 3,8% em janeiro para 4,5% em junho, prevendo que a inflação de alimentos atinja 7% em 2026 e 5,9% em 2027.
Os produtos mais sensíveis são milho, hortaliças, frutas, leite e trigo. Para proteínas, o impacto é indireto: a alta de milho e soja eleva o custo da ração, pressionando margens de aves, suínos e bovinos.
Um estudo dos economistas Caio Sousa e Fabio Rocha, que usou como base dados do Banco Central, estima que o El Niño pode adicionar entre 1,02 e 3,4 pontos percentuais à inflação de alimentos, podendo chegar a 6,78 pontos em um cenário extremo semelhante ao episódio de 2015-2016.
O impacto tende a se concentrar em produtos mais vulneráveis às condições climáticas, enquanto a revisão recente das projeções do mercado para a inflação de alimentos sugere que parte desse risco já começa a ser incorporada às expectativas.
Os autores ressaltam, porém, que o exercício não representa uma previsão fechada para o IPCA, mas uma estimativa da magnitude potencial do efeito climático sobre os preços dos alimentos.
No Brasil, os impactos variam conforme a região. Enquanto o Sul tende a registrar chuvas acima da média, áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos. Essa combinação afeta o calendário agrícola, reduz a produtividade e eleva os custos de produção.
“Pensando na safra brasileira, um El Niño ao longo deste segundo semestre deve gerar impactos sobre os preços dos alimentos mais intensos em 2027 do que agora, em 2026. Nas grandes commodities, a maior parte da safra já foi colhida ou está em desenvolvimento nas lavouras”, afirma Felippe Serigati, economista da FGV Agro.
Entre os produtos mais sensíveis estão grãos, hortaliças, frutas, leite e carnes. No caso das proteínas, o impacto ocorre de forma indireta: se milho e soja ficam mais caros, o custo da ração aumenta, pressionando as margens de aves, suínos e bovinos.
O que é o El Niño
No Brasil, um país de dimensões continentais, os efeitos do fenômeno não ocorrem de forma uniforme. “Podemos ter chuvas mais intensas, já que os eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes e severos”, afirma Bárbara Sentelhas, CEO da Agrymet.
No Sul do país, explica a especialista, o El Niño costuma provocar aumento no volume de chuvas, o que pode resultar em inundações, erosão do solo, maior incidência de doenças nas lavouras e perdas de produtividade decorrentes do excesso de água e da proliferação de pragas.
No Nordeste, por outro lado, o fenômeno tende a reduzir as precipitações, favorecendo períodos de seca, degradação de pastagens e diminuição da disponibilidade de água para irrigação, com impactos sobre culturas como feijão e milho.
Já no Centro-Oeste, os efeitos diretos costumam ser menos intensos, embora as temperaturas mais elevadas possam prolongar os períodos secos e aumentar o risco de incêndios.
Segundo o meteorologista Willians Bini, diretor da Metos, os modelos climáticos indicam que o Oceano Pacífico já apresenta uma tendência de aquecimento, mas o fenômeno ainda está em fase de formação.
“Mesmo quando existe um padrão histórico, os efeitos não se repetem exatamente da mesma forma em cada evento. É preciso cautela ao interpretar os impactos do fenômeno”, afirma.
Fonte: Exame com adaptações da MundoCoop












