Recuperação dos preços do leite no campo já dá sinais de esgotamento

Valor que os produtores recebem pela matéria-prima subiu 31% nos quatro primeiros meses do ano, mas laticínios projetam fim dos aumentos a partir de junho

O preço do leite pago ao produtor segue em patamar bem superior ao do início do ano, mas, após quatro meses de forte alta, começou a perder força no Brasil. A valorização é comum nessa época do ano, que é de entressafra, mas, segundo produtores, refletiu também o declínio dos preços no ano passado, que desestimulou a atividade. Fontes do segmento acreditam em desaceleração das cotações no segundo semestre, mas sem repetir a forte queda que se viu em 2025.

De janeiro a abril, o preço médio nacional do leite ao produtor subiu 31%, passando de R$ 2,02 para R$ 2,65, segundo o Cepea/Esalq/USP. A elevação teve reflexos também nas gôndolas dos supermercados. Desde o início do ano, o item leite e derivados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) já subiu 9,83%. No caso do leite longa vida, o aumento é ainda maior, de 22,32%.

De acordo com a Scot Consultoria, o preço do leite pago ao produtor em maio, referente ao produto entregue em abril, teve alta de 6,5%, ou o equivalente a R$ 0,15 por litro, em relação ao pagamento do mês anterior. Foi a quarta alta consecutiva, que levou para R$ 2,452 a cotação média ponderada nos dezoito Estados em que a consultoria faz a pesquisa.

A empresa ainda não concluiu o levantamento sobre o pagamento pela matéria-prima entregue em maio, mas quem acompanha o segmento avalia que a alta não deve se manter. Segundo levantamento da Scot, 49% dos laticínios consultados projetam que, no pagamento de junho, os preços ficarão estáveis em relação ao mês anterior. Das empresas ouvidas, 41% falam em queda e apenas 10% preveem que os preços subirão.

“Considerando a expectativa de uma boa segunda safra de milho e de elevação do esmagamento de soja no país, os alimentos concentrados poderão estimular investimento em nutrição e em aumento de produtividade em sistemas de produção mais intensivos. Isso também [explica] o viés de queda apontado pelos agentes”, diz o zootecnista Felipe Fabbri, consultor de mercado da Scot Consultoria.

Mercado

Os preços ao produtor e ao consumidor final começaram 2026 em um patamar até 20% inferior ao de um ano antes. Valter Galan, sócio da consultoria MilkPoint, diz que esse quadro estimulou a demanda, assim como o reajuste salarial acima da inflação e o baixo nível de desemprego.

“Iniciamos o ano após um semestre em que os preços tiveram uma queda bem forte [e, portanto, houve] perda de rentabilidade [no campo]. A produção vem se desacelerando, e a demanda, se recuperando”, analisa.

No ano passado, a aquisição de leite cru no Brasil cresceu 8,5%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O volume, de 27,5 bilhões de litros, foi um recorde no segmento.

No segundo semestre de 2026, a demanda seguirá firme, e a oferta, em desaceleração, acredita Galan. “Com isso, os preços talvez não subam. Eles chegaram a um patamar elevado, mas provavelmente não terão uma queda de montanha-russa, como vimos no ano passado”, avalia. Como a oferta de leite costuma crescer na segunda metade do ano, os preços devem começar a cair nesse período também para o consumidor. “Mas não muito rapidamente”, ressalva Galan.

No ano passado, o produtor começou março recebendo entre R$ 2,60 e R$ 2,80 por litro, mas encerrou dezembro com pagamentos na faixa de R$ 2, lembra o economista e pesquisador Glauco Carvalho, da Embrapa Gado de Leite. “Foi um período de margens muito apertadas, especialmente no último trimestre, com preços que dificultaram os trabalhos na atividade, mesmo em sistemas mais competitivos”, comenta. Segundo ele, o ano de 2026 é propício para o produtor reduzir despesas, descartar animais menos produtivos e não fazer grandes investimentos.

Custos

Uma das grandes preocupações dos produtores de leite é com a pressão dos custos, que tem crescido na esteira das tensões recentes no Oriente Médio, que encareceram fertilizantes e combustíveis. Produtores argumentam que esse quadro impediu a recuperação de margens na atividade.

“Essa melhora não gerou a recuperação de preços de que os produtores precisam. As cotações ainda estão abaixo dos valores do mesmo período de 2025”, afirma Geraldo Borges, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite). Os pecuaristas queixam-se, além disso, do aumento das importações de queijo e leite em pó e dos aumento dos preços dos principais insumos.

Demanda por whey protein

A demanda crescente por proteína de soro de leite, conhecida como “whey protein” no mercado de suplementos nutricionais, tem atraído o interesse da indústria. Segundo Valter Galan, a procura por esse derivado de leite está crescendo principalmente na Região Sul do país, onde está localizada boa parte do processamento de matéria-prima para a produção de proteínas concentradas.

O aumento da procura, que ocorre em um contexto de crescimento do consumo de alimentos saudáveis, tem elevado os preços do produto no mercado nacional. Segundo Galan, o preço do quilo do soro em pó, que era de cerca de R$ 6 em janeiro deste ano, chegou a quase R$ 7,50 em maio, mas já há registro de negócios fechados por valores entre R$ 9 e R$ 11 por quilo.


Fonte: Globo Rural com adaptações da MundoCoop

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