As mudanças climáticas e os riscos geopolíticos estão no centro das preocupações do agronegócio, e o próprio setor entende que está pouco preparado para mitigar seus eventuais impactos. Estudo da EY Brasil realizado com 52 companhias do setor, em todos os elos da cadeia, mostra que o clima continua sendo a maior preocupação assim como já era em levantamento de 2022. O principal novo temor é a geopolítica, que não constava na análise anterior.
Especialistas e lideranças ouvidas pelo Valor avaliam que falta investimento em pesquisa para adaptação aos eventos climáticos, fortalecimento no sistema de seguro rural, e foco maior nas políticas de conservação das florestas.
Nas questões geopolíticas, apontam que o Brasil precisa se antecipar a eventuais sanções, ter mais proatividade na construção de suas defesas e nas medidas de reciprocidade. Diversificação de mercados na exportação, para reduzir sobretudo a dependência da China, também é outra necessidade.

Os dados da EY mostram que 79% das empresas veem os riscos climáticos como altos ou muito altos, e o tema aparece como aquele em que o setor se sente menos preparado para responder. Para a consultoria, há uma lacuna relevante entre consciência do problema e capacidade de adaptação prática.
“O Brasil possui bom avanço tecnológico no uso de agricultura de precisão e adoção de genética. No entanto, temos um zoneamento agrícola que não considera o novo mapa de riscos climáticos”, afirma Otavio Lopes, sócio-líder de agronegócio da EY, ao Valor. O zoneamento é um instrumento de política agrícola, elaborado para minimizar os riscos climáticos e que permite aos produtores identificar a melhor época de plantio.
Lopes observa que a cada quatro safras de soja no Rio Grande do Sul, uma é perdida, enquanto no Paraná há uma perda para cada seis safras. “São números de muita expressão, talvez o problema não esteja ligado à adoção ou não das melhores práticas agrícolas, mas sim à reavaliação do zoneamento sob a ótica desses riscos e dos ciclos climáticos”, estima.
Marcelo Morandi, chefe de Relações Internacionais da Embrapa, afirma que o fator clima não é novo e o setor vem se preparando nos últimos anos para isso, mas ainda existem carências bastante grandes que deixam o produtor exposto aos riscos, como a falta de cobertura de seguro rural. “Temos trabalhado ao longo dos anos em sistemas de produção mais resilientes, que tenham resistência maior ao estresse hídrico e outras intempéries, com cobertura do solo e outras técnicas. Mas por mais que a gente tenha feito esse exercício ao longo dos anos, ainda estamos aprendendo com os eventos extremos”, reconhece o especialista.
“O investimento em pesquisa está muito aquém da velocidade que precisa. Em 50 anos de agricultura tropical, a gente promoveu um grande sistema de cultivares e agora precisamos dar um novo salto em função das mudanças climáticas, mas não temos mais 50 anos para isso”, acrescenta Morandi.
Grande parte dos agricultores tem consciência das questões relativas ao clima, diz o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Ingo Plöger. Entretanto, ele alega que a intensidade e as consequências dos eventos chegam a tirar os produtores mais endividados da atividade, por isso o setor necessita de um fundo de emergência climática, além de avançar no seguro rural.
Em relação ao desmatamento, um dos motivos das mudanças climáticas, Plöger diz que “temos uma legislação e temos que cumprir”, em referência ao Código Florestal. Ele afirma que “o Brasil hoje preserva dois terços de suas áreas e o pagamento por serviços ambientais ainda não saiu”.
Para o pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Paulo Barreto, o agronegócio tem posturas “contraditórias” quando o assunto é clima. “Parte do setor entende que precisa conservar as florestas e outra parte ainda nega o problema, mesmo sentindo os impactos em seca e chuvas, que se refletem em custos de produção”, afirma.
Segundo ele, alguns produtores “trabalham para reduzir as políticas ambientais que mitigariam os efeitos climáticos e ao mesmo tempo buscam recursos para lidar com as perdas causadas pelo clima”. Em sua visão, a política para o agro deveria incluir restauração florestal e conservação das florestas.
Na questão geopolítica, o baixo preparo do agro é resultado de um conjunto de fatores, diz Otávio Lopes. Entre eles a “a concentração excessiva de mercados” para venda da produção e a alta concentração de produtos com beneficiamento primário. Além disso, afirma, o agro ainda depende “muito de um modal rodoviário com rotas de escoamento estrangulado”, e “temos déficit de armazenamento, o que reduz a capacidade de arbitragem temporal”.
Ex-embaixador do Brasil nos EUA, Rubens Barbosa avalia que há uma “tendência geopolítica” de aplicação de barreiras e tarifas ao comércio internacional em várias regiões do planeta “que não vai se alterar”, e a saída é diversificar mercados. “O que o agronegócio tem que fazer é diversificar. Para os produtos que não entram mais nos EUA, ou que têm ameaça de redução [de entrada] na Europa ou na China, tem que buscar outros mercados, não tem saída”, diz.
Num ambiente em que as disputas comerciais avançam, o Brasil deve ser mais enfático na adoção de “políticas de reciprocidade” nos casos de sanções, na avaliação de Ingo Plöger, da Abag. “É preciso saber jogar o jogo”.
Leandro Gilio, professor do Insper Agro Global e coordenador da área de comércio, geopolítica e segurança alimentar, defende que o Brasil precisa ser mais proativo em negociar parcerias globais, tanto do ponto de vista diplomático quanto corporativo. “Seria melhor antever as crises, para não ter que ficar correndo atrás das consequências”, afirma.
Fonte: Nayara Figueiredo e Camila Souza Ramos (Globo Rural) com adaptações da MundoCoop












