Durante décadas, a origem do cooperativismo de crédito foi tratada como um consenso na historiografia internacional. A Alemanha, com os modelos de Raiffeisen e Schulze-Delitzsch, ocupava o centro dessa narrativa, enquanto Rochdale, na Inglaterra, consolidava os princípios do cooperativismo moderno. No entanto, uma revisão recente reposiciona esse entendimento e revela uma nova camada dessa história, até então pouco explorada.
A pequena cidade de Sobotište, na atual Eslováquia, surge agora como o local onde foi criada, em 1845, a primeira cooperativa de crédito do mundo. A iniciativa, liderada por Samuel Jurkovič, antecipa experiências que mais tarde se tornariam referência global e amplia a compreensão sobre como o movimento cooperativista se desenvolveu em diferentes contextos sociais e políticos.

Segundo o historiador Rodrigo Trespach, a revisão se sustenta tanto pelo recorte temporal quanto pelas características da organização. “Temos registros de que o movimento liderado por Jurkovič em Sobotište é anterior aos das ações de Schulze-Delitzsch e Raiffeisen na Alemanha. Na verdade, é quase simultâneo ao de Rochdale, na Inglaterra.” A afirmação desloca o eixo da narrativa tradicional e evidencia que o cooperativismo de crédito não surgiu de forma isolada, mas como parte de um movimento mais amplo e diverso.
RAÍZES DO MODELO COOPERATIVO
A experiência de Sobotište não pode ser compreendida fora de seu contexto histórico. Inserida em uma região periférica do Império Austríaco, a comunidade vivia sob limitações políticas, econômicas e culturais. Esse cenário contribuiu diretamente para o surgimento de iniciativas coletivas voltadas à sobrevivência e ao fortalecimento social.
Diferentemente de Rochdale, que tinha foco no consumo, a cooperativa eslovaca já nascia estruturada em torno do crédito e da poupança, com regras claras de participação e forte engajamento comunitário. Mais do que uma solução financeira, tratava-se de uma resposta às condições adversas enfrentadas por uma população marginalizada.
“Esse contexto é completamente diferente da experiência inglesa, por exemplo. Por isso, o cooperativismo de Sobotište tinha um aspecto social forte, que ia além da questão financeira”, explica Trespach. A organização também incorporava valores relacionados à educação, à ética e à vida comunitária, elementos que hoje são reconhecidos como pilares do cooperativismo, mas que já estavam presentes em suas primeiras manifestações.
Ainda assim, fatores políticos contribuíram para que essa experiência permanecesse à margem da história dominante. “Enquanto Alemanha e Inglaterra trabalhavam fortemente a identidade nacional, os eslovacos tinham seu idioma e sua independência política limitados por um governo estrangeiro. Dentro desse cenário, o movimento de Jurkovič era quase subversivo, por isso acabaram suprimidos pela maré da história”, afirma o historiador. A dissolução da cooperativa poucos anos após sua criação também contribuiu para seu apagamento ao longo do tempo.

“Não descarto que possamos encontrar outras experiências de cooperativas ainda mais antigas”
– Rodrigo Trespach, pesquisador e historiador
UMA DESCOBERTA QUE AMPLIA O PRESENTE
Mais do que uma correção histórica, o reconhecimento de Sobotište como berço do cooperativismo de crédito provoca reflexões sobre o próprio desenvolvimento do movimento ao longo dos séculos.
Ao revelar que iniciativas semelhantes surgiam em diferentes regiões, a descoberta reforça o caráter coletivo, orgânico e descentralizado do cooperativismo. “A compreensão da história está em constante transformação. Cada vez que encontramos novos fatos ou eventos e os trazemos para o conhecimento geral, ampliamos nosso entendimento do todo. Sobotište nos ajuda a sair da “bolha” e compreender melhor o movimento cooperativista. Até agora tínhamos uma visão quase única, consolidada a partir da perspectiva de duas potências mundiais na era industrial, a Alemanha e a Inglaterra. Hoje sabemos que o movimento não era algo tão isolado ou pontual.”, destaca Trespach. Essa nova perspectiva abre espaço para outras investigações e sugere que ainda há lacunas importantes a serem preenchidas.
Para o presidente do Conselho de Administração da Sicredi Caminho das Águas, Álvaro Link, o impacto vai além da academia e alcança a forma como o cooperativismo se entende e se projeta. “A importância dessa descoberta se refere exatamente a entender que existem outras camadas ainda a serem descobertas.” Ele ressalta que a trajetória do setor ainda carece de aprofundamento e revisão crítica, especialmente a partir de fontes originais.
Nesse sentido, apoiar pesquisas e iniciativas de resgate histórico torna-se estratégico. “Há uma responsabilidade, acima de tudo, do cooperativismo e das cooperativas de olhar para isso de forma um pouco mais cuidadosa”, afirma. Para ele, sair de uma visão superficial e investir em conhecimento estruturado é essencial para fortalecer a identidade do setor.
Ao conectar passado e presente, a redescoberta de Sobotište também reposiciona o futuro do cooperativismo, onde revisitar as origens do movimento pode representar não apenas um exercício histórico, mas um caminho de reinvenção. “O resgate da história é o resgate dos princípios, é o resgate da essência”, afirma Álvaro Link.
Segundo ele, compreender essas raízes permite traduzir os valores cooperativistas de forma mais consistente para as novas gerações, fortalecendo o senso de pertencimento e a relevância do modelo. “A grande inovação vai ser o ser humano se encontrar com o ser humano”, destaca. Nesse sentido, o cooperativismo, ao manter sua base na coletividade e na participação, reafirma sua atualidade.
“O cooperativismo precisa descobrir, valorizar, evidenciar e trazer para a população e para a popularidade os seus heróis.”
– Álvaro Link, presidente do Conselho de Administração da Sicredi Caminho das Águas

Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop
*Matéria exclusiva da Revista MundoCoop ed 131












