O cooperativismo do Rio Grande do Sul ocupa hoje uma posição que ultrapassa a representatividade setorial. O movimento se afirma como uma das principais engrenagens da economia estadual, com presença transversal em cadeias produtivas, forte capilaridade territorial e influência direta na geração de riqueza e empregos. Em um estado historicamente marcado pela organização coletiva, o modelo cooperativo se consolida como infraestrutura econômica e social.
Os números ajudam a dimensionar essa relevância. O cooperativismo gaúcho reúne cerca de 4,2 milhões de cooperados, gera 78,5 mil empregos diretos e movimenta um faturamento anual superior a R$ 93 bilhões, respondendo por aproximadamente 14% do Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul. Além disso, o estado concentra mais de 350 cooperativas em operação, formando um dos maiores e mais diversificados ecossistemas cooperativistas do país.
Esse peso, no entanto, não se expressa apenas em escala, mas se materializa na capacidade das cooperativas de estruturar mercados, organizar produtores, ampliar acesso a serviços e sustentar atividades econômicas em praticamente todas as regiões do território, do meio rural aos centros urbanos.
Em entrevista exclusiva à MundoCoop, Darci Pedro Hartmann, presidente da Ocergs, avalia que o cooperativismo gaúcho ocupa hoje um papel central no desenvolvimento econômico do estado, tanto pela escala alcançada quanto pela capacidade de gerar impacto social. “O cooperativismo gaúcho tem papel fundamental no desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul. Com faturamento anual superior a R$ 93 bilhões, o setor responde por aproximadamente 14% do PIB do estado. O crescimento da base de cooperados para 4,2 milhões de pessoas e o aumento na geração de empregos para 78,5 mil postos demonstram que as cooperativas seguem sendo uma alternativa sólida, inclusiva e resiliente”, afirma.
Cooperativismo como infraestrutura econômica e territorial
A força do cooperativismo gaúcho está diretamente associada à sua presença estruturante na economia. As cooperativas atuam desde a produção primária até a indústria e passam por setores como crédito, saúde, infraestrutura, transporte e serviços, o que acaba por formar um ecossistema conectado em diferentes elos das cadeias produtivas do estado.
Além da presença territorial, o cooperativismo gaúcho também se traduz em robustez financeira, sustentada pelos volumes expressivos de ativos e de negócios. Com mais de R$ 216 bilhões em ativos totais e R$ 90,5 bilhões em volume de negócios, as cooperativas operam em patamar comparável ao de grandes grupos empresariais, mantendo, ao mesmo tempo, a lógica distributiva e o vínculo com o território.

“Quando falamos em longevidade, falamos necessariamente de qualificação. Investimos na formação de dirigentes, conselheiros e equipes técnicas porque entendemos que cooperativas bem geridas são cooperativas mais sustentáveis.” – DARCI HARTMANN, PRESIDENTE DO SISTEMA OCERGS
Em muitos municípios, as cooperativas figuram entre os principais agentes econômicos, responsáveis por sustentar empregos, estimular investimentos e garantir circulação de renda.
Do ponto de vista institucional, esse ambiente é sustentado por um sistema organizado e capilarizado. O Sistema Ocergs representa mais de 370 cooperativas de diferentes ramos, atuando em frentes como representação, formação, apoio técnico, diagnóstico de gestão e fortalecimento da governança.
“O Rio Grande do Sul tem uma cultura cooperativista muito forte, construída ao longo do tempo. Essa identidade, somada à organização do sistema, cria um ambiente favorável para o crescimento estruturado das cooperativas”, destaca Hartmann.
A manutenção desse nível de presença econômica depende, necessariamente, da capacidade de organizar, planejar e evoluir continuamente.
Educação, governança e gestão
No Rio Grande do Sul, a permanência de centenas de cooperativas por décadas está diretamente associada à profissionalização da gestão e à formação contínua de lideranças, elementos que se tornaram eixos centrais da estratégia do sistema.
A distribuição etária das cooperativas reforça esse diagnóstico. Pelo menos 124 cooperativas possuem mais de 40 anos de atuação, enquanto outras 64 estão na faixa entre 21 e 40 anos, o que forma um contingente expressivo de organizações que atravessaram diferentes ciclos econômicos sem perder capacidade operacional.
A educação cooperativista também ocupa papel central nesse processo. A atuação da Escola Superior do Cooperativismo (Escoop), aliada à oferta de cursos de graduação, pós-graduação e programas específicos em temas como ESG, fortalece a preparação técnica e estratégica dos quadros que conduzem as cooperativas.
Paralelamente, instrumentos de monitoramento e diagnóstico ampliam a qualidade da governança. Ferramentas como o AvaliaCoop permitem mapear pontos fortes, fragilidades e oportunidades de melhoria, enquanto o InovaCoop RS estimula a modernização de processos e modelos de negócio. “Quando falamos em longevidade, falamos necessariamente de qualificação. Investimos na formação de dirigentes, conselheiros e equipes técnicas porque entendemos que cooperativas bem geridas são cooperativas mais sustentáveis”, ressalta o presidente.
Solidez financeira como investimento
Solidez financeira, no cooperativismo gaúcho, não é ponto de chegada. É ponto de partida.
A consistência patrimonial construída ao longo dos anos amplia a capacidade das cooperativas de investir em projetos que agregam valor à produção e ampliam a competitividade no estado.
Na Região Norte do estado, as cooperativas Cotrisal, Cotripal e Cotrijal anunciaram investimento conjunto de R$ 1,25 bilhão para a implantação de uma planta de processamento de soja e produção de etanol, em Cruz Alta.
Outro destaque é a retomada do Termasa, primeiro terminal graneleiro do Brasil, pela cooperativa CCGL, prevista para 2026, após paralisação causada pelas enchentes de 2024. Já as cooperativas de infraestrutura anunciaram R$ 369,5 milhões em investimentos na rede elétrica rural, sendo R$ 71,3 milhões viabilizados por meio do programa Energia Forte no Campo.
Ao serem materializados em projetos de grande escala, esses investimentos ampliam a competitividade das cooperativas e produzem efeitos diretos sobre emprego, renda e dinamização econômica. “A solidez financeira permite que as cooperativas invistam em plantas industriais, energia, logística, armazenagem e agregação de valor. São projetos que fortalecem cadeias produtivas e impactam diretamente o desenvolvimento regional”, afirma Hartmann.
Além do impacto econômico, parte dos resultados também retorna às comunidades por meio de ações sociais. O Fundo Social das cooperativas financia iniciativas em educação, saúde, esporte e inclusão, ampliando o alcance do cooperativismo para além do ambiente de negócios.
“Crescemos economicamente, mas sem perder o compromisso com as pessoas e com as comunidades onde estamos inseridos”, complementa.
Participação, diversidade e futuro
A base social formada majoritariamente por pessoas físicas, que ultrapassa 4 milhões de cooperados, reforça o caráter democrático, participativo e comunitário do cooperativismo gaúcho. Esse perfil amplia o engajamento e fortalece o vínculo entre as cooperativas e seus territórios.
Nos últimos anos, o sistema também avançou em políticas estruturadas de diversidade, com destaque para o Comitê Elas pelo Coop, que busca ampliar a presença feminina em espaços de liderança e estabelecer metas de equilíbrio de gênero.
Outro eixo estratégico é a aproximação com os jovens. Programas voltados à Geração C e a presença do cooperativismo em ambientes de diálogo com a juventude procuram apresentar o modelo como alternativa alinhada a propósito, impacto e inovação.
“O futuro do cooperativismo passa por formar novas lideranças, ampliar a diversidade e dialogar com a juventude. Precisamos mostrar que o cooperativismo é um modelo moderno, inovador e alinhado aos valores das novas gerações, sem abrir mão dos princípios que nos trouxeram até aqui”, conclui Hartmann.
Por João Victor Rezende, Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 128 da Revista MundoCoop












