A Finlândia consolidou um dos modelos cooperativistas mais abrangentes do mundo. Com aproximadamente 5,65 milhões de habitantes, o país reúne mais de 3 mil cooperativas e organizações mutualistas, responsáveis por cerca de 7 milhões de vínculos associativos. Segundo a Pellervo Coop Center, aproximadamente 80% dos finlandeses pertencem a pelo menos uma cooperativa.
Essa presença vai além dos setores tradicionalmente associados ao cooperativismo. Organizações controladas por consumidores, produtores e clientes ocupam posições de destaque no sistema financeiro, no varejo alimentar, nos seguros e nas indústrias de alimentos e produtos florestais. No setor bancário, por exemplo, o OP Pohjola concentrava 40,8% dos depósitos das instituições de crédito em 2024, enquanto o S Group alcançou 49% do mercado de varejo alimentar em 2025.
A dimensão desses negócios revela um modelo que combina propriedade coletiva, integração empresarial e competitividade. Mais do que a quantidade de cooperativas, a experiência finlandesa chama a atenção pela capacidade de transformar organizações de base associativa em grupos econômicos presentes no cotidiano da população.
Embora os 7 milhões de vínculos não correspondam a pessoas únicas, uma vez que um mesmo cidadão pode participar de diferentes organizações, o indicador demonstra o alcance do cooperativismo na economia nacional. Em um mesmo país, consumidores são proprietários de redes de supermercados, clientes participam da propriedade de instituições financeiras e produtores rurais controlam indústrias com atuação internacional.
As origens de um modelo nacional
O desenvolvimento do cooperativismo finlandês está relacionado às transformações econômicas e sociais do fim do século XIX. Naquele período, a Finlândia ainda era um Grão-Ducado autônomo dentro do Império Russo, com uma economia predominantemente agrícola e marcada pela dispersão territorial. Pequenos produtores enfrentavam dificuldades para acessar crédito, adquirir insumos e comercializar sua produção.
Nesse contexto, a organização cooperativa surgiu como uma alternativa para ampliar a capacidade econômica das comunidades. Ao reunir produtores e consumidores em estruturas empresariais próprias, o modelo permitia compartilhar recursos, organizar a produção e fortalecer a negociação com outros agentes do mercado.
Um dos principais marcos dessa trajetória ocorreu em 1899, com a fundação da Pellervo Society, organização criada para disseminar os princípios cooperativistas, apoiar a constituição de cooperativas e promover a formação de lideranças. Dois anos depois, em 1901, entrou em vigor a primeira legislação cooperativa do país.
A criação da Pellervo esteve diretamente associada à atuação de Hannes Gebhard e Hedvig Gebhard. Economista, professor e parlamentar, Hannes estudou experiências cooperativas europeias e contribuiu para adaptar o modelo às necessidades finlandesas. Hedvig, jornalista, educadora e parlamentar, desempenhou papel importante na educação popular, na divulgação das ideias cooperativas e na aproximação do movimento com a vida das famílias.
O cooperativismo financeiro também recebeu influência das experiências europeias de crédito rural, especialmente da tradição alemã associada a Friedrich Wilhelm Raiffeisen. Na Finlândia, entretanto, essas referências foram adaptadas à organização territorial e às necessidades econômicas locais, contribuindo para a formação de estruturas cooperativas progressivamente integradas.
Atualmente, a Pellervo Coop Center permanece como uma das principais organizações nacionais de representação, promoção e articulação do cooperativismo e do mutualismo. Guardadas as diferenças institucionais, sua atuação apresenta semelhanças com o papel exercido pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).
Essa trajetória ajuda a compreender uma característica do modelo finlandês: o crescimento das cooperativas esteve associado à construção de estruturas de representação, formação e organização econômica que permitiram ampliar sua atuação para diferentes mercados.
Cooperativas ocupam posição central no sistema financeiro
O setor financeiro representa uma das expressões mais significativas da presença cooperativa na economia finlandesa. O principal exemplo é o OP Pohjola, maior grupo financeiro do país, formado por 93 cooperativas bancárias independentes, uma cooperativa central e empresas que atuam nos segmentos de crédito, seguros, investimentos e gestão patrimonial.
Com mais de 2,1 milhões de proprietários-clientes, o grupo mantém uma estrutura na qual os associados são donos das cooperativas bancárias locais e, indiretamente, participam da propriedade do sistema. Essa organização permite combinar o relacionamento com os clientes em nível regional com uma estrutura financeira de alcance nacional.
Segundo os dados comparáveis da Finance Finland, referentes a dezembro de 2024, o OP Pohjola concentrava 34,2% dos empréstimos e 40,8% dos depósitos das instituições de crédito do país. Os indicadores colocam o cooperativismo em posição de destaque em um dos mercados mais competitivos da economia.
Além da participação financeira, o grupo apresenta mecanismos próprios de retorno econômico aos associados. Em 2025, seus proprietários-clientes acumularam 327 milhões de euros em OP bonuses, benefícios que podem ser utilizados em serviços bancários, seguros e investimentos, conforme as regras da instituição.
Outro diferencial é a presença nas grandes cidades. Por meio da cooperativa regional OP Uusimaa, o sistema atua em Helsinque, Espoo, Vantaa e outros municípios da região metropolitana, oferecendo serviços para pessoas físicas, empresas e investidores. A atuação demonstra que o cooperativismo financeiro finlandês ultrapassou suas origens rurais e alcançou diferentes perfis de consumidores.
O OP Pohjola não é, entretanto, o único representante do modelo no sistema financeiro. O POP Bank Group reúne aproximadamente 18 bancos cooperativos, cerca de 250 mil clientes e uma rede de atendimento concentrada principalmente em comunidades regionais. Em 2024, respondia por 1,7% dos empréstimos e 2,3% dos depósitos das instituições de crédito finlandesas.
Já o S-Bank apresenta uma estrutura diferente. Embora não seja uma cooperativa de crédito, a instituição é controlada pelo S Group, sistema formado por cooperativas de consumo. Nesse caso, o vínculo de propriedade ocorre indiretamente, por meio da participação dos consumidores nas cooperativas regionais que integram o grupo.
Em 2025, o S-Bank registrou 10,2 bilhões de euros em depósitos, carteira de crédito de 9,4 bilhões de euros e 858 mil clientes ativos. Sua atuação também está integrada aos serviços e benefícios oferecidos pelo sistema cooperativo de consumo.
Considerados em conjunto, OP Pohjola, POP Bank e S-Bank respondiam por aproximadamente 39,3% dos empréstimos e 48% dos depósitos das instituições de crédito finlandesas em 2024. A participação evidencia a importância das organizações cooperativas e de propriedade cooperativa indireta para o financiamento de famílias, empresas e atividades econômicas no país.
Do supermercado aos serviços urbanos
Se o setor financeiro demonstra a força institucional do cooperativismo finlandês, o varejo alimentar revela sua presença no cotidiano da população. O principal representante é o S Group, sistema formado por 19 cooperativas regionais que atuam em supermercados, lojas, postos de combustível, restaurantes, hotéis, comércio eletrônico e serviços financeiros.
O grupo reúne marcas como Prisma, S-market, Alepa, Sale, ABC e Sokos Hotels, presentes em diferentes regiões do país. Por meio dessa rede, os membros das cooperativas participam de um ecossistema de consumo que integra compras, serviços, benefícios e relacionamento financeiro.
Em 2025, as vendas combinadas do S Group alcançaram 15,4 bilhões de euros, com resultado operacional de 495 milhões de euros. No mesmo período, o sistema realizou investimentos de 683 milhões de euros na Finlândia e distribuiu um valor recorde de 558 milhões de euros em bônus e outros benefícios monetários aos associados.
A participação no varejo alimentar chegou a 49%, indicando que praticamente metade do mercado nacional é atendida por uma rede cooperativa de consumo. O resultado demonstra a capacidade dessas organizações de disputar grandes mercados e organizar operações de alcance nacional sem abandonar a propriedade dos consumidores.
Essa presença também se destaca nos centros urbanos. Na região metropolitana de Helsinque, a HOK-Elanto, maior cooperativa regional do S Group, reunia mais de 724 mil membros-proprietários ao fim de 2025. A organização contava com aproximadamente 7 mil empregados, faturamento próximo de 2,7 bilhões de euros e mais de 400 pontos de serviço.
A atuação nas grandes cidades acompanha a expansão dos canais digitais. No S Group, aplicativos, cartões, serviços bancários e plataformas de comércio eletrônico integram o relacionamento com os associados. Em 2025, as lojas online e as vendas por dispositivos móveis já representavam um negócio de aproximadamente 1 bilhão de euros.
A integração entre diferentes atividades também amplia as possibilidades de relacionamento com o consumidor. Um mesmo associado pode realizar compras em supermercados, utilizar serviços financeiros, abastecer o veículo e acessar benefícios oferecidos pelas cooperativas regionais.
Nesse modelo, a participação cooperativa não depende exclusivamente da distribuição de resultados ao fim do exercício. Ela também se manifesta por meio da utilização frequente dos serviços, dos benefícios econômicos acumulados e da capacidade de atender diferentes necessidades dos associados.
A força cooperativa na indústria e nos seguros
A presença cooperativa na Finlândia também se estende a setores industriais e ao mercado de proteção patrimonial. Entre os principais exemplos estão a LocalTapiola, a Valio e o Metsä Group, organizações que apresentam diferentes estruturas de propriedade coletiva e atuação econômica.
No setor de seguros, a LocalTapiola demonstra a relevância do mutualismo. O grupo reunia 1,84 milhão de clientes em 2025, com uma estrutura formada por 19 companhias mútuas regionais e aproximadamente 200 escritórios distribuídos pelo país.
Embora possua características distintas das cooperativas de crédito e consumo, o modelo mutualista compartilha a lógica de participação dos clientes na propriedade das organizações. Essa estrutura permite estabelecer mecanismos de retorno econômico e relacionamento que ultrapassam a contratação tradicional de serviços.
Em 2025, a LocalTapiola registrou resultado operacional de 446 milhões de euros e concedeu 185 milhões de euros em bônus aos clientes. O grupo também administrava 35,2 bilhões de euros em ativos brutos, demonstrando a escala alcançada por organizações baseadas no mutualismo.
Na agroindústria, a Valio representa a capacidade de produtores rurais controlarem empresas com atuação internacional. A companhia pertence a aproximadamente 3 mil fazendas leiteiras por meio de cooperativas e desenvolve atividades relacionadas à produção de laticínios, ingredientes, tecnologia de alimentos e exportação.
Fundada há 120 anos, a empresa alcançou receita líquida de 2,4 bilhões de euros em 2025, superando o resultado registrado no ano anterior. Parte importante de seu desempenho está relacionada à capacidade de agregar valor à produção leiteira e organizar uma cadeia industrial controlada pelos próprios produtores.
O retorno econômico aos fornecedores também apresenta indicadores relevantes. Em 2025, o valor médio pago pelo leite às cooperativas foi de 54,1 centavos de euro por litro, ante 50,9 centavos em 2024. O indicador ajuda a demonstrar como o desempenho da indústria se relaciona com a remuneração das organizações proprietárias.
Outro exemplo está na indústria florestal, um dos segmentos estratégicos da economia finlandesa. O Metsä Group é controlado pela Metsäliitto Cooperative, organização que reúne aproximadamente 90 mil proprietários florestais do país.
O grupo atua em atividades relacionadas à madeira, celulose, papel-cartão, produtos de higiene, bioprodutos e serviços florestais. Em 2025, registrou vendas de 5,8 bilhões de euros e mantinha aproximadamente 8.800 empregados.
Sua estrutura conecta milhares de proprietários locais a uma cadeia industrial com presença internacional, permitindo integrar o fornecimento de matéria-prima, o processamento industrial e a comercialização de produtos de maior valor agregado.
Embora atuem em mercados distintos, LocalTapiola, Valio e Metsä Group apresentam uma característica comum: a propriedade coletiva está associada a estruturas empresariais capazes de operar em grande escala. Os exemplos ampliam a compreensão sobre o cooperativismo finlandês e mostram que sua relevância econômica não depende de um único ramo de atividade.
As lições da experiência finlandesa
A trajetória das cooperativas finlandesas oferece referências importantes para o debate sobre competitividade, governança e desenvolvimento do cooperativismo brasileiro. Embora os dois países apresentem diferenças populacionais, econômicas e regulatórias, alguns elementos ajudam a compreender como organizações de base associativa podem alcançar posições relevantes em mercados de grande escala.
Um deles é a capacidade de integrar estruturas locais a sistemas empresariais mais amplos. No OP Pohjola e no S Group, cooperativas regionais participam de organizações centrais que permitem compartilhar tecnologia, serviços, marca e estruturas de gestão. Essa integração amplia a capacidade competitiva sem exigir que todas as operações sejam conduzidas individualmente pelas cooperativas.
A experiência também demonstra a importância de organizar cadeias produtivas. Na Valio e no Metsä Group, produtores e proprietários locais participam da propriedade de empresas industriais que processam e comercializam sua produção. Dessa maneira, a atuação cooperativa ultrapassa a organização inicial dos fornecedores e alcança outras etapas de geração de valor.
Outro aspecto relevante está na diversidade dos benefícios oferecidos aos associados. No sistema financeiro e no varejo, o retorno econômico aparece em bônus, serviços e vantagens relacionadas à utilização das organizações. Na agroindústria, a geração de valor está associada à remuneração dos produtores e à capacidade de ampliar mercados para seus produtos.
Essa diversidade sugere que a percepção do diferencial cooperativo depende da capacidade de demonstrar resultados concretos aos membros. Mais do que divulgar princípios institucionais, as organizações precisam transformar sua estrutura de propriedade em benefícios reconhecidos por consumidores, produtores e clientes.
A presença em grandes cidades e a integração de serviços digitais também representam elementos importantes da experiência finlandesa. O alcance do OP Pohjola e do S Group demonstra que a proximidade com os associados pode ser construída por diferentes canais, combinando atendimento regional, conveniência, tecnologia e serviços integrados.
Para o Brasil, onde o cooperativismo possui forte participação em setores como crédito, agropecuária e saúde, esses exemplos oferecem possibilidades de reflexão sobre intercooperação, diversificação de atividades e ampliação da presença em mercados urbanos.
A experiência finlandesa não representa um modelo que possa ser reproduzido integralmente em outras economias. Seu desenvolvimento está relacionado a condições históricas, institucionais e sociais específicas, construídas ao longo de mais de um século.
Ainda assim, os resultados demonstram que a organização coletiva da propriedade pode sustentar empresas de grande porte, presentes em mercados competitivos e conectadas às necessidades de seus associados.
Na Finlândia, essa combinação deixou de representar apenas uma alternativa empresarial e passou a constituir parte significativa da própria organização econômica nacional.
Fonte: Sicoob com adaptações da MundoCoop












