Mulheres têm 50% mais chances de alcançar a alta liderança dentro de uma cooperativa do que em empresas de capital aberto. Esta é uma das conclusões do mais recente Relatório de Dados Gerais do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
Atualmente, no setor cooperativista, 23 a cada 100 líderes de alta gestão são mulheres, segundo o Sistema de Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). Já no mercado tradicional, o índice é de 15,2%, indica o IBGC. A estrutura democrática, com foco na gestão participativa e em princípios de igualdade, é o que favorece a força da liderança feminina, de acordo com a análise do IBGC, contribuindo para o acesso das mulheres em momentos de tomada de decisão.
Outro ponto é que as empresas cooperativistas não possuem o interesse somente no lucro, pois prezam por um ambiente de trabalho mais empático e colaborativo. Exemplo disto é a existência do comitê “Elas pelo Coop”, do Sistema OCB, e de programas de capacitação do IBGC, que servem de redes de apoio e preparação para que as mulheres ocupem cargos de alta gestão. O objetivo dessas ações de governança do cooperativismo é estimular ambientes ainda mais inclusivos, caracterizados pela quebra de barreiras culturais e de preconceitos existentes no mercado de trabalho tradicional.
Os dados confirmam a eficácia dessas ações: a participação feminina nos cargos de alta liderança tem crescido no setor cooperativista. Em 2020, era de 17%, saltando seis pontos percentuais em 2026, de acordo com a OCB, que é a entidade máxima de representação política, institucional e de defesa do sistema cooperativista do Brasil.
Tânia Zanella, presidente executiva do Sistema OCB, personifica essa mudança. Depois de ingressar em 2008 na organização, percorreu vários cargos até chegar à presidência, inclusive na Câmara dos Deputados. Desde o início, Tânia afirma ter compreendido o que o cooperativismo valoriza: a capacidade de construir junto, de ouvir, de articular e de transformar interesses coletivos em soluções concretas. “Encontrei espaço para crescer por meio do diálogo, da construção de consensos, da entrega consistente e da confiança”, indica.
Embora propício, o ambiente cooperativo não a isentou de ter de comprovar que liderança não tem gênero. Para isso, ao longo da trajetória, teve de atuar com consistência, preparo técnico, equilíbrio e entrega. Os frutos têm sido colhidos. “Fui a primeira mulher a ocupar cargos estratégicos no Sistema OCB, e isso trouxe desafios extras e a responsabilidade de abrir caminhos. Aprendi que ser ouvida e respeitada passa por conhecimento, coerência, serenidade e capacidade de construir confiança ao longo do tempo”, sustenta Tânia.
A trajetória da cientista de computação Lívia Maria Almeida Duarte ratifica esta percepção. Especialista em manutenção de aeronaves, administração empresarial e qualidade e cooperativismo, ela está em seu quarto mandato como presidente da Cooperativa de Trabalho dos Prestadores de Serviços Autônomos (COOPRESA), onde ingressou aos 19 anos.
Na época, Lívia foi a primeira mulher a ingressar na cooperativa, a única no Brasil voltada à manutenção de aeronaves, setor ocupado predominantemente por homens. “Uma das grandes dificuldades, para mim, são os momentos de solidão e o desafio em dividir a minha vida pessoal com o cotidiano da COOPRESA”, relata a presidente.
Para a executiva, a virada de chave foi em uma imersão de liderança humanizada, quando compreendeu qual seria o melhor caminho para superar a solidão. “Comecei a mudar o meu pensamento: por que eu preciso ficar sozinha em uma sala se posso estar em um ambiente da cooperativa diferente em todos os dias e junto de outras pessoas? Hoje, não tenho mais uma sala, estou sempre junto aos cooperados. Também implantei a Reunião de Planejamento Colaborativo, semanal, para que todos os setores possam contar suas perspectivas e resolver as equações mais difíceis por meio do cooperativismo”, explica Lívia.
À frente da gerência de cooperativismo da Fundação Sicredi, Carla Katsurayama teve como desafio mostrar que a educação e o impacto social eram seus principais ativos estratégicos, algo que, muitas vezes, não é priorizado pelo mercado tradicional.
Mas, ao somar suas experiências, a executiva foi transformando esses diferenciais em bandeiras pessoal e profissional. “No cooperativismo, observei que o desenvolvimento profissional não está dissociado do humano, pois seus potenciais, valores e coerências aliam discurso e prática”, justifica.
Tais características a levaram a observar no cooperativismo um ambiente que abre portas e incentiva a participação, valoriza a diversidade de trajetórias e entende que prosperidade é verdadeira quando é compartilhada, relata. “Sem dúvida, foi essa lógica, centrada nas pessoas e nas relações, que possibilitou minha ascensão e fortaleceu minha escolha de seguir construindo minha carreira dentro do cooperativismo”, avalia Carla.
Terreno fértil ao reconhecimento e à valorização da gestão por meio de sua participação ativa, o segmento cooperativista segue curva contínua de evolução no quesito cargos de liderança feminina desde 2020. E hoje é um ecossistema favorável para desenvolvimento da carreira a longo prazo.
Força feminina chega a 52,7% no setor do cooperativismo
Em comparação ao mercado tradicional, o sistema cooperativista é o que possui indicadores mais consistentes sobre a ascensão da presença da mulher em alto cargos de liderança. Em cargos decisórios, a representação é de 23%, conforme o Sistema de Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), contra 15,2% no mercado tradicional, segundo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). No Pará, está o índice mais expressivo observado pelo OCB. Lá, 28% dos cargos do topo absoluto, como CEOs, são ocupados por mulheres, superando os indicadores médios do mercado tradicional, de acordo com dados de 2024.
Além da liderança executiva, outra diferença está na força de trabalho. No cooperativismo a ocupação é de 52,7%, de acordo com dados do Anuário do Cooperativismo 2025, podendo chegar a 60% no setor de crédito. Silvania Junckes de Amorim, diretora administrativa da Ailos Cooperativa Únilos, exemplifica a percepção do cooperativismo como ambiente técnico especializado propício à ascensão orgânica de mulheres até a alta liderança. Graduada em ciências econômicas e é pós-graduada em cooperativas de crédito, foi na Ailos que ela iniciou na carreira, nos anos 2000. Atuou como auxiliar e assistente contábil, analista administrativo, analista de controles internos sênior, coordenadora administrativa e, desde 2017, é diretora administrativa.
A trajetória de Silvania é marcada pela busca da entrega técnica e de resultados, alinhadas ao compromisso com a cooperativa e seus valores de negócio, bem como respeito às pessoas. “Com o tempo, percebi que, no cooperativismo, o crescimento não é apenas pelo desempenho individual, mas pela capacidade de construir relações, gerar confiança e contribuir para o desenvolvimento coletivo. Quando assumi um cargo de governança compreendi, com mais clareza, o quanto o modelo cooperativista cria oportunidades que o mercado tradicional, muitas vezes, não oferece”, afirma.
“A minha ascensão foi consequência de um reconhecimento construído a longo prazo, com participação ativa e equilíbrio dos resultados econômicos com responsabilidade social”, acrescenta a diretora.
Fortalecer e disseminar boas práticas de governança no cooperativismo são os objetivos de Heloisa Helena Lopes, vice-presidente do Conselho de Administrativo da Sicredi Pioneira. Advogada com especialização em cooperativismo, mestre em gestão e negócios de cooperativas e atuante há mais de 15 anos em conselhos de administração, Heloisa foi a primeira mulher a integrar o Conselho de Administração, em 2011. Oito anos depois, se tornou a primeira vice-presidente mulher da cooperativa.
Em razão dessa visibilidade, Heloísa faz questão de dar especial atenção à ampliação da participação feminina qualificada nos espaços de decisão e ao desenvolvimento das comunidades onde as cooperativas estão inseridas. “No cooperativismo, equilibrar Governança 4.0 com cultura cooperativista significa usar dados para antecipar riscos e oportunidades, sem perder de vista o impacto destas decisões nas pessoas, nos associados e na comunidade. Por isto, exerço uma liderança que contribui para decisões estratégicas mais responsáveis, consistentes e alinhadas ao crescimento”, justifica a executiva.
As trajetórias de Silvania e Heloisa comprovam o lugar de vanguarda do cooperativismo na valorização da presença humanizada – e feminina – na alta liderança. Mas, mesmo entre os cargos de topo absoluto, não há romantização: a batalha pela mudança de cenário é contínua.

“Entendo que a mulher em posto de governança tem a oportunidade de trazer a força do arquétipo feminino, do olhar materno, de ser multitarefas e de impactar diretamente em decisões humanas e horizontais com participação e escuta dos envolvidos. A mulher é dotada de pertencimento e facilmente desperta isso nos liderados, deixando os caminhos para o desenvolvimento das estratégias fluir com mais leveza e transparência. Exercendo papel de alta liderança, tenho a missão de ajudar outras mulheres a conquistarem a sua ascensão. Por isso, na COOPRESA, implementei uma pesquisa para saber o motivo de elas não se candidatarem aos cargos eletivos da cooperativa e descobrir como alocam os recursos financeiros mensalmente. Outra ação foi criar oportunidades de treinamentos anuais para mudar os cenários e um espaço de escuta ativa chamado COOPRELAS. Atualmente, por meio de ações como essas, conseguimos um quadro social bem mesclado entre os gêneros. Além disso, como membro do Comitê Consultivo de Mulheres Elas pelo Coop, realizamos o Encontro Estadual de Mulheres Cooperativas, mobilizando 300 mulheres diferentes a cada ano, com o objetivo de desenvolver novas lideranças e incentivo à capacitação. Acredito, realmente, que a liderança feminina complementa as gestões tradicionalmente masculinas, trazendo decisões pautadas em empatia, sustentabilidade e colaboração. Na minha opinião, a junção do cooperativismo com a força feminina é a reposta para a estabilidade e resiliência da economia e crises mundiais. Com o ser humano no centro, as decisões estarão cada vez mais pautadas em ajuda e colaboração.”
– Lívia Maria Almeida Duarte, presidente da Cooperativa de Trabalho dos Prestadores de Serviços Autônomos de Lagoa Santa

“Minha vivência familiar e comunitária me ensinou desde cedo o valor da cooperação. Acredito muito no papel dessas conexões, especialmente entre mulheres. Por isso, valorizo a construção de ambientes mais acolhedores, colaborativos e propícios ao surgimento de lideranças femininas. Quando diferentes experiências, trajetórias e olhares chegam à mesa, a tomada de decisão ganha profundidade, capacidade de leitura de risco, sensibilidade para pessoas e abertura para soluções novas. Na governança, isso se traduz em mais qualidade no processo decisório, mais transparência, mais escuta e mais atenção à sustentabilidade das escolhas. No Sistema OCB, temos fortalecido iniciativas estruturadas para ampliar a participação feminina, como o comitê nacional Elas pelo Coop. Além disso, trabalhamos com programas de formação, conteúdos educacionais, eventos, ações de sensibilização e estímulo à ocupação de conselhos, diretorias e outras instâncias estratégicas. O resultado é que cada vez mais mulheres estão assumindo protagonismo no cooperativismo, levando aos espaços de decisão uma liderança colaborativa, estratégica e muito conectada com as transformações que o setor precisa viver. A liderança feminina costuma agregar competências muito relevantes para a governança contemporânea, como escuta qualificada e visão relacional. Isso melhora a qualidade das decisões, torna a governança mais aderente à realidade e pode, sim, ser um motor importante para uma economia brasileira mais estável, mais inclusiva e mais preparada para enfrentar cenários globais complexos.”
– Tânia Zanella, presidente do Sistema Organização das Cooperativas Brasileiras

“Nenhuma caminhada é feita sozinha. Ter outras mulheres caminhando juntas, compartilhando desafios, aprendizados e conquistas foi essencial para que eu pudesse ocupar espaços, ser ouvida e respeitada. Avalio que a presença feminina enriquece as mesas de decisão, amplia perspectivas e qualifica o debate. Ao mesmo tempo, a diversidade de experiências, trajetórias e olhares desafia o pensamento homogêneo, estimula perguntas diferentes e abre caminhos para soluções mais inovadoras. Minha contribuição está em ajudar a construir estruturas, redes e narrativas que garantam que mais mulheres possam chegar, permanecer e influenciar os espaços de decisão, fortalecendo um cooperativismo cada vez mais moderno, representativo e alinhado aos seus princípios. A união entre o jeito cooperativo de fazer negócio e a força da mulher no alto escalão tem um potencial transformador enorme para a economia brasileira. Quando combinamos o modelo cooperativista com a presença feminina nos espaços estratégicos, ampliamos ainda mais a capacidade de resposta às crises. Mulheres líderes, em geral, trazem uma gestão mais sistêmica, sensível a riscos e atenta aos impactos sociais e humanos. Enquanto o cooperativismo ancora o negócio em valores de cooperação, a liderança feminina adiciona escuta qualificada, visão integrada e capacidade de articular diferentes interesses. Acredito que este é um dos grandes diferenciais que o Brasil pode oferecer ao mundo: um modelo econômico que une eficiência e humanidade. O cooperativismo somado ao protagonismo feminino, na alta liderança, pode ser um motor real para uma economia mais resiliente e inclusiva para enfrentar os desafios globais.”
– Carla Katsurayama, gerente de cooperativismo da Fundação Sicredi

“Muitas mulheres me inspiraram durante toda a construção da minha carreira profissional no cooperativismo, especialmente aquelas que vieram antes de mim, como minha mãe e minha avó. Além disso, redes de apoio femininas foram fundamentais, como, por exemplo, os Comitês Mulher do Sicredi. Esses espaços reforçam algo essencial: nenhuma mulher chega sozinha. A troca, o apoio e o exemplo coletivo fazem toda a diferença. A presença feminina amplia a escuta, traz diferentes perspectivas, aumenta a sensibilidade ao risco e, ao mesmo tempo, estimula a inovação.
Por isso, a minha estratégia é clara: desenvolver mulheres com competências técnicas e comportamentais para a liderança e, ao mesmo tempo, abrir portas para que elas ocupem espaços de decisão de forma legítima. Atualmente, há mais mulheres em cargos de liderança, mais debates sobre equidade e mais iniciativas estruturadas. E a minha contribuição foi provocar esta mudança internamente: da criação do Comitê Mulher ao aumento da participação feminina na governança, saindo de 17% para 42% de mulheres coordenadoras de núcleo e alcançando 40% de mulheres no Conselho de Administração. O motivo é que a liderança feminina adiciona empatia estratégica, visão sistêmica, escuta ativa e sensibilidade ao impacto social das decisões, competências que complementam o raciocínio mais técnico e objetivo da gestão tradicional. Mulheres no topo contribuem para decisões mais responsáveis, sustentáveis e comprometidas com o futuro. Cooperativas fortes promovem inclusão e reduzem desigualdades. Em conjunto, fortalecem as bases de uma economia brasileira mais estável, resiliente e orientada ao desenvolvimento equilibrado e inclusivo.”
– Heloisa Helena Lopes, vice-presidente do Conselho de Administração da Sicredi Pioneira

“Ao longo de 26 anos, contei com lideranças femininas que acreditaram no meu potencial, compartilharam experiências e abriram espaços de diálogo e aprendizado. Além disso, tive o apoio de colegas, equipes e da própria cooperativa. Há seis anos em um colegiado formado por duas mulheres na diretoria, vejo que a presença feminina contribui para governança mais moderna e transparente, com mais diálogo, senso crítico e atenção aos impactos das decisões nas pessoas e no futuro da instituição. Ocupando cargo de alta gestão, defendo uma governança que valoriza o desenvolvimento feminino e acredito que garantir a presença de mais mulheres nos espaços de decisão passa por oportunidade, preparo e apoio. Meu papel como líder é ajudar a construir este caminho. Inclusive, nossa empresa foi a primeira cooperativa de crédito do Brasil a aderir, oficialmente, aos princípios de empoderamento das mulheres da ONU Mulheres, concedido a empresas que cumprem práticas de empoderamento feminino, de equidade de gênero e se comprometem em fortalecer mundialmente a causa. Avalio que a liderança feminina tende a trazer competências como maior escuta, visão sistêmica, sensibilidade aos impactos das decisões e capacidade de construir consensos. Estes olhares ampliam a forma de analisar riscos, oportunidades e relações, enriquecendo a tomada de decisão estratégica. O cooperativismo, por sua própria natureza, privilegia o longo prazo, a distribuição equilibrada de valor, a gestão responsável e o fortalecimento das comunidades. Já a liderança feminina contribui com uma visão ampliada, maior capacidade de diálogo e foco em sustentabilidade, o que fortalece a governança e a solidez das organizações.”
–Silvania Junckes de Amorim, diretora administrativa da Ailos Cooperativa Únilos
Mercado tradicional vive estagnação em participação feminina na liderança
O mercado de trabalho tradicional no Brasil para lideranças femininas vive cenário de estagnação e desafios estruturais, se considerados dados sobre diversidade e práticas corporativas.
Levantamento da Bain & Company e da Grant Thornton, dos anos de 2025 e 2026, indica que, no Brasil, a presença de mulheres CEOs saiu de 3% para 6%, enquanto nos conselhos de administração o percentual se manteve na casa dos 10%.
O fenômeno é reforçado na Pesquisa Mulheres 2025 da Catho. Para 52% dos entrevistados, as mulheres em cargos de liderança representam somente um terço do quadro total de colaboradores das empresas.
Essa pesquisa também observou queda no índice de mulheres na liderança: 39% em 2021, caindo para 36,7% em 2025.
De acordo com os autores dos estudos, as estatísticas sugerem representatividade baixa e instável nas corporações adotantes do modelo tradicional de trabalho.
Fonte: Juliana Neves – Jornalista












