A transformação digital do Sistema Financeiro Nacional, impulsionada por iniciativas como Pix, Open Finance e a tokenização, vem ampliando a concorrência e elevando as exigências regulatórias, impondo novos desafios de governança, riscos e sustentabilidade às instituições financeiras.
Nesse cenário, o cooperativismo de crédito se destaca pelo protagonismo na inclusão financeira, apoiado na capilaridade territorial e na proximidade com os cooperados, especialmente em regiões menos atendidas pelo sistema bancário tradicional, ao mesmo tempo em que precisa avançar em profissionalização, integração e eficiência.
Em entrevista exclusiva à MundoCoop, Adalberto Felinto da Cruz Júnior, chefe do Departamento de Supervisão de Cooperativas e Instituições Não Bancárias (Desuc), analisa o momento do setor, os impactos da agenda regulatória e as perspectivas para o fortalecimento das cooperativas em um ambiente cada vez mais digital e competitivo.
Confira!
1 – O Sistema Financeiro Nacional tem passado por uma profunda transformação digital, com o avanço do Pix e o Open Finance. Nesse cenário, qual deve ser o papel das cooperativas na consolidação de um ecossistema financeiro mais inclusivo e competitivo?
As cooperativas de crédito têm papel essencial na consolidação de um ecossistema financeiro mais inclusivo e competitivo. Com a digitalização acelerada impulsionada por iniciativas como o Pix, o Open Finance e o Drex, essas instituições têm a oportunidade de ampliar sua capilaridade e protagonismo, especialmente em regiões menos atendidas pelo sistema bancário tradicional. A atuação híbrida, que combina presença física com soluções digitais, é vista como o modelo ideal para preservar o vínculo comunitário e, ao mesmo tempo, garantir eficiência e escala.
2 – O Banco Central tem reforçado a importância de uma supervisão baseada em riscos e controles. Como o novo Sistema de Riscos e Controles (SRC) deve impactar o dia a dia das cooperativas e que oportunidades ele traz para fortalecer a governança e a sustentabilidade do setor?
O SRC representa uma evolução na supervisão baseada em riscos, promovendo maior integração entre governança, controles internos e gestão de riscos. Para as cooperativas, isso significa a necessidade de fortalecer suas estruturas de governança, com ênfase nas três linhas de defesa e no papel ativo dos conselhos e diretorias executivas.
Ao mesmo tempo, o SRC oferece a oportunidade de aprimorar a resiliência institucional, reduzir vulnerabilidades e reforçar a sustentabilidade do modelo cooperativo.
3 – Nos últimos anos, as cooperativas vêm conquistando espaço no SFN, superando os 20% de participação em alguns segmentos. Quais são os principais fatores que explicam esse crescimento? O que ainda limita a expansão do cooperativismo financeiro no Brasil?
O crescimento das cooperativas de crédito no SFN, com participação superior a 20% em segmentos como crédito rural e MPMEs, decorre principalmente da forte capilaridade territorial, da proximidade com o cooperado e do foco em nichos pouco atendidos. Soma-se a isso um modelo de governança participativa, orientado à inclusão financeira, e a solidez financeira demonstrada mesmo em cenários adversos.
Como desafios à expansão, destacam-se limitações de escala e tecnologia em parte do setor, a necessidade de maior integração e intercooperação, o fortalecimento contínuo da governança e as exigências regulatórias e de compliance, especialmente para cooperativas
4 – Como o BC avalia o atual momento do setor financeiro, sobretudo nos desafios para manter competitividade e sustentabilidade nesse novo cenário onde diversos players competem entre si pela atenção do consumidor?
Atualmente, o ambiente é marcado por forte concorrência, consolidação de players e maior sofisticação dos produtos, exigindo do cooperativismo um avanço em profissionalismo, governança, controle de qualidade e qualificação técnica. O desafio central é solidificar o crescimento já alcançado, incorporando tecnologia, fortalecendo o posicionamento estratégico e garantindo continuidade e perpetuação do modelo em um mercado dinâmico e altamente competitivo.
5 – O cooperativismo financeiro tem forte presença no interior e em regiões onde os bancos tradicionais se retraem. Qual é a importância dessa capilaridade para a estabilidade do SFN? Há políticas ou incentivos em estudo para ampliar esse papel?
A presença das cooperativas em áreas remotas e no interior do país é um fator de estabilidade sistêmica, seja pela reciclagem da poupança local, seja pela atividade anticíclica nas crises econômicas. Elas garantem acesso ao crédito e aos serviços financeiros onde os bancos tradicionais se retraem, promovendo inclusão e desenvolvimento local. Há estudos e políticas em curso que buscam ampliar esse papel, inclusive com incentivos à digitalização e à educação financeira para evitar o superendividamento.
6 – A intercooperação é um dos pilares do modelo cooperativista, mas ainda há desafios para ampliar a atuação conjunta entre cooperativas e sistemas. Na perspectiva da supervisão, que caminhos podem fortalecer essa integração e o ganho de escala no setor?
A intercooperação é um vetor estratégico para a sustentabilidade do cooperativismo de crédito. Sob a ótica da supervisão, a centralização de serviços e a padronização de processos se destacam como caminhos para ampliar a eficiência operacional e gerar ganhos de escala em um ambiente cada vez mais regulado e competitivo.
O fortalecimento das auditorias cooperativas e da supervisão auxiliar contribui para maior consistência na gestão de riscos e para o alinhamento de práticas entre cooperativas e sistemas. Além disso, arranjos sistêmicos, o compartilhamento de boas práticas e a consolidação de informações, inclusive sobre sustentabilidade, ampliam a transparência e reforçam o conhecimento do setor pela sociedade.
7 – Olhando para os próximos cinco a dez anos, quais tendências o senhor acredita que vão redefinir o sistema financeiro brasileiro? Como o Banco Central enxerga o posicionamento ideal das cooperativas nesse novo ciclo?
Nos próximos cinco a dez anos, o sistema financeiro brasileiro deve ser marcado pela consolidação de um ambiente cada vez mais digital, interoperável e orientado por dados, impulsionado por iniciativas como o Pix e o Open Finance. Esse cenário inclui o surgimento de novos modelos de negócio, o fortalecimento da supervisão baseada em riscos e a crescente valorização de critérios ESG e da sustentabilidade como elementos centrais da competitividade.
Nesse novo ciclo, o posicionamento ideal das cooperativas passa pela adoção das inovações tecnológicas, pelo fortalecimento da governança e da gestão de riscos e pela ampliação da intercooperação para ganho de escala. Ao mesmo tempo, o compromisso com a inclusão financeira e o desenvolvimento regional sustentável permanece como diferencial estratégico, reforçando o papel do cooperativismo na construção de um sistema financeiro mais eficiente e inclusivo.
Um recado para as cooperativas de crédito
Por Adalberto Felinto da Cruz Júnior, chefe do Departamento de Supervisão de Cooperativas e Instituições Não Bancárias (Desuc), e Ivens Aruã Neves de Miranda, Chefe-Adjunto do Departamento de Supervisão de Cooperativas e Instituições Não Bancárias (Desuc)

Vivemos um período de desafios contínuos, que exige das cooperativas foco, preparo e esforço permanente. O ambiente macroeconômico segue desafiador, somado às novas exigências regulatórias, como maiores requerimentos de capital e mudanças nos padrões contábeis, o que demanda capacidade técnica, disciplina e boa governança.
Não é um momento de desatenção. É essencial mapear riscos, controlar custos e buscar eficiência, mantendo atenção às circunstâncias atuais. A inadimplência em patamares elevados preocupa e reforça a necessidade de atuação tempestiva, preservando a solidez e a imagem das cooperativas, especialmente em um ano de incertezas como o período eleitoral.
O próximo ano será marcante com a implementação da Resolução nº 4.966, inaugurando uma etapa de consolidação e análise mais fiel dos demonstrativos das instituições. Estratégia, gestão de riscos e modelos de negócios estarão no centro das discussões.
Ganha destaque também o risco cibernético, que já se materializou e assumiu relevância significativa. Com perseverança e trabalho consistente, o cooperativismo tem condições de atravessar esse ciclo desafiador e seguir contribuindo de forma sólida para o sistema financeiro.
Por Fernanda Ricardi e Leonardo César

Entrevista exclusiva publicada na edição 127 da Revista MundoCoop












