Mais de 72 mil catadores estão vinculados a 3.097 organizações de reciclagem no Brasil. Em 2024, essas organizações recuperaram mais de 2 milhões de toneladas de materiais e registraram faturamento superior a R$2 bilhões, segundo o Anuário da Reciclagem 2025. A escala alcançada, entretanto, convive com uma renda média mensal de R$1.359,57 entre os trabalhadores.
Os números colocam lado a lado duas dimensões de uma cadeia que ganhou relevância econômica e ambiental nos últimos anos. Enquanto cresce o volume recuperado e mais organizações passam a participar dos sistemas de logística reversa, permanece o desafio de criar condições para que esse movimento também se reflita na remuneração, na capacidade operacional e na estabilidade das cooperativas.
Para Isabela De Marchi, gerente de Sustentabilidade para a América do Sul da SIG, esse avanço depende de mudanças que vão além do aumento da quantidade de materiais reciclados. “Na minha visão, precisamos fortalecer três frentes: remuneração adequada pelos serviços prestados, investimentos em infraestrutura e capacitação e maior previsibilidade nas relações comerciais. Muitas cooperativas ainda dependem exclusivamente da venda dos materiais recicláveis, ficando vulneráveis às oscilações do mercado. É necessário reconhecer também o valor ambiental e social do trabalho que realizam”, afirma.
Logística reversa alcança 47% mais cooperativas
A presença das cooperativas de catadores nos sistemas de logística reversa aumentou nos últimos anos. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o número de organizações beneficiadas passou de 894, em 2023, para 1.315 no ano seguinte, crescimento de 47%. O avanço amplia a inserção dessas cooperativas na recuperação de materiais, mas também coloca em discussão quais condições são necessárias para que essa participação gere receitas mais previsíveis, capacidade de investimento e melhores condições de operação.

Para Isabela, ampliar o número de organizações atendidas representa apenas uma parte desse processo. Relações comerciais mais duradouras podem oferecer às cooperativas maior segurança para planejar suas atividades e reduzir a dependência de iniciativas pontuais. “Uma parceria efetiva precisa ir além de uma ação pontual ou do cumprimento de metas de logística reversa. Ela deve ser construída com transparência, compromissos compartilhados e uma visão de longo prazo, considerando as necessidades reais das cooperativas e dos profissionais envolvidos”, explica.
A previsibilidade das receitas também interfere na capacidade de organizar o crescimento das próprias cooperativas. Com maior segurança sobre suas operações, essas organizações podem planejar investimentos, aprimorar processos e ampliar a capacidade de atuação. Na avaliação da executiva, esse movimento precisa vir acompanhado de capacitação, apoio à gestão e condições adequadas de trabalho.
A discussão alcança ainda a valorização dos materiais recuperados. Entre as possibilidades apontadas por Isabela está a adoção de ferramentas de rastreabilidade capazes de demonstrar origem, destinação e critérios socioambientais associados à reciclagem.
O caminho começa na coleta
Antes de chegar às cooperativas, parte importante do resultado da reciclagem depende da existência de sistemas capazes de separar, recolher e direcionar corretamente os resíduos. O SINISA 2025 mostra que a coleta seletiva estava presente em 29,2% dos municípios considerados pelo levantamento, indicando que a cobertura do serviço ainda encontra limitações no país.
“Não adianta investir apenas em infraestrutura se a população não participa, assim como não basta estimular a separação dos resíduos se não existe uma estrutura adequada para recebê-los e encaminhá-los à reciclagem”. Na avaliação da executiva, ampliar o volume e a qualidade dos materiais que chegam às cooperativas exige articulação entre municípios, empresas, organizações e consumidores. Resíduos misturados ou contaminados podem provocar perdas, elevar custos e reduzir a produtividade das operações.
Uma experiência que reúne diferentes pontos dessa cadeia está em Campo Largo, no Paraná. Em iniciativa desenvolvida pela SO+MA Vantagens e pela prefeitura, com apoio da SIG, moradores passaram a entregar materiais recicláveis em pontos de recebimento em troca de benefícios. Posteriormente, os resíduos são encaminhados às cooperativas do município, conectando a participação da população ao trabalho das organizações responsáveis pela recuperação dos materiais.
Os dados encaminhados pela SIG apontam que quase 375 toneladas de recicláveis foram recebidas e R$119 mil destinados em apoio financeiro às cooperativas locais no período considerado.
Para além dos projetos locais
A continuidade da experiência de Campo Largo passou a depender diretamente da estrutura municipal em 2026, quando a iniciativa desenvolvida nos anos anteriores foi incorporada à política pública local e as antigas Casas SO+MA passaram a funcionar como Casas Eco, administradas pela prefeitura. O caso apresenta uma das formas encontradas para manter a operação depois da fase inicial de apoio de diferentes parceiros.
O cenário nacional, porém, reúne organizações submetidas a estruturas e condições locais distintas. O SINISA 2025 identificou 2.178 cooperativas e associações de catadores distribuídas por 1.607 municípios, com 39.577 trabalhadores associados. O levantamento também contabilizou 15.962 catadores informais em 395 municípios declarantes.
Essa distribuição coloca municípios entre os agentes diretamente envolvidos nas condições de funcionamento da cadeia. Em Campo Largo, o poder público assumiu a gestão dos pontos de recebimento; em outras localidades, modelos de coleta, infraestrutura disponível e relação com cooperativas e associações seguem formatos próprios. Isabela aponta que características locais precisam ser consideradas quando experiências desse tipo são estruturadas em novos territórios.
A organização dos dados da logística reversa também entrou em uma nova etapa em 2026. Em setembro, o Ministério do Meio Ambiente instituiu o Sistema Nacional de Logística Reversa, o Sisrev-BR, integrado ao Sinir. A plataforma concentrará o cadastro dos sistemas, o reporte anual de resultados e o monitoramento das informações, além de permitir a integração de dados utilizados na rastreabilidade e na fiscalização.
Pelas novas regras, os sistemas de logística reversa deverão ser cadastrados anualmente entre janeiro e maio, enquanto os relatórios de resultados terão prazo até 30 de julho, sempre com informações referentes ao ano anterior. A medida cria uma base nacional para acompanhar recuperação e destinação de resíduos em um mercado no qual, somente entre 2023 e 2024, o número de cooperativas beneficiadas pelos sistemas de logística reversa passou de 894 para 1.315.
Por João Victor – Redação MundoCoop












