A eleição do cooperativismo de crédito para a presidência do Conselho de Administração da Associação Open Finance marca um dos movimentos institucionais mais relevantes do setor nos últimos anos. Ao assumir a liderança do principal órgão de governança do Open Finance no Brasil pelas próximas 20 semanas, o cooperativismo deixa definitivamente a posição de participante técnico para ocupar o papel de articulador estratégico da inovação financeira no país.
A partir de agora, a presidência do Conselho passa a ser exercida por Márcio Alexandre de Macedo Rodrigues, superintendente de Arquitetura e Governança de TI do Sicoob, que representa o cooperativismo financeiro no colegiado por meio do Sistema OCB. Já a vice-presidência será ocupada pela Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços, representada por Gustavo Cappi, executivo do Itaú Unibanco, reforçando o caráter multissetorial e plural da governança do Open Finance.

“A presidência do Conselho representa o reconhecimento da relevância do cooperativismo no Sistema Financeiro Nacional e de sua contribuição contínua para a construção de um sistema financeiro mais inclusivo, equilibrado e orientado aos interesses dos clientes”, Márcio Alexandre de Macedo Rodrigues, superintendente de Arquitetura e Governança de TI do Sicoob, que representa o cooperativismo financeiro no colegiado por meio do Sistema OCB
Na prática, assumir a presidência do Conselho de Administração da Associação Open Finance significa coordenar agendas, liderar discussões estratégicas e construir consensos técnicos entre bancos, cooperativas, fintechs e demais instituições participantes do ecossistema. Segundo Márcio Alexandre, trata-se de uma posição que amplia não apenas a visibilidade, mas também a responsabilidade institucional do cooperativismo. “A presidência não é apenas um cargo simbólico. Ela amplia a capacidade de diálogo qualificado com reguladores, especialmente com o Banco Central, e fortalece a presença do cooperativismo nas interações com bancos tradicionais, fintechs e outros players do sistema financeiro. É uma posição que exige equilíbrio, visão sistêmica e compromisso com a evolução responsável do mercado”, afirma.
Do Open Banking ao Open Finance: maturidade institucional
Desde sua implementação, iniciada em 2021, o Open Finance foi concebido com um modelo de governança multissetorial, reunindo bancos, cooperativas, fintechs e demais instituições autorizadas a operar no Sistema Financeiro Nacional. Nesse processo, vale destacar que o cooperativismo de crédito sempre teve participação ativa, defendendo que o desenho regulatório contemplasse a diversidade de modelos de negócio existentes no país. “O cooperativismo sempre se destacou pela atuação colaborativa e por assegurar que suas particularidades fossem consideradas na construção dos produtos do Open Finance brasileiro. A criação da Associação Open Finance e do Conselho de Administração representa um amadurecimento institucional importante para todo o ecossistema”, avalia Márcio Alexandre.
No entanto, outro ponto relevante é que a lógica do Open Finance encontra forte convergência com os princípios do cooperativismo, especialmente no que se refere à participação democrática, à transparência e ao foco no usuário. Assim como ocorre nas cooperativas de crédito, onde os cooperados participam das decisões estratégicas, o modelo de governança do Open Finance busca equilibrar a representação e evitar concentrações excessivas de poder decisório. “O Open Finance empodera o cliente ao permitir que ele decida, de forma consciente, com quem deseja compartilhar seus dados, por quanto tempo e para qual finalidade. Isso está alinhado ao modelo cooperativo, no qual o cooperado é sócio da instituição e não apenas um cliente”, explica Márcio Alexandre.
O que vem por aí: governança, experiência do usuário e portabilidade de crédito são metas da nova gestão
Entre as prioridades estabelecidas para o período de presidência do cooperativismo estão o fortalecimento contínuo da governança, a evolução sustentável do ecossistema e a melhoria da experiência do usuário. Um dos principais destaques é a implantação da portabilidade de crédito via Open Finance, prevista ainda para o primeiro semestre de 2026. “Isso vai ser um divisor de águas. Ela permite que o cliente utilize seu histórico financeiro para negociar melhores condições entre diferentes instituições, estimulando a concorrência e ampliando a liberdade de escolha”, afirma Márcio Alexandre.
Outro impacto estrutural do Open Finance está relacionado à inclusão financeira. Ao reduzir a assimetria de informações, o modelo cria condições para ampliar o acesso a crédito e a produtos personalizados, especialmente em regiões menos atendidas pelo sistema bancário tradicional. Para o presidente, “os sistemas cooperativos conhecem profundamente seus clientes e conseguem oferecer soluções alinhadas à sua realidade financeira. O Open Finance potencializa essa vocação e cria um ambiente mais equilibrado e competitivo.”
No entanto, ao assumir a presidência do Conselho de Administração da Associação Open Finance, o cooperativismo de crédito vai além e envia uma mensagem clara ao mercado financeiro, aos reguladores e à sociedade: o setor atingiu um elevado grau de maturidade institucional e capacidade técnica para liderar processos complexos de transformação do sistema financeiro brasileiro. “Essa conquista demonstra que o cooperativismo está preparado para atuar em ambientes altamente regulados e tecnologicamente sofisticados, com compromisso com inovação responsável, concorrência saudável e geração de valor para a sociedade”, conclui Márcio Alexandre.
O que é o Open Finance Brasil
O Open Finance Brasil é um sistema regulamentado pelo Banco Central que permite o compartilhamento de dados e serviços financeiros entre instituições, sempre mediante consentimento do cliente. O modelo é uma evolução do Open Banking e abrange não apenas dados de contas e crédito, mas também produtos como cartões, investimentos, seguros, previdência, câmbio e serviços de pagamento.
Considerado um dos sistemas mais avançados do mundo, o Open Finance brasileiro se destaca pelos padrões elevados de segurança cibernética, proteção de dados e pela centralidade do usuário, que pode autorizar, limitar ou revogar o compartilhamento de suas informações a qualquer momento.
Portabilidade de crédito via Open Finance: o que muda
Com a portabilidade de crédito integrada ao Open Finance, o cliente poderá:
- Autorizar o compartilhamento de seu histórico financeiro
- Comparar propostas de crédito entre diferentes instituições
- Negociar taxas, prazos e condições de forma mais transparente
- Reduzir custos financeiros ao longo do tempo
Por que a presidência do Open Finance é estratégica
- Coordena as agendas estratégicas do ecossistema
- Conduz debates técnicos entre diferentes segmentos do mercado
- Atua como interlocutor qualificado junto ao Banco Central
- Ajuda a definir prioridades de evolução do Open Finance
- Garante equilíbrio entre inovação, concorrência e proteção ao usuário
Por Leticia Rio Branco, Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 128 da Revista MundoCoop












