O avanço das stablecoins deixou de ser um tema restrito ao universo das criptomoedas e passou a ocupar espaço nas discussões estratégicas do cooperativismo financeiro. Esse é o principal recado do WOCCU, o Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito, que acaba de publicar o estudo How Digital Money Is Impacting Credit Unions – Part 1: Focus on Stablecoins. A entidade global sustenta que o verdadeiro debate não está em emitir ou não stablecoins, mas em garantir que as cooperativas de crédito participem da infraestrutura financeira que está sendo construída para as próximas décadas.
Segundo a WOCCU, o sistema financeiro mundial atravessa uma transformação comparável ao processo de digitalização bancária ocorrido nas últimas décadas. Stablecoins, depósitos tokenizados e moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) estão alterando a forma como o dinheiro é armazenado, movimentado e utilizado. Para as cooperativas financeiras, os efeitos recaem diretamente sobre dois elementos essenciais do modelo cooperativo: depósitos e pagamentos.
A preocupação não é tecnológica, mas estratégica
O estudo destaca que o maior risco para as cooperativas não é a substituição das instituições pela tecnologia. A preocupação central é a perda gradual de relevância na vida financeira dos associados.
Historicamente, os depósitos dos membros constituem a principal fonte de recursos para financiamentos e empréstimos realizados pelas cooperativas. Da mesma forma, os sistemas de pagamento representam um dos principais pontos de relacionamento entre instituição e associado.
À medida que pagamentos, transferências e movimentações financeiras migram para carteiras digitais, fintechs e plataformas controladas por emissores de stablecoins, as cooperativas podem continuar mantendo as contas dos associados, mas perder parte significativa das interações que sustentam seu relacionamento.
A WOCCU classifica esse fenômeno como “desintermediação silenciosa”. Nesse cenário, o associado não abandona sua cooperativa, porém realiza suas atividades financeiras mais relevantes em ambientes externos. Com isso, dados, informações comportamentais e oportunidades de relacionamento passam a ser controlados por terceiros.
Stablecoins não são apenas criptomoedas
Um dos pontos enfatizados pelo documento é a diferença entre stablecoins e ativos digitais de caráter especulativo, como o Bitcoin.
As stablecoins são moedas digitais privadas normalmente lastreadas em ativos considerados estáveis, especialmente moedas fiduciárias como o dólar norte-americano. Seu objetivo principal é permitir pagamentos rápidos, previsíveis e disponíveis continuamente, inclusive em operações internacionais.
A WOCCU ressalta que aproximadamente 98% das stablecoins atualmente em circulação possuem referência direta ao dólar dos Estados Unidos. Esse movimento vem ampliando sua utilização em remessas internacionais, pagamentos corporativos, comércio eletrônico global e proteção patrimonial em economias sujeitas à inflação elevada ou instabilidade cambial.
O estudo aponta ainda que o mercado global de stablecoins já ultrapassa US$ 300 bilhões, atraindo bancos, redes de pagamento, empresas de tecnologia, varejistas e fintechs.
Os quatro grandes riscos apontados pela WOCCU
- Perda de depósitos: Quando recursos migram para carteiras digitais baseadas em stablecoins, deixam de integrar a base de funding das cooperativas. Como as cooperativas dependem fortemente dos depósitos dos associados, o impacto potencial pode ser mais relevante do que em bancos tradicionais.
- Redução de receitas: Serviços ligados a transferências internacionais, pagamentos, câmbio, cartões e meios eletrônicos podem enfrentar crescente pressão competitiva em razão de estruturas digitais mais eficientes e de menor custo.
- Perda de relacionamento: Ao deixar de ser o principal ambiente de interação financeira do associado, a cooperativa passa a ter menos acesso a informações que ajudam a compreender necessidades, oferecer soluções adequadas e fortalecer vínculos de longo prazo.
- Exclusão regulatória: Talvez o alerta mais importante do documento esteja relacionado à regulamentação. A WOCCU argumenta que diversos marcos regulatórios estão sendo elaborados sem considerar adequadamente as especificidades do modelo cooperativo.
Mesmo quando há autorização formal para participação das cooperativas, exigências técnicas, operacionais e financeiras podem tornar o acesso inviável para instituições de menor porte.
As oportunidades podem ser tão grandes quanto os riscos
Apesar dos desafios, a publicação adota uma visão equilibrada e destaca que as cooperativas possuem condições de assumir papel relevante na nova infraestrutura financeira.
Entre as oportunidades citadas estão:
• pagamentos internacionais com custos menores;
• novas fontes de receitas;
• custódia de reservas vinculadas a stablecoins;
• soluções globais para pagamentos empresariais;
• desenvolvimento de carteiras digitais cooperativas;
• integração com depósitos tokenizados;
• participação em futuros ecossistemas de dinheiro digital.
A entidade enfatiza que muitas dessas iniciativas podem ser desenvolvidas por meio da intercooperação, característica histórica do movimento cooperativista global.
O exemplo regulatório dos Estados Unidos
O estudo apresenta uma análise internacional sobre os diferentes caminhos regulatórios adotados pelos países.
De acordo com a WOCCU, os Estados Unidos avançaram ao criar, por meio da GENIUS Act, um modelo que facilita a participação das cooperativas de crédito no ecossistema de stablecoins. Em contrapartida, algumas regiões adotaram estruturas regulatórias mais próximas das exigidas para grandes bancos, dificultando a entrada de instituições cooperativas menores.
Por essa razão, a entidade recomenda que os movimentos nacionais participem ativamente dos debates regulatórios desde o início, buscando garantir proporcionalidade e igualdade de condições competitivas.
Por que esse debate interessa ao Brasil?
As conclusões da WOCCU possuem especial relevância para o mercado brasileiro.
O Brasil construiu uma das infraestruturas financeiras digitais mais avançadas do mundo por meio do Pix, do Open Finance e da evolução do Drex. Além disso, vários estudos indicam crescimento no uso de stablecoins em operações internacionais e em diferentes aplicações financeiras na América Latina.
Nesse contexto, sistemas cooperativos brasileiros como Sicredi, Sicoob, Cresol, Unicred e Ailos podem encontrar tanto riscos quanto oportunidades à medida que o dinheiro digital avança.
Por isso, a principal recomendação do documento é que o assunto deixe de ser tratado exclusivamente pelos departamentos de tecnologia e passe a integrar as agendas dos conselhos de administração, diretorias executivas e lideranças do cooperativismo.
A principal mensagem da WOCCU
A conclusão do white paper é direta: a maior ameaça não é a tecnologia, mas a omissão.
Para a WOCCU, as cooperativas não precisam necessariamente emitir suas próprias stablecoins. Entretanto, precisam definir desde já qual papel desejam ocupar na próxima geração da infraestrutura financeira global.
A decisão envolve diferentes possibilidades: atuar como protagonistas, parceiras estratégicas, provedoras de infraestrutura ou apenas canais de acesso para soluções desenvolvidas por terceiros.
A entidade alerta que ainda existe uma janela de oportunidade para que o cooperativismo participe da construção desse novo ambiente financeiro. Contudo, essa janela está se estreitando rapidamente.
Fonte: Portal do Cooperativismo Financeiro












