A economia circular ganhou espaço nas estratégias empresariais, nas políticas públicas e nas discussões sobre sustentabilidade. Temas como reciclagem, logística reversa, rastreabilidade e redução de impactos ambientais passaram a ocupar um lugar cada vez mais relevante na agenda de empresas e governos. Mas existe um elo fundamental dessa cadeia que ainda recebe menos atenção do que deveria: o papel das cooperativas e dos catadores na sustentação prática da reciclagem brasileira.
Quando falamos sobre economia circular, costumamos pensar em inovação, novas embalagens, tecnologias sustentáveis e compromissos ESG. Tudo isso é importante. Mas existe uma infraestrutura humana e operacional que torna essa cadeia possível no dia a dia e ela começa muito antes da indústria transformar resíduos em novos produtos.
Ela começa nas ruas, nos centros de triagem e nas cooperativas.
Hoje, os catadores são responsáveis por grande parte dos materiais recicláveis que retornam para a cadeia produtiva no Brasil. Em muitos casos, são eles que garantem a coleta, separação e destinação correta de resíduos que, sem esse trabalho, acabariam em aterros ou descartados irregularmente no meio ambiente.
Além do impacto ambiental, existe também um aspecto econômico que nem sempre é devidamente reconhecido. A reciclagem movimenta uma cadeia com potencial bilionário, reduz custos industriais associados à matéria-prima, gera empregos e dá suporte às políticas públicas de manejo de resíduos. E boa parte desse valor começa justamente no trabalho realizado pelas cooperativas.
Ainda assim, esse elo essencial da economia circular frequentemente opera com baixa visibilidade, pouca infraestrutura e acesso limitado à tecnologia, financiamento e capacitação.
Nos últimos anos, o avanço das discussões sobre ESG e logística reversa ajudou a ampliar a atenção sobre o tema. Muitas empresas passaram a compreender que sustentabilidade não pode ser construída apenas a partir do discurso ou da compensação ambiental. Ela depende de cadeias estruturadas, rastreáveis e socialmente inclusivas.
E é nesse ponto que as cooperativas assumem um papel estratégico.
Sem elas, a economia circular perde eficiência operacional, perde escala e perde impacto social. Afinal, não existe circularidade sem coleta e triagem. Mais do que reconhecer sua importância, precisamos discutir como fortalecer essas organizações de forma consistente. Isso passa por remuneração adequada, acesso a infraestrutura, digitalização da cadeia, previsibilidade operacional e integração cada vez maior entre cooperativas, empresas e sistemas de logística reversa.
O Brasil possui uma das maiores redes de catadores do mundo. Em um momento em que a economia circular avança nas estratégias empresariais e nas exigências regulatórias, é fundamental refletir sobre o papel desses profissionais e das cooperativas na estruturação de uma cadeia de reciclagem mais eficiente e inclusiva.
Dar mais visibilidade às cooperativas e aos catadores não é apenas uma questão social. É reconhecer uma atividade essencial para o funcionamento da cadeia de reciclagem, para a redução de impactos ambientais e para o avanço concreto da agenda sustentável no país.
A economia circular brasileira já existe. E ela passa, necessariamente, pelas cooperativas.
Renato Paquet é CEO e fundador da Polen, entidade gestora estruturante de logística reversa de embalagens no Brasil












