A interdependência humano-máquina transforma não apenas nossas ações, mas a essência. Trabalho, identidade, poder, controle. A tecnologia modifica tudo de dentro para fora. Hoje, as máquinas são extensões de nós mesmos e, em 2026, talvez sejamos nós a extensão delas.
Nos tornamos agentes híbridos, ciborgues na essência, aproximando-nos do conceito de super-humanos. Mas o que significa ser humano no mundo da IA? Com a inteligência artificial, ganhamos produtividade, mas perdemos a percepção do óbvio, ressignificamos o código oculto e a ameaça de exclusão para os não-especialistas tornam-se real. O que nos resta é uma proletarização cognitiva, como diria Stiegler. A IA amplia nosso alcance e nos reduz a consumidores de decisões artificiais.
A questão não é apenas “quem controla?”. É descobrir “o que ainda controlamos?” Somos mais produtivos, mas estamos no comando? O poder da IA é invisível, silencioso e, muitas vezes, oculto. Ele molda nossas vidas, escolhas, desejos. Sentimos o impacto da IA, mesmo sem vê-lo ou ter a capacidade de medi-lo.
Não se trata de escolher entre humano ou máquina, mas de definir como nos relacionamos com a tecnologia. Precisamos de uma IA que respeite o humano, que eleve, sem oprimir ou que apoie, mas sem dominar.
As competências mudam, a especialização se fragmenta ainda mais, e a criatividade e a crítica ganham valor. Quem somos no mundo das máquinas? Precisamos de mais que habilidades técnicas. Necessitamos de uma humanidade crítica, de pensamento analítico e de uma coragem ética que não se rende ao fácil.
O futuro do trabalho não é a mera automatização. É uma contínua incorporação de extensões artificiais. É um jogo de flexibilidade, resiliência e senso de justiça. O mundo da IA pode ser fragmentado, exaustivo e alienante. Ou pode se tornar um ambiente que respeite o ser humano. Tudo depende das escolhas que faremos a partir de agora.
Este ano, vislumbramos um futuro que nos convida a uma relação de interdependência com a tecnologia, sem abrir mão daquilo que nos torna humanos. Um caminho de evolução que preserva nossa capacidade de pensar, sentir, escolher e que reconhece na nossa essência o verdadeiro centro do progresso. A interdependência humano-máquina já redefine a trajetória do ser. É a ponte entre o que fomos e o que seremos. Uma ponte artificial em que o orgânico se apoia. A tecnologia não vai parar de avançar, mas será que a humanidade será capaz de acompanhar?
Ricardo Cappra é cientista de dados, filósofo e fundador do Cappra Institute, instituto internacional de pesquisa, consultoria e educação












