Rabobank projeta inflação de alimentos em 6,84% em 2026 com El Niño e crédito mais caro

Risco de um El Niño intenso, juros elevados e restrição fiscal devem pressionar a produção agropecuária, diz Maurício Une, economista-chefe do banco

O agronegócio brasileiro deve enfrentar um cenário mais desafiador em 2026. Depois de um início de ano em que o mercado apostava em uma queda mais intensa dos juros e em um impacto climático menos severo, o cenário mudou.

Agora, a combinação entre crédito mais caro, restrição fiscal e a possibilidade de um El Niño forte no fim do ano deve aumentar os custos de produção, reduzir o ritmo de alguns segmentos da agropecuária e manter a inflação dos alimentos pressionada. Essa é a avaliação do economista-chefe do Rabobank para a América do Sul, Maurício Une.

Segundo o executivo, a mudança nas perspectivas levou o banco a revisar suas projeções para o setor. Um dos fatores que mais preocupa é a evolução do clima.

“As projeções da NOAA indicam uma probabilidade de cerca de 63% de um El Niño forte entre novembro e dezembro e de aproximadamente 50% já em outubro”, afirma.

Ao risco climático soma-se um ambiente econômico menos favorável. Na avaliação de Une, o Plano Safra anunciado pelo governo trouxe uma expansão modesta dos recursos e uma redução da equalização de juros justamente em um momento em que o custo do crédito permanece elevado.

“Continuamos convivendo com uma política monetária bastante restritiva, o que aumenta o custo da equalização dos financiamentos rurais. Além disso, há uma restrição fiscal importante, que reduz o espaço para despesas discricionárias, como os recursos destinados ao Plano Safra”, diz.

Na avaliação do Rabobank, a pecuária bovina está entre as cadeias mais sensíveis ao novo cenário macroeconômico.

O banco estima uma redução entre 2% e 3% na produção de carne bovina em 2026. A expectativa está ligada ao enfraquecimento da atividade econômica, que deve limitar o consumo das famílias.

A projeção do Rabobank é de crescimento de 1,8% para o PIB brasileiro em 2026, abaixo dos 2,3% registrados no ano anterior. Como consequência, o consumo per capita de carne bovina deve recuar entre 6% e 7%.

Segundo Une, o mercado externo dificilmente conseguirá compensar esse movimento. “Como aproximadamente 70% a 80% da produção brasileira é destinada ao mercado interno, o avanço das exportações não será suficiente para compensar a retração da demanda doméstica”, afirma.

Preço dos alimentos

O risco de um El Niño forte também pode ampliar a pressão sobre os preços dos alimentos.

Segundo o economista, o aumento recente dos custos com fretes, combustíveis, logística, seguros e fertilizantes já elevou o custo da produção agrícola. Caso o fenômeno climático se confirme entre outubro e dezembro, esse cenário poderá se agravar.

“Se um El Niño intenso realmente ocorrer entre outubro e dezembro, esses fatores podem provocar impactos importantes sobre a produção agrícola e aumentar a pressão sobre os preços dos alimentos”, afirma.

Os efeitos, segundo o Rabobank, já começam a aparecer nos indicadores. Após um período de desaceleração no segundo semestre de 2025, a inflação de alimentos voltou a ganhar força entre março e maio deste ano.

A expectativa do banco é que a inflação de alimentos consumidos no domicílio encerre 2026 em 6,84%. O pico deve ocorrer em fevereiro de 2027, quando poderá atingir 7,67%. Depois disso, a tendência é de acomodação, com o índice encerrando 2027 em torno de 4,36%.


Fonte: Exame com adaptações da MundoCoop

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