O agronegócio brasileiro vive um cenário de forte contraste em 2026. Enquanto a produção de grãos alcança níveis recordes e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma nova safra histórica para 2026/27, a pressão financeira sobre produtores rurais e empresas da cadeia produtiva permanece elevada. No primeiro trimestre de 2026, foram registrados 474 pedidos de recuperação judicial no agronegócio, alta de 21,9% em relação às 389 solicitações do mesmo período de 2025, segundo levantamento da Serasa Experian.
O movimento ocorre depois de 2025 registrar o maior número de pedidos de recuperação judicial do agronegócio desde o início da série histórica da Serasa Experian, em 2021. Foram 1.990 solicitações no ano, crescimento de 56,4% em relação a 2024, quando houve 1.272 pedidos. Os dados, porém, não indicam uma crise generalizada do setor. No primeiro trimestre de 2026, os 474 pedidos ficaram abaixo dos 565 registrados no segundo trimestre de 2025 e dos 628 do terceiro trimestre daquele ano. O número também mostra que a pressão financeira permanece concentrada em determinados grupos de produtores e empresas da cadeia.
Dos 474 pedidos registrados entre janeiro e março, 196 foram feitos por produtores rurais que atuam como pessoas jurídicas, alta de 73,5% em relação ao primeiro trimestre de 2025. Produtores pessoas físicas responderam por 182 solicitações, queda de 6,7%, enquanto empresas relacionadas à cadeia do agronegócio somaram 96 pedidos, avanço de 18,5%, segundo a Serasa Experian.
A pressão também aparece nos indicadores de inadimplência. A inadimplência da população rural chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, aumento de 1,2 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2025, de acordo com levantamento da Serasa Experian.
O cenário chama atenção porque ocorre justamente em um período de forte produção. A Conab estima que a safra brasileira de grãos 2025/26 alcance 361,7 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica. Para a temporada 2026/27, a companhia projeta inicialmente 366,6 milhões de toneladas, o que representaria novo recorde.
O contraste mostra que produção elevada não significa necessariamente geração de caixa suficiente. Custos de produção, comportamento dos preços das commodities, endividamento acumulado, necessidade de capital de giro e condições de financiamento podem pressionar as margens mesmo em propriedades com boa produtividade.
Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, a pressão atual está mais relacionada à estrutura financeira dos negócios do que à capacidade produtiva. “O produtor não está necessariamente produzindo menos. Em muitos casos, a produtividade continua elevada. O problema é que ele recebe menos por sua produção enquanto os custos para plantar, financiar e operar cresceram significativamente. Quando se somam insumos caros, crédito restrito, custo financeiro e preços voláteis das commodities, a margem financeira acaba sendo comprimida”, afirma.
Crédito continua central para o agronegócio
O acesso ao crédito continua sendo uma variável importante para produtores e empresas do setor. O Plano Safra 2026/2027 destinou R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial, sendo R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos. Para os médios produtores enquadrados no Pronamp, foram previstos R$ 72,6 bilhões.
Nos dois primeiros meses da safra 2026/2027, produtores enquadrados no Pronamp e demais produtores contrataram R$ 65,7 bilhões em crédito rural. As Cédulas de Produto Rural (CPRs) responderam por R$ 32,4 bilhões, ou 49,2% do total contratado no período.
Os números mostram que o crédito continua chegando ao setor, mas não eliminam as dificuldades de produtores e empresas que carregam dívidas de ciclos anteriores. Para negócios mais alavancados, a capacidade de geração de caixa passa a ser determinante para definir quanto da receita pode ser destinado ao serviço da dívida sem comprometer a operação.
“Hoje o custo do dinheiro continua sendo um fator importante para o agronegócio. Muitos produtores renegociaram dívidas nos últimos anos acreditando em um cenário diferente daquele que acabou se consolidando. Mesmo com a evolução das condições de crédito, quem acumulou compromissos financeiros precisa conciliar o pagamento das dívidas com a necessidade de manter capital de giro e financiar novas safras”, explica Denis. O impacto também alcança fornecedores, cooperativas, tradings, transportadoras, agroindústrias e demais empresas ligadas à cadeia produtiva.
Recuperação judicial exige ação antecipada
Apesar do crescimento dos pedidos, a recuperação judicial não deve ser interpretada como consequência automática de uma crise estrutural do agronegócio. Em muitos casos, negócios com capacidade operacional e ativos enfrentam principalmente um desequilíbrio entre geração de caixa e compromissos financeiros.
Para Denis, a recuperação judicial pode ser importante para preservar empresas viáveis, mas deve ser utilizada como parte de uma estratégia de reestruturação. “A recuperação judicial é um importante instrumento de reorganização empresarial, mas não pode ser vista como estratégia inicial. Quando utilizada sem planejamento ou no momento inadequado, ela tende apenas a prolongar dificuldades que poderiam ter sido enfrentadas anteriormente”, afirma.
O especialista defende que a identificação antecipada dos problemas amplia as possibilidades de negociação e reorganização. “O erro mais frequente é esperar que a crise se torne praticamente insolúvel. Em diversos casos ainda existem alternativas, como renegociação estruturada das dívidas, revisão da operação, venda de ativos não estratégicos e busca por novos investidores. Quanto mais cedo essas medidas forem avaliadas, maiores são as chances de preservar a atividade empresarial”, destaca.
Governança ganha peso no novo agronegócio
Para Benito Pedro Vieira Santos, CEO do Grupo Avante Assessoria e especialista em Governança Corporativa e Reestruturação Empresarial, o cenário mostra que a gestão financeira precisa acompanhar o nível de eficiência já alcançado pelo produtor no campo.
“O agronegócio brasileiro aprendeu a produzir com eficiência, mas agora precisa administrar o crescimento com a mesma excelência. Produção elevada não é suficiente quando a estrutura de capital está pressionada. É preciso acompanhar o caixa, projetar cenários, controlar a alavancagem e antecipar os riscos financeiros”, afirma Benito.
Segundo ele, a relação com os agentes financeiros também mudou. Além de patrimônio e garantias, aspectos como geração de caixa, qualidade das informações e governança ganham relevância na avaliação de crédito. “O crédito deixou de olhar apenas para o patrimônio. Hoje, capacidade de geração de caixa, qualidade das informações, governança e previsibilidade financeira são cada vez mais importantes. O verdadeiro ativo de uma empresa passou a ser também a qualidade da sua gestão”, explica.
Nesse contexto, a governança deixa de ser apenas uma estrutura de controle e passa a ter papel estratégico na prevenção de crises. “Governança não significa burocracia. Significa transformar informação em decisão. Empresas que acompanham indicadores, projetam fluxo de caixa, simulam cenários, monitoram a alavancagem e negociam antecipadamente com credores conseguem atravessar períodos adversos com muito mais eficiência”, afirma Benito.
Produção recorde não elimina desafio financeiro
A combinação entre recordes de produção e aumento dos pedidos de recuperação judicial evidencia que produtividade e saúde financeira são dimensões diferentes do negócio. Uma propriedade pode colher volumes elevados e, ainda assim, enfrentar dificuldades para honrar compromissos dependendo da combinação entre preços, custos, estrutura da dívida e necessidade de capital de giro.
A perspectiva de uma nova safra recorde reforça esse desafio. A Conab projeta 366,6 milhões de toneladas de grãos para 2026/27, acima das 361,7 milhões de toneladas estimadas para a temporada anterior.
Para Denis, o próximo ciclo exigirá atenção justamente à transformação da produção em resultado financeiro. “O agronegócio brasileiro continua extremamente competitivo e possui fundamentos sólidos. O desafio, agora, é fortalecer também a estrutura financeira das empresas. Quem conseguir antecipar riscos, reorganizar sua estrutura de capital e manter disciplina na gestão estará mais preparado para atravessar períodos de maior pressão”, conclui Denis Barroso.
Benito reforça que essa mudança representa uma nova etapa para o setor. “O próximo ciclo de crescimento do agronegócio será marcado não apenas pela capacidade de produzir, mas pela capacidade de transformar produtividade em geração de caixa. Os negócios mais preparados serão aqueles que conseguirem combinar produtividade, disciplina financeira, governança e capacidade de adaptação”, conclui.
Fonte: Paulo Ucelli – Grupo Alliance, com adaptações da MundoCoop












