Pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP) identificaram que a dívida rural não cresceu além da renda dos produtores nos últimos anos, mas ficou mais cara, mudou de credor e se concentrou. A inadimplência recorde no setor é explicada pelo aumento do custo desse passivo, das características de composição e da concentração do débito, e não do seu tamanho.
Essa é a conclusão de uma análise sobre o cenário de inadimplência do crédito ao setor agropecuário, que avançou de 0,8% entre as pessoas físicas em dezembro de 2022 para o recorde de 9,7% em agosto de 2026.
O estudo cruzou dados do Banco Central, do Cepea, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e do Banco Mundial para tentar entender as razões para o avanço nos atrasos de parcelas do crédito rural nos últimos anos.
Segundo os autores Lucilio Alves, professor do departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq/USP, e Geraldo Barros, coordenador científico do Cepea, a explicação mais provável para o avanço da inadimplência é o descompasso entre o custo da dívida na contratação e no vencimento.
“A formulação mais defensável é a de que as dívidas de investimento contratadas com margens de 2020 a 2022 venceram quando a margem dos grãos encolheu e os juros dobraram. Se isso estiver certo, a resposta não é o alongamento generalizado, mas a separação entre liquidez e solvência, caso a caso, com base nas contas da fazenda”, afirmam.
O estudo ressalta que faltam para o diagnóstico completo, como informações sobre a inadimplência por finalidade, as taxas de renegociações bilaterais e o montante da dívida fora do sistema financeiro. O passo seguinte do trabalho será medir em quantas regiões e safras a receita cobre o custo total, para separar liquidez de solvência.
O estudo, divulgado nesta segunda-feira (19/10), diz que a alta na inadimplência não decorre do excesso de dívida bancária em relação à renda agregada. Ou seja, o estoque não explica o recorde de atrasos. “Em 2025, a carteira de crédito rural equivalia a 94% da renda anual da agropecuária, dentro da faixa de 87% a 109% observada entre 2013 e 2019, quando a inadimplência era um terço da atual”, afirma.
O texto sustenta que a dívida “mudou de patamar”. Isso porque a taxa média do crédito rural a pessoas físicas saiu de 6,3% para 12,2% entre 2021 e 2025, ou seja, a custo dos juros quase triplicou: de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, de 3,9% para 11,4% da renda do setor.
Os autores apontam ainda que o juro medido em produto passou de “fortemente negativo a fortemente positivo” em 2022 e 2023. Além disso, o atraso nos pagamentos se concentra nas operações a taxas de mercado, a que mais cresceu, a reboque da Selic, desde 2019, segundo o estudo.
As fontes privadas do crédito rural com taxa livre, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), passaram de 5% do crédito rural contratado em 2013 para quase metade em 2023. Essas operações acompanharam a Selic e concentraram 77% do saldo em atraso: inadimplência de 17,6%, contra 3,8% nos juros controlados.
“A renda e os preços caíram nos grãos e subiram na pecuária, com a pior relação de troca da série para a soja, enquanto uma fatia crescente do investimento é financiada fora do crédito rural e das estatísticas”, apontam os autores.
A situação climática também pesou, mas afetou o país de formas diferentes. Na região Sul, o “choque climático” provocou alta no “estoque problemático” do crédito rural, que ficou grande, mas pouco inadimplente. Produtores ainda prorrogam e renegociam. Já nos estados produtores de grãos do Centro-Oeste e do Matopiba (confluência entre os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o saldo com problemas é proporcionalmente menor, mas já convertido na inadimplência mais alta do país.
Os autores ressaltam que os dados disponíveis deixam lacunas para análise total da situação. Não há informações sobre dívidas fora do sistema financeiro, por exemplo, nem identificação de inadimplência por produto. Além disso, não há separação da inadimplência de custeio da de investimento nem informações sobre a taxa das renegociações bilaterais.
“Parte do financiamento está fora do radar, e a resposta pública alcançou pouco”, diz o estudo. “O investimento agropecuário cresceu 71% desde 2019, e 64% dele foi financiado fora do crédito rural (recursos próprios, CPR, fornecedores, leasing); quanto disso é dívida, as estatísticas não informam”, completa.
Fonte: Globo Rural com adaptações da MundoCoop












