O que Homem-Aranha, Superman e Capitão América têm em comum com 300 jovens cooperativistas de Minas Gerais? Todos entram em cena quando a realidade exige transformação. A diferença está no superpoder de cada um: na cultura pop, ele aparece em teias, força sobre-humana e escudos; na Cultura Coop, ganha forma na capacidade de mobilizar pessoas, transformar ideias em ação e construir soluções coletivas com base em princípios e valores do cooperativismo.
Para colocar esse potencial em ação, o Sistema Ocemg reuniu participantes de diferentes regiões de Minas Gerais no Encontro de Jovens Cooperativistas, realizado entre os dias 6 e 8 de agosto, no Hotel Tauá Caeté. O evento promoveu troca de experiências, desenvolvimento de novas habilidades e reflexões sobre o papel da juventude na construção do presente e do futuro das cooperativas. Ao longo da programação, cada jovem foi convidado a assumir o protagonismo e fortalecer a identidade cooperativa em suas comunidades.
Toda história de protagonistas começa com uma missão. Para o superintendente do Sistema Ocemg, Alexandre Gatti Lages, a da juventude é levar o cooperativismo adiante e transformar o conhecimento adquirido em atitude no retorno às suas cooperativas. “Queremos que esses jovens voltem para suas realidades como pessoas melhores e diferentes, levando tudo o que foi discutido e trabalhado durante o encontro”, afirma. “É importante que eles tenham orgulho de fazer parte de um movimento que faz a diferença na vida das pessoas em todo o mundo”.
Se os heróis da cultura pop são reconhecidos por símbolos, uniformes e habilidades, a identidade de um cooperativista se revela no cotidiano. É na forma de trabalhar, de se relacionar e de compreender o impacto das cooperativas nas comunidades que a Cultura Coop ganha contornos, segundo a gerente de Educação e Desenvolvimento Sustentável do Sistema Ocemg, Andréa Sayar. “Nós já temos, por natureza, um jeito diferente de encarar aquilo que fazemos e, portanto, aquilo que somos. Nós somos seres cooperativos”, explica.
Segundo Andréa, ao mesmo tempo que é fundada em princípios e valores, a cultura cooperativista é dinâmica, e se fortalece com a participação dos jovens. “As contribuições geradas nos encontros orientam projetos e programas que depois chegam às cooperativas. Todo esse trabalho é construído a partir da escuta e do olhar dos próprios jovens”.
O poder que cria pontes
Nas histórias em quadrinhos, ter uma habilidade extraordinária nunca é suficiente. O que define um protagonista é a maneira como ele decide usar seu superpoder. Na Cultura Coop, a influência só se transforma em ação quando aproxima pessoas e abre espaço para o diálogo. Foi essa a reflexão conduzida pela especialista em comunicação para resultados e desenvolvimento de lideranças organizacionais, Pat Lisboa.
Para ela, os jovens têm papel decisivo na continuidade do cooperativismo porque conseguem construir pontes com outras gerações. Essa capacidade começa pela disposição de ouvir. “Quem comunica bem não é quem fala bem, é quem escuta bem”, afirma. Pat também defende que as cooperativas ampliem a escuta da juventude e reconheçam formas de liderança que se manifestam no cotidiano. “Os jovens precisam ocupar seu espaço, assumir o protagonismo e exercer uma liderança que não vem de um crachá, mas da atitude e da coerência”.
Nenhum protagonista atravessa uma história sem encontrar obstáculos. Gabriel Araújo, o Gabrielzinho, um dos maiores nomes da natação paralímpica brasileira e cinco vezes campeão paralímpico pelo Brasil, mostrou que a diferença pode estar na forma de interpretar cada desafio. Em sua trajetória, aquilo que poderia ser visto como barreira ganhou outro nome: oportunidade.



“Mesmo quando ela parece pequena ou distante do ideal, pode representar o primeiro passo para que os resultados sejam colhidos lá na frente”, ressalta. Gabrielzinho também dirigiu uma provocação às lideranças das cooperativas: os jovens precisam receber oportunidades e caminhar ao lado dos profissionais mais experientes. “Se todos estiverem na mesma sintonia e trabalhando pelo mesmo objetivo, a chance de sucesso é muito grande. Em uma equipe, ninguém deve caminhar à frente enquanto os outros ficam para trás”.
Um elenco, diferentes missões
Heróis solitários podem funcionar na ficção. No cooperativismo, nenhuma transformação acontece sem um time disposto a construir junto. Essa lógica orientou o painel “Cultura Coop: a juventude nas cooperativas e nas comunidades”, mediado pelo assistente de Educação e Desenvolvimento Sustentável do Sistema Ocemg, Pablo Philipy. Três trajetórias, vindas de diferentes ramos, mostraram que o protagonismo juvenil não segue um roteiro único.
Coordenador de Inteligência em Relacionamento da Unimed Vale do Aço e integrante dos comitês Estadual e Regional de Jovens Cooperativistas, Alysson Melo falou sobre o poder de uma porta aberta. Aos 18 anos, uma oportunidade como ajudante de motorista mudou o rumo de sua vida. Anos depois, essa experiência o levou a mobilizar dez cooperativas e mais de 80 participantes no primeiro Encontro de Jovens do Vale do Aço, iniciativa que deu origem ao comitê regional. “O jovem não quer apenas participar. Ele quer construir junto”, afirma.
Na Cooperativa dos Cafeicultores da Zona de Três Pontas (Cocatrel), a missão assumida pelo gerente de Marketing e Comunicação, Rafael Souza, é preparar quem dará continuidade à história. Diante do envelhecimento do quadro social, o Cocatrel Jovem promove encontros, palestras e trocas de experiências para aproximar novos cooperados, estimular ideias e formar sucessores. “Uma cooperativa não se fortalece apenas investindo em máquinas, tecnologia ou infraestrutura. Ela se fortalece quando investe nas pessoas”, destaca.
Tales Costa, coordenador da área e do Comitê de Cidadania e Sustentabilidade do Sicoob União dos Vales, apresentou outra forma de protagonismo: transformar princípios em ações que alcançam as comunidades. Educação financeira, cultura, esporte, empreendedorismo e voluntariado integram esse repertório, sempre a partir da escuta dos cooperados e das necessidades de cada localidade. “Não é preciso ocupar um cargo de diretoria para promover mudanças. Elas acontecem no cotidiano, a partir da responsabilidade assumida em cada programa ou projeto”.
Quando o roteiro vira ação
Protagonismo sem execução permanece no papel. Por isso, além das conversas sobre influência, oportunidade e liderança, o Encontro de Jovens Cooperativistas também mostrou como atuar na prática. O palestrante e especialista em treinamento corporativo Clóvis Tavares usou o futebol para explicar sobre planejamento, estratégia e execução de projetos dentro das cooperativas. Segundo ele, há quem atue na defesa, protegendo áreas internas; no meio de campo, conduzindo processos e relacionamentos; e no ataque, prospectando oportunidades e aproximando novos cooperados.
As dinâmicas da palestra também trabalharam empatia, colaboração e valorização das pessoas, elementos necessários para que diferentes funções contribuam para o mesmo resultado. “No cooperativismo, não há espaço para estrelismo ou egoísmo. É preciso valorizar as pessoas e compreender que o resultado depende do trabalho de todo o time”, afirma Tavares.
A cultura também deixou de ser conceito para ganhar corpo, voz e movimento na conversa mediada por Liziane Silva, cofundadora da Ink Prepara, com as bailarinas Taís Araújo e Camila Araújo, integrantes da Cia de Dança Ominirá. As artistas mostraram que uma história coletiva não é sustentada somente por aquilo que se projeta para o futuro, mas também pelas raízes que cada geração decide preservar. “A cultura não é apenas entretenimento. É também trabalho, resistência, representatividade e respeito”, resumiu Liziane.
Se as palestras ajudaram a compreender os papéis de cada protagonista, o desafio foi construir o próprio roteiro. Divididos em grupos, eles criaram projetos voltados à Cultura Coop, mobilizaram apoio em uma votação on-line e levaram as propostas mais votadas à plenária. Foram mais de 15 mil votos, resultado que mostrou que a juventude não queria assistir à transformação de longe, mas participar de sua construção.
Os três projetos mais votados foram:
- PONTE — Programa de Orientação para Novos Talentos e Educação Cooperativista
- DNA COOP — Do fazer ao pertencer. A cultura corre em nossas veias
- Mobiliza Coop — Conectando estratégia, pessoas e operação por meio da gamificação
Uma história que continua
Em uma sessão de cinema, os créditos finais indicam que a exibição terminou. No cooperativismo, o Encontro de Jovens só cumpre seu papel quando as ideias continuam circulando depois que todos deixam o auditório. Essa continuidade passa pelo Comitê Estadual de Jovens Cooperativistas, cujos resultados foram apresentados por Igor Pio, cooperado do Sicoob Credialto e integrante do grupo. “Nosso objetivo é contribuir para a construção de propostas e projetos, além de estimular e disseminar a participação e o protagonismo juvenil no cooperativismo mineiro”, afirma.
Entre os principais avanços estão:
- 19 comitês constituídos em Minas Gerais
- 16 reuniões ordinárias realizadas
- Participação em eventos estaduais e nacionais
- Divulgação de ações no jornal Cooperação e nas redes sociais
- Criação de materiais para orientar novos comitês
- Formação de lideranças por meio da CapacitaCoop
Para Igor, os números representam uma rede capaz de fazer a voz da juventude mineira alcançar diferentes regiões do Estado. “Cada jovem carrega a representatividade de sua região e, ao compartilhar conhecimento e criar conexões, ajuda a transformar novas realidades”.
Hora da ação
O verdadeiro impacto do Encontro de Jovens aparece quando os participantes retornam às cooperativas. É ali que aprendizados, contatos e referências encontram novos contextos e podem gerar transformações. Veja o que três participantes destacam sobre o encontro:
“Decidi participar pela oportunidade de interagir com cooperativas de diferentes segmentos e compreender outras realidades. Como auditor, trabalho ouvindo as pessoas, e o encontro reforçou algo essencial: falamos muito sobre performance, processos e melhoria, mas as cooperativas são feitas por pessoas. Essa percepção, somada às conversas e à integração proporcionadas pelo evento, torna a experiência ainda mais importante para o meu trabalho”, Igor Trindade, auditor da Confederação Nacional de Auditoria Cooperativa (CNAC).
“Esta é a minha primeira participação e tem sido uma experiência incrível, com muito aprendizado sobre o cooperativismo na prática. Conhecer pessoas e realidades de outras cooperativas também é muito produtivo, porque algumas iniciativas podem ser adaptadas e implementadas na Ubervan. Quero levar esse conhecimento para contribuir com o crescimento da cooperativa, que tem incentivado nossa participação e oferece espaço para que os jovens apresentem ideias e assumam responsabilidades”, Jéssica Azevedo, gestora de Logística da Cooperativa dos Transportadores de Uberaba Transporte de Passageiros (Ubervan).
“O que mais me marcou foi enxergar, na prática, tudo o que o cooperativismo oferece. A teoria é bonita, mas é ainda mais significativo perceber como o movimento apresenta soluções para as comunidades, forma lideranças e inspira pessoas. O mais importante não é o que cada participante traz ao evento, mas aquilo que leva para casa. O cooperativismo trabalha com desenvolvimento humano, e isso tem impacto direto na trajetória dos jovens e nas oportunidades que recebem”, Shirley Barros, gerente de RH da COSGD.
Fonte: Sistema Ocemg com adaptações da MundoCoop












