A inteligência artificial começa a avançar da experimentação para aplicações concretas dentro das cooperativas. Levantamento internacional do World Council of Credit Unions (WOCCU) mostra que quase metade das organizações consultadas já testa a tecnologia e cerca de um terço a utiliza em funções específicas do negócio. Ao mesmo tempo, 45% ainda não possuem uma estrutura formal de governança para orientar seu uso.
No Brasil, iniciativas recentes também indicam essa mudança de estágio. No Paraná, a primeira turma da Residência em Inteligência Artificial – Turma Sescoop envolveu 38 cooperativas durante dois anos, combinando capacitação, experimentação e desenvolvimento de projetos conectados a desafios das próprias organizações. Os trabalhos foram apresentados em setembro, em Londrina, no Hub Senai Paraná Cooperativo.
Com as primeiras aplicações em andamento, a discussão passa a envolver questões que vão além do acesso às ferramentas. Segurança, confiabilidade, formação das equipes, critérios de uso e capacidade de medir resultados começam a definir uma nova etapa da adoção da IA no cooperativismo.
Uso avança nas organizações
Os dados do WOCCU ajudam a indicar onde essa transformação tende a ganhar espaço. Atendimento aos associados foi apontado por 62% dos participantes como uma das áreas de maior potencial para a inteligência artificial, seguido pela produtividade das equipes, com 57%. Análise de dados e prevenção de fraudes aparecem na sequência, ambas citadas por 43%.
A expansão, porém, encontra um obstáculo interno. Quase dois terços das organizações consultadas apontaram a falta de conhecimento especializado como principal barreira para ampliar o uso da IA, à frente de orçamento, regulação, privacidade e disponibilidade de soluções.
A formação prática desenvolvida no Paraná buscou responder justamente a esse desafio. Para Silvana Mali Kumura, coordenadora do Instituto Senai de Tecnologias da Informação e Comunicação e do Hub de IA, aproximar conhecimento e problemas reais foi parte central da experiência. “Ao longo desses dois anos, conseguimos unir formação, desenvolvimento de projetos e desafios reais, permitindo que os participantes não apenas conhecessem a inteligência artificial, mas experimentassem como ela pode gerar soluções aplicáveis aos seus negócios”, explica.
Governança acompanha a adoção
O avanço das aplicações também amplia a necessidade de estabelecer regras. Entre as organizações ouvidas pelo WOCCU, 23% já possuem uma política aprovada para inteligência artificial. Outros 23% afirmam que o tema já chegou aos conselhos de administração, embora ainda sem uma norma formal, enquanto 9% estavam desenvolvendo uma política.
O cenário coloca questões como proteção de dados, ferramentas autorizadas, supervisão humana e responsabilidade sobre decisões apoiadas por sistemas automatizados no centro da discussão. No programa paranaense, segurança e confiabilidade também estiveram entre os aspectos considerados durante o desenvolvimento das soluções.
No cooperativismo financeiro, a pressão tende a aumentar. Transformação digital já aparece como o desafio de governança citado com maior frequência na pesquisa do WOCCU, acompanhado por cibersegurança, supervisão de riscos e renovação dos conselhos. Nos próximos cinco anos, regulação e inteligência artificial devem ganhar ainda mais espaço na agenda das lideranças.
Formação ganha espaço
A necessidade de preparar pessoas acompanha esse processo. A adoção da IA deixa de exigir conhecimento apenas das equipes de tecnologia e passa a envolver profissionais responsáveis por interpretar informações, avaliar respostas e decidir quando uma ferramenta pode ou não ser utilizada.
Para Maria Fernanda Reis, analista de Desenvolvimento Humano do Sescoop/PR, a colaboração entre diferentes áreas pode acelerar esse aprendizado. “Esse ambiente de colaboração permite que pesquisas e metodologias avançadas sejam aplicadas a desafios reais, acelerando a inovação e reduzindo a distância entre teoria e prática”, destaca.
A discussão também chegou à educação. Em setembro, o Summit Educação Sicredi 2026 reuniu mais de mil educadores para tratar, entre outros temas, das mudanças provocadas pela inteligência artificial e da necessidade de fortalecer capacidade crítica, interpretação e autonomia diante do avanço tecnológico.
“E talvez a pergunta que não queira calar para educadores e alunos seja justamente: o que precisamos aprender e ensinar para continuar sendo protagonistas das nossas escolhas?”, pontua Mariana Baião, assessora de Desenvolvimento do Cooperativismo da Central Sicredi PR/SP/RJ.
Resultados definem a próxima etapa
A primeira turma da Residência em IA será encerrada formalmente em outubro, junto à premiação dos cinco projetos melhor avaliados e ao lançamento de uma segunda edição. A continuidade amplia a possibilidade de levar os aprendizados para novas cooperativas e consolidar profissionais com experiência prática no uso da tecnologia.
Por Redaçõa MundoCoop












