COLUNA PRESENTE E FUTURO EM COOPERAÇÃO
Ao longo de mais de duas décadas trabalhando com previdência e cooperativismo, conheci muitas famílias cujas histórias ficaram comigo. Vou reuni-las aqui em uma só e chamá-la de Ricardo. Ele tinha 46 anos, dois filhos, casa financiada, planos para o futuro e uma vida financeira relativamente organizada. Tinha Previdência e tinha Proteção Familiar. Quando morreu inesperadamente, a ausência chegou para a família. Mas as contas continuaram chegando também. A escola, a casa, o supermercado, o plano de saúde, os compromissos que não entram em luto.
A proteção que ele havia contratado não diminuiu a saudade. Mas ajudou a preservar a casa, a educação dos filhos e os projetos que aquela família havia construído. Histórias assim me fazem voltar sempre à mesma pergunta: quanto custa a nossa ausência? Não quanto custa morrer. Quanto custa, para quem fica, continuar vivendo?
Essa reflexão ganha ainda mais força quando olhamos para o cooperativismo. O Dia de Cooperar, o Dia C, é uma das expressões mais bonitas do nosso movimento. Milhares de pessoas se mobilizam para doar tempo, conhecimento, alimentos, cuidado e atenção. É a cooperação materializada. Mas talvez possamos ampliar esse conceito. Porque cooperar não é apenas ajudar alguém depois que alguma coisa aconteceu. Cooperar também pode ser criar condições para que uma família esteja preparada antes.
E poucas ideias expressam isso tão bem quanto a proteção. A lógica é essencialmente coletiva: muitas pessoas compartilham riscos para que ninguém precise enfrentar sozinho um evento capaz de comprometer financeiramente uma família inteira. Seguro e cooperativismo não são a mesma coisa. Mas existe algo profundamente cooperativo na ideia de compartilhar riscos para proteger pessoas.
Não por acaso, essa discussão vem ganhando espaço no movimento cooperativista. O Sistema OCB, Unicred, Ailos, vem ampliado o debate sobre a lacuna de proteção existente no Brasil e sobre o papel que as cooperativas podem exercer para aproximar soluções de proteção de milhões de pessoas. Talvez estejamos diante de uma nova fronteira do cooperativismo financeiro.
Durante décadas, nossas cooperativas se tornaram extraordinariamente competentes em ajudar pessoas a conquistar. Financiamos a casa, o consultório, a propriedade rural, a empresa, a educação dos filhos. Depois avançamos para investimentos, formação de patrimônio e previdência. O próximo passo talvez seja igualmente importante: ajudar as pessoas a não perder aquilo que passaram a vida inteira construindo.
Existe uma incoerência silenciosa quando ajudamos uma família a construir patrimônio durante vinte ou trinta anos, mas pouco conversamos sobre o risco de tudo mudar em trinta segundos.
Essa foi uma percepção importante na evolução dos planos administrados pela Quanta Previdência. Ao longo do tempo, deixamos de olhar a previdência apenas como um instrumento de acumulação de longo prazo e passamos a enxergá-la como parte de uma jornada mais ampla de cuidado com a vida financeira do cooperado. Porque a experiência também nos ensinou algo fundamental: não basta construir patrimônio para daqui a 20 ou 30 anos se um imprevisto hoje puder interromper todo esse projeto.
Foi a partir dessa visão que a Proteção Familiar passou a estar embarcada na jornada previdenciária. Previdência e seguro deixam de ser soluções isoladas e passam a cumprir funções complementares dentro de um mesmo planejamento. A previdência constrói patrimônio, renda e liberdade para o futuro. A proteção preserva a capacidade financeira da família se a vida mudar antes do planejado.
Uma constrói o amanhã. A outra garante que a família consiga chegar até ele.
Talvez o futuro do cooperativismo financeiro esteja justamente nessa mudança de perspectiva. Não sermos apenas o lugar onde o cooperado movimenta seu dinheiro, mas o ecossistema que o ajuda a construir, proteger, acumular e transformar patrimônio em segurança para viver. Crédito ajuda a construir. Investimentos ajudam a multiplicar. Previdência ajuda a financiar o futuro. Proteção impede que um imprevisto destrua a jornada.
A solidariedade que chega depois continuará sendo indispensável. Mas existe outra forma de solidariedade, mais silenciosa, que acontece antes: quando uma família conversa sobre riscos; quando alguém decide proteger sua renda; quando uma cooperativa provoca essa reflexão; quando criamos coletivamente mecanismos para impedir que um imprevisto individual se transforme em uma tragédia financeira familiar.
Isso também é cooperação. Talvez uma das formas mais sofisticadas dela. Porque cooperar não é apenas conquistar juntos. Cooperar também é proteger aquilo que conquistamos.
*Denise Maidanchen é CEO da Quanta Previdência | 25 anos em Previdência Complementar, Presidente do Lide Mulher e Diretora da Uniabrapp

Coluna exclusiva publicada na edição 134 da Revista MundoCoop






