A atuação das cooperativas já alcança todos os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da redução da pobreza à ação climática. A partir dessa presença efetiva do setor no funcionamento da sociedade, o novo relatório Building a Better World Together, elaborado pela Aliança Cooperativa Internacional (ACI) e pelo Comitê das Nações Unidas para a Promoção e o Avanço das Cooperativas (COPAC), busca dimensionar como o modelo contribui para o desenvolvimento sustentável e quais condições podem ampliar esse impacto.
O alcance global do movimento ajuda a dimensionar essa contribuição. O relatório aponta a existência de cerca de 3 milhões de cooperativas e mais de 1 bilhão de cooperados no mundo, com presença em praticamente todos os setores da economia. “Os ODS constroem a paz ao se concentrarem nas atitudes, instituições e estruturas necessárias para eliminar as causas profundas da violência. É isso que as cooperativas também fazem”, afirmou Jeroen Douglas, diretor-geral da ACI, durante o lançamento.
Atuação nos 17 ODS
A análise organiza a contribuição cooperativa em diferentes frentes. Nos cinco primeiros ODS, o relatório destaca geração de renda e acesso a mercados, fortalecimento dos sistemas alimentares, prestação de serviços de saúde, educação e capacitação, além da ampliação da participação econômica e da liderança de mulheres.
Nos objetivos seguintes aparecem iniciativas relacionadas ao acesso à água e energia, trabalho digno, inovação e redução das desigualdades. O documento estima que o cooperativismo sustenta cerca de 280 milhões de meios de subsistência em todo o mundo.
Impacto cooperativo
A leitura conjunta dos casos permitiu identificar quatro características recorrentes. A primeira é o caráter multidimensional da atuação, que combina geração de valor econômico com inclusão social, resiliência e objetivos ambientais. A segunda é a capacidade de alcançar comunidades pouco atendidas por mercados, infraestrutura e serviços convencionais.
O relatório também aponta a governança democrática e a propriedade coletiva como parte dos resultados alcançados. A participação dos membros nas decisões pode fortalecer a responsabilidade sobre os recursos e a permanência do valor econômico dentro das próprias comunidades.
A avaliação é compartilhada por Bjørg Sandkjær, secretária-geral assistente para Coordenação de Políticas do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU. “Os ODS são um plano compartilhado para a paz e a prosperidade. A responsabilidade é nossa de garantir que ninguém seja deixado para trás. As economias são mais fortes e resilientes quando todas as pessoas podem participar plenamente da vida econômica e social”, afirmou.
Brasil entre os exemplos
O Brasil também aparece entre os casos utilizados para demonstrar essa atuação. No capítulo dedicado à erradicação da pobreza, o relatório apresenta a experiência da Asmare, organização de catadores fundada em Belo Horizonte em 1990.
Antes da organização coletiva, trabalhadores da reciclagem atuavam em condições de informalidade, com baixa renda e pouco acesso a proteção social. A estrutura cooperativa permitiu negociar acordos com o poder público e ampliar o acesso a centros de reciclagem, equipamentos, capacitação e melhores condições de trabalho. O relatório também relaciona a experiência à posterior incorporação das cooperativas de catadores na Política Nacional de Resíduos Sólidos.
O caso é utilizado para demonstrar a interligação entre diferentes objetivos. Além de renda e formalização do trabalho, a experiência produziu efeitos sobre inclusão social, alfabetização de adultos, representação política e gestão de resíduos urbanos.
Principais barreiras
Apesar da diversidade de experiências, o relatório identifica obstáculos que ainda restringem a escala da contribuição cooperativa. Entre eles estão marcos legais e regulatórios desatualizados, dificuldade de acesso a financiamento adequado, lacunas de infraestrutura e tecnologia, baixa capacidade técnica e gerencial, restrições de mercado e sistemas de dados insuficientes.
A mensuração aparece como um dos problemas centrais. Segundo o documento, a contribuição econômica, social e ambiental das cooperativas ainda é pouco registrada em estatísticas nacionais, sistemas de monitoramento setorial e indicadores dos ODS. Isso dificulta não apenas reconhecer os resultados, como também financiar, replicar e incorporar essas soluções às políticas públicas.
A lacuna fica evidente nas Revisões Nacionais Voluntárias apresentadas à ONU. Entre os 35 países que entregaram esses relatórios em 2025, 19 reconheceram explicitamente contribuições cooperativas em áreas como emprego, inclusão financeira, empoderamento feminino e resiliência climática. Ainda assim, o estudo avalia que essa presença permanece limitada no planejamento, no orçamento e no monitoramento dos ODS.
Prioridades até 2030
Para ampliar o impacto, a publicação propõe fortalecer marcos legais favoráveis ao cooperativismo, facilitar o acesso a financiamento e mercados, investir em digitalização e inovação, aprimorar a mensuração de resultados e aprofundar parcerias com governos e instituições de desenvolvimento.
O relatório também foi construído para funcionar como instrumento de incidência. A ACI e o COPAC defendem seu uso na elaboração das Revisões Nacionais Voluntárias, na formulação de estratégias nacionais de desenvolvimento e na revisão de legislações relacionadas às cooperativas.
“Nossa ambição é simples: que as cooperativas sejam reconhecidas não como um modelo de negócio alternativo que opera à margem da sociedade, mas como um dos modelos mais comprovados, democráticos e escaláveis do mundo para alcançar um desenvolvimento inclusivo, resiliente e sustentável”, afirmou Joseph Njuguna, diretor de Políticas da ACI e responsável por liderar a elaboração dos estudos.
Com a Agenda 2030 entrando em sua etapa final, a discussão já começa a avançar para o período seguinte. O documento recomenda que o movimento leve evidências e propostas ao SDG Summit de 2027 e participe da construção da agenda internacional pós-2030.
Para a ACI, o desafio passa a ser transformar uma contribuição já registrada nos 17 ODS em maior presença nas decisões, políticas e parcerias que definirão o próximo ciclo do desenvolvimento sustentável.
Por Redação MundoCoop com informações da Aliança Cooperativa Internacional












