O que vem depois de um período de forte expansão talvez seja uma das questões mais importantes para o cooperativismo financeiro brasileiro. Para Luiz Lesse, presidente da Confebras, a resposta passa por uma agenda que combina eficiência, inovação e escala com desafios que se tornam mais complexos à medida que o setor cresce.
As discussões do 16º Concred ajudaram a colocar esses pontos em perspectiva e, na avaliação do dirigente, mostraram que avançar também significa preservar a participação dos associados, a governança e a cultura.
Em entrevista à MundoCoop após o encontro, Lesse amplia esse olhar para os próximos anos e aponta as prioridades de uma etapa que exigirá transformação digital, intercooperação, profissionalização e maior aproximação com as novas gerações.
Confira!
O que o 16º Concred revelou sobre o atual estágio do cooperativismo de crédito brasileiro?
O 16º Concred mostrou um cooperativismo financeiro mais forte, mais maduro e preparado para ocupar um espaço cada vez maior no desenvolvimento econômico e social do Brasil. O próprio crescimento do setor confirma isso: o Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC) encerrou 2025 com mais de R$ 1 trilhão em ativos e 21,2 milhões de cooperados, alcançando 59% dos municípios brasileiros.
Mas o Concred também mostrou que crescer, por si só, não é suficiente. À medida que ampliamos nossa presença e nossa participação no mercado, aumenta também a responsabilidade de preservar aquilo que nos diferencia: a proximidade, a participação do cooperado, a governança e o compromisso com o desenvolvimento das comunidades.
Durante os três dias do Concred, ficou muito evidente que o cooperativismo financeiro brasileiro já tem escala e relevância. O próximo passo é transformar essa força em ainda mais eficiência, inovação e impacto, sem perder a nossa identidade.
Depois de três dias de discussões e debates, que avanços já podem ser percebidos e quais desafios ficaram ainda mais evidentes para o setor?
Um dos principais avanços é perceber que o setor já não discute apenas como crescer, mas como crescer de forma sustentável e responsável. Durante o Concred, falamos sobre inteligência artificial, Open Finance, novos modelos de negócios, sustentabilidade, governança, intercooperação, agro, educação financeira e novas formas de relacionamento com o cooperado. Falamos, também, sobre a importância da capacitação e de o setor estar atento às normas de saúde, como a NR-1, que passou a exigir que as empresas incluam os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Tudo isso mostra que as cooperativas estão olhando para o futuro e entendendo que precisam acompanhar as transformações de um mundo globalizado, cada mais conectado e tecnológico, o que envolve também o sistema financeiro.
E todos esses aspectos não envolvem apenas os cooperados, mas, também, quem constrói o dia a dia do setor, como conselheiros, gestores, colaboradores e as novas gerações que vão influenciar o futuro e transformá-lo.
Ao mesmo tempo, alguns desafios ficaram ainda mais claros: eficiência operacional, gestão de riscos, inadimplência, sucessão, formação de lideranças, segurança jurídica e, principalmente, a necessidade de fortalecer a cultura cooperativista à medida que o número de associados cresce. Esse foi um ponto muito importante do Concred: a eficiência operacional e a escala são pontos que não podemos deixar de buscar, mas não podemos perder a nossa essência.
O Concred tem como uma de suas marcas aproximar lideranças de diferentes regiões e sistemas. O que essa integração representa para o fortalecimento do cooperativismo de crédito?
Um dos papeis da Confebras, como entidade de terceiro nível suprassistêmica, é conectar diferentes públicos em torno do SNCC. E o Concred tem essa magia: reunir, no mesmo ambiente, todos os agentes que se relacionam com o cooperativismo de crédito. Para nós, é um privilégio congregar não apenas as principais lideranças, mas aqueles que contribuem para o fortalecimento desse ecossistema e participam da sua construção e do seu crescimento.,
A integração é uma das maiores forças do cooperativismo. Nós temos cooperativas singulares, centrais e sistemas com realidades regionais diferentes, mas todos com um único propósito, que é o próprio cooperativismo. E o Concred é uma demonstração prática disso. Tivemos mais de 2.500 congressistas presentes em Goiânia, na sua grande maioria as principais lideranças, gestores e colaboradores de diferentes regiões e sistemas do cooperativismo financeiro nacional. Tivemos também, representantes e dirigentes de instituições privadas e públicas, órgãos normativos e reguladores; bancos públicos e autarquias; especialistas e parceiros. Todos com um único propósito: debater o cooperativismo de crédito brasileiro.
Quando todas essas pessoas se encontram, não estamos apenas trocando experiências. Estamos criando soluções, compartilhando conhecimento e construindo uma visão comum para o futuro. A intercooperação deixa de ser apenas um princípio e passa a ser uma estratégia de competitividade e de fortalecimento do próprio SNCC.
O tema desta edição colocou campo e cidade no mesmo debate. Que papel o cooperativismo financeiro pode desempenhar, nos próximos anos, diante dos desafios econômicos, climáticos e sociais que atingem esses dois territórios?
O campo e a cidade são partes do mesmo ecossistema. O que acontece em um território impacta diretamente o outro. E as cooperativas de crédito têm uma posição privilegiada justamente porque estão próximas dessas duas realidades. No campo, elas financiam a produção, apoiam o produtor e ajudam a manter os recursos circulando nas próprias regiões. Nas cidades, apoiam empreendedores, pequenos negócios, famílias, profissionais liberais, trabalhadores dos setores público e privado, e projetos que geram emprego e renda. Essa presença territorial é uma das nossas maiores vantagens.
Diante das mudanças climáticas, das transformações econômicas e das novas demandas sociais, teremos que ir além da concessão de crédito. Precisaremos ajudar nossos cooperados a planejar, se adaptar, investir e construir resiliência. É por isso que escolhemos o tema “no campo e na cidade, juntos na construção de um futuro sustentável”. O cooperativismo financeiro pode ser uma ponte entre desenvolvimento econômico, inclusão financeira e sustentabilidade.

O que precisa avançar no ambiente regulatório e institucional para que as cooperativas possam ganhar escala, ampliar sua participação no mercado financeiro e, ao mesmo tempo, manter as características que diferenciam o modelo cooperativista?
O setor cresceu muito e hoje tem uma dimensão sistêmica. Por isso, precisamos construir condições adequadas para inovar, ganhar eficiência e ampliar a oferta de produtos e serviços, sem criar assimetrias que dificultem esse processo.
Ao longo do tempo, o Brasil vem construindo um ambiente regulatório adequado, mas ainda precisamos avançar em aspectos que não onerem o segmento. É fundamental considerar a evolução e a complexidade do cooperativismo financeiro e suas características próprias.
Ao mesmo tempo, escala precisa vir acompanhada de responsabilidade. O Banco Central do Brasil tem chamado a atenção justamente para temas como governança, eficiência, inadimplência, riscos e capacidade de gestão. Nossa defesa é por uma evolução regulatória baseada em diálogo, proporcionalidade e segurança jurídica. Queremos crescer, mas queremos crescer preservando o ato cooperativo, a participação dos associados e a natureza do modelo.
Quais iniciativas, agendas ou compromissos devem ganhar prioridade após mais uma edição do Concred?
O principal compromisso é fazer com que o Concred não termine quando as luzes do congresso se apagam. Precisamos transformar conhecimento em ação e em resultados concretos para as cooperativas. A Confebras pretende continuar atuando em frentes como formação de lideranças, disseminação de conhecimento, educação cooperativista, inovação, intercooperação e profissionalização do setor.
Um passo muito importante nessa direção foi o lançamento, durante o 16º Concred, da Certificadora Confebras, criada especificamente para validar o conhecimento dos profissionais do cooperativismo financeiro e daqueles que pretendem nele ingressar. A primeira certificação, denominada COOP B-100,
reconhece, além dos conhecimentos essenciais nas áreas técnica e regulatória, o aprendizado sobre conceitos cooperativistas para uma atuação mais qualificada.
Também precisamos manter na agenda temas que ganharam força no Concred, como inteligência artificial, transformação digital, sustentabilidade, governança, desenvolvimento de pessoas e aproximação com as novas gerações. Um exemplo é o projeto Integração Juventude, que levou cerca de 3 mil jovens ao evento de Goiânia. Eles puderam conhecer os temas que são tratados no cooperativismo de crédito e ter a oportunidade de ver, na prática, como se dá a busca por soluções de forma colaborativa. Construir o futuro significa também preparar as novas gerações para assumir o protagonismo do setor.
A Confebras quer e vai continuar contribuindo e participando dessa evolução sendo uma instituição que conecta e integra os sistemas, produz conhecimento e cria ferramentas para que as cooperativas possam se desenvolver cada vez mais.
Ao olhar para os próximos anos, quais são as principais metas e prioridades para o cooperativismo de crédito brasileiro? E para a própria Confebras?
Para o cooperativismo de crédito, eu destacaria cinco prioridades: crescer com sustentabilidade, ganhar eficiência e escala, avançar na transformação digital, fortalecer a governança e preservar a cultura cooperativista. Temos uma excelente oportunidade pela frente, pois ainda existe muito espaço para ampliar nossa participação no sistema financeiro brasileiro.
Para a Confebras, a prioridade é contribuir para que esse crescimento aconteça de maneira qualificada. Temos uma responsabilidade muito grande na formação de pessoas, na produção e disseminação de conhecimento e na conexão entre as diferentes realidades do cooperativismo.
E existe um desafio que reforço e considero especialmente importante: aproximar o cooperativismo das novas gerações. O futuro do setor depende da capacidade de mostrar aos jovens que cooperativismo não é apenas uma maneira diferente de fazer negócios; é uma forma diferenciada de construir desenvolvimento.
Encerrado o Concred 2026 com grande sucesso, quais são as expectativas para a próxima edição do congresso?
A expectativa é muito grande. O 17º Concred será realizado em São Paulo, em 2028, e chega com uma missão ainda mais ambiciosa: atrair a atenção de outros segmentos da sociedade e de forças produtivas que ainda não descobriram o cooperativismo de crédito; e ampliar a presença do cooperativismo financeiro brasileiro no cenário global. A escolha de São Paulo também é simbólica, porque a próxima edição representa um novo passo na trajetória de crescimento e expansão do congresso.
Queremos que o Concred continue sendo o grande ponto de encontro do cooperativismo financeiro, e que possa inspirar instituições e lideranças de outros países. O cooperativismo financeiro brasileiro tem muito a ensinar e, ao mesmo tempo, muito a aprender com outros mercados. A expectativa é continuar mostrando ao Brasil e ao mundo a força e a capacidade de inovação do nosso modelo.
Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

Entrevista exclusiva publicada na edição 134 da Revista MundoCoop












