Quem visita a fábrica de ração para suínos da DBN, em Pequim, precisa passar por um rígido protocolo de segurança, que inclui colocar uma proteção para os pés e ficar um minuto em uma câmara de desinfecção antes do acesso, sob o olhar de funcionários locais. As medidas para evitar qualquer tipo de contaminação são mais do que justificadas. Desde a epidemia de peste suína africana que dizimou quase metade do plantel de suínos do país, no fim da década de 2010, as empresas dessa cadeia reforçaram as normas de biossegurança para evitar a volta da enfermidade.
“Todos os dias fazemos testes de matéria-prima, de doenças, do ambiente e de desinfecção”, afirmou o engenheiro Yin (que não revelou o sobrenome), a um grupo de jornalistas e representantes de empresas brasileiras que estiveram na unidade neste mês.
As medidas de biossegurança foram fundamentais para a recuperação da suinocultura chinesa, mas o investimento em tecnologia e gestão também contribuiu para a retomada, disse o engenheiro, que é responsável pela fábrica de ração. O rebanho suíno da China tem hoje 39 milhões de matrizes, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
O surto de peste suína africana acelerou um processo de tecnificação na atividade, com a substituição de pequenas propriedades por grandes granjas comerciais. “Depois da peste suína, a criação está se voltando cada vez mais para as empresas profissionais, com grupos grandes. Não tem mais aqueles agricultores com menos de três, cinco porcos”, afirmou Yin. Essa mudança também alavancou a demanda por ração animal. Na DBN, ela cresce cerca de 5% ao ano.
Graças à mecanização, a fábrica de ração da DBN tem menos de 20 funcionários. Apenas alguns deles estavam trabalhando quando a reportagem visitou o local.
O problema sanitário contribuiu para fazer a tecnificação da cadeia avançar na China, mas o movimento — que abrange diversos segmentos — também está relacionado a outra preocupação de Pequim: a segurança alimentar.
Destaque do 15 Plano Quinquenal do país, a estratégia da China para ampliar a segurança alimentar tem potencial para redesenhar um mercado do qual o Brasil é hoje um dos maiores fornecedores. Atualmente, os chineses já são o segundo maior produtor mundial de carne de frango e vêm recuperando a produção de carne suína. Em carne bovina, o USDA projeta que a China vai produzir 7,1 milhões de toneladas neste ano.
A intenção de Pequim é reduzir a vulnerabilidade da China em áreas consideradas estratégicas. Nas últimas décadas, a dieta dos chineses se diversificou, com aumento na participação das carnes no cardápio. Com 1,4 bilhão de habitantes, o país é visto tradicionalmente como um dos maiores importadores globais de alimentos.
O Plano Quinquenal lançado em março de 2026, para guiar o desenvolvimento econômico e social da China, aponta entre as suas prioridades o aumento na produção de grãos, com redução da dependência externa e investimentos em sementes, genética e mecanização. Também prevê o fortalecimento da pecuária no país.
Segundo o último relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que faz projeções para o período de 2026 a 2035, a China tende a continuar aumentando a autossuficiência em carne suína, com as importações perdendo importância. Investimentos em biossegurança e produção em escala são apontados como pilares da política chinesa.
Em 2024, a China foi o principal destino das exportações brasileiras de carne de frango, com 562,2 mil toneladas. Mas, no ano passado, os embarques caíram para 250,3 mil toneladas, menos da metade. O aumento da produção chinesa contribuiu para o recuo, mas o principal motivo foi o registro, em maio de 2025, de foco de gripe aviária em uma granja comercial do Rio Grande do Sul, o que levou ao embargo ao frango brasileiro.
Na carne suína, foram 159,2 mil toneladas importadas do Brasil no ano passado, o que faz da China o segundo principal destino do produto brasileiro, atrás apenas das Filipinas.
Em 2025, a China importou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina brasileira e foi o principal cliente do Brasil, mas neste ano, criou um sistema de cotas para vários países fornecedores, e os embarques brasileiros estão limitados a 1,106 milhão de toneladas.
O estabelecimento de cotas, com a justificativa de salvaguardar a pecuária chinesa, mostra que Pequim também recorre a medidas protecionistas para alcançar a autossuficiência.
E as proteínas animais não são o único alvo. A China também quer reduzir suas importações de soja, hoje oriundas principalmente do Brasil e dos Estados Unidos, com o qual trava uma guerra comercial.
Para isso, empresas de nutrição chinesas vêm alterando a composição da ração, usando menor percentual de farelo de soja.
Mas Suping Geng, vice-presidente de negócios da América Latina da DBN Biotech, não acredita numa substituição relevante no curto prazo, porque o farelo de soja continua sendo nutricionalmente superior nas formulações de ração para suínos. “Se você conversar com os produtores de ração, eles ainda acreditam que a soja é melhor que o milho”, afirmou o executivo em conversa com jornalistas em visita ao laboratório da DBN em Pequim.
Fonte: Globo Rural com adaptações da MundoCoop












