Tenho repetido há algum tempo que o cooperativismo brasileiro talvez viva uma situação curiosa: somos muito maiores do que parecemos ser. E os números apresentados pelo Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026 ajudam a comprovar isso de maneira contundente. Chegamos a 29 milhões de cooperados, reunidos em aproximadamente 4,4 mil cooperativas, responsáveis por mais de 613 mil empregos diretos. São R$ 848,4 bilhões em ingressos, R$ 1,6 trilhão em ativos e mais de R$ 61 bilhões em sobras. Números que, quando apresentados isoladamente, impressionam. Quando observados em conjunto, revelam algo ainda maior: estamos diante de uma verdadeira potência econômica brasileira.
E talvez seja exatamente aí que deva começar uma nova conversa sobre o cooperativismo.
O Sistema OCB realiza um trabalho fundamental ao reunir, organizar e disponibilizar essa enorme quantidade de informações. O Anuário nos oferece uma fotografia bastante detalhada do movimento cooperativista brasileiro. Permite compreender sua dimensão, acompanhar sua evolução, conhecer as particularidades dos diferentes ramos e enxergar a capilaridade alcançada pelas cooperativas no país. Mas acredito que podemos dar um passo além. O Anuário não deveria ser apenas lido. Deveria ser utilizado como instrumento de decisão.
Vivemos a economia dos dados. Empresas investem bilhões para conhecer mercados, interpretar comportamentos, antecipar tendências e tomar decisões. Informação deixou de ser simplesmente conhecimento para se transformar em ativo estratégico. E talvez o cooperativismo ainda não tenha percebido completamente a riqueza da inteligência que possui nas próprias mãos.
Quando uma cooperativa compara seu crescimento com a evolução de seu ramo, começa a compreender melhor sua verdadeira performance. Quando observa a evolução de ativos, ingressos, sobras, empregos e número de cooperados ao longo dos anos, consegue identificar tendências. Quando compara regiões e estados, pode encontrar mercados ainda pouco explorados. Quando olha para outros ramos, pode descobrir possibilidades de negócios e intercooperação. Quando entende como seu quadro social está mudando, consegue antecipar produtos, serviços e formas de relacionamento.
É nesse momento que o dado deixa de ser estatística e passa a ser inteligência.
Por isso, informações como as apresentadas pelo Anuário deveriam chegar cada vez mais às mesas dos presidentes, diretores, conselheiros e gestores. Deveriam fazer parte das reuniões de planejamento estratégico e provocar perguntas incômodas, mas necessárias. Nossa cooperativa está crescendo porque é eficiente ou simplesmente porque o mercado em que atua também está crescendo? Estamos conquistando novos cooperados? Estamos aumentando nossa produtividade? Qual é nossa participação no território em que atuamos? Existem mercados que ainda não enxergamos? Quais oportunidades estão surgindo em outras regiões? Quanto poderíamos crescer por meio da intercooperação?
São perguntas que transformam números em decisões.
Mas existe uma segunda oportunidade igualmente importante, e talvez ainda pouco explorada: transformar esses dados em comunicação.
Será que o brasileiro conhece a verdadeira dimensão econômica do cooperativismo? Será que empresários, investidores, jornalistas, professores, estudantes, prefeitos, parlamentares e formadores de opinião sabem que estamos falando de um movimento com 29 milhões de cooperados e R$ 1,6 trilhão em ativos? Será que compreendem a quantidade de empregos gerados e o volume de riqueza movimentado pelas cooperativas? Vou além: será que nossos próprios cooperados conhecem essa dimensão?
Durante muito tempo, o cooperativismo aprendeu a comunicar muito bem seus valores. Falamos de cooperação, comunidade, pertencimento, sustentabilidade, desenvolvimento local e propósito. Tudo isso continua fundamental. É a essência que nos diferencia. Mas talvez tenha chegado o momento de acrescentarmos definitivamente uma nova palavra a essa narrativa: potência.
O cooperativismo precisa comunicar também sua relevância econômica.
Não se trata de substituir propósito por números. É justamente o contrário. Trata-se de mostrar que propósito e resultado podem caminhar juntos. Que um modelo econômico baseado em pessoas também pode alcançar escala, eficiência, competitividade e geração de riqueza. R$ 1,6 trilhão em ativos comunica força. R$ 848 bilhões em ingressos comunicam atividade econômica. Mais de 613 mil empregos comunicam desenvolvimento. R$ 61 bilhões em sobras comunicam capacidade de geração de resultados. E 29 milhões de cooperados comunicam algo talvez ainda mais importante: pertencimento em escala.
Esses números precisam sair das páginas dos relatórios e ganhar a sociedade.
Existe uma disputa silenciosa acontecendo diariamente na economia. Empresas disputam consumidores. Marcas disputam atenção. Setores disputam investimentos. Instituições disputam talentos. Segmentos econômicos disputam espaço nas políticas públicas. Todos disputam percepção.
E percepção importa.
Quanto maior a percepção da relevância econômica de determinado setor, maior tende a ser sua capacidade de dialogar com governos, imprensa, universidades, investidores e sociedade. Por isso, os dados do Anuário são também uma poderosa ferramenta de posicionamento institucional.
Precisamos aprender a transformar números em histórias. Mostrar que por trás dos bilhões existem pessoas. Existe o produtor que conseguiu permanecer no campo. O empreendedor que encontrou crédito para expandir seu negócio. O médico que encontrou no cooperativismo uma forma diferente de exercer sua profissão. O transportador que ganhou escala. A comunidade que passou a ter acesso a serviços. O trabalhador que encontrou autonomia. A cidade cuja economia foi transformada pela presença de uma cooperativa.
O número dá dimensão. A história dá significado. Quando conseguimos unir os dois, construímos reputação.
Existe ainda um desafio que considero fundamental. O cooperativismo precisa falar cada vez mais para fora do cooperativismo. Durante muito tempo construímos um extraordinário ecossistema de comunicação, eventos, publicações e relacionamentos internos. Conversamos muito bem entre nós. Mas, diante do tamanho que alcançamos, isso já não é suficiente.
Precisamos estar presentes onde a economia brasileira é discutida. Na grande imprensa econômica. Nos fóruns empresariais. Nas universidades. Nos debates sobre inovação. Nas discussões sobre Inteligência Artificial, transição energética, mudanças climáticas, futuro do trabalho, segurança alimentar, crédito, saúde, infraestrutura e desenvolvimento regional.
O cooperativismo não pode aparecer apenas quando o assunto é cooperativismo. Precisa aparecer quando o assunto é Brasil.
Essa talvez seja uma das grandes mudanças de posicionamento que os números atuais nos permitem fazer. Existe uma enorme diferença entre ser grande e ser percebido como grande. O desafio dos próximos anos será diminuir essa distância.
E, apesar de todos os números extraordinários apresentados pelo Anuário, talvez o dado mais importante.
*Luís Cláudio Silva é Sócio-Fundador da MundoCoop












