O brasileiro nunca viveu tanto. Segundo o IBGE, a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, o maior patamar da série histórica iniciada em 1940. Quem completa 60 anos hoje pode contar, em média, com mais 22,6 anos de vida pela frente. O dado muda a régua com que cooperados, cooperativas e o próprio sistema financeiro precisam medir o futuro.
Se antes bastava pensar nos próximos cinco ou dez anos, agora entra em cena um horizonte de três décadas ou mais, e é justamente esse recorte temporal que começa a orientar as discussões dentro do cooperativismo de crédito.
Antes de falar em estratégia, Marcelo Vieira Martins, diretor executivo da Unicred União, aponta uma questão mais simples, porém mais difícil de resolver, o comportamento humano. Para ele, o obstáculo central não é técnico. “O maior conflito é que o presente sempre faz mais barulho do que o futuro. Todo mundo tem contas para pagar, desejos imediatos e urgências que parecem inadiáveis.”

A frase toca num fenômeno estudado por economistas comportamentais no mundo todo, a preferência temporal, a tendência humana de dar peso maior a ganhos imediatos do que a benefícios distantes. Dentro das cooperativas, esse impulso encontra um cenário diferente. “Cooperar exige inúmeras atitudes, e uma delas é abrir mão de uma pequena vantagem hoje para construir algo maior amanhã. Essa lógica vale para uma cooperativa, para uma família e para a vida financeira de qualquer pessoa.”
O diretor da Unicred União também credita ao sentimento de pertencimento parte da mudança de postura observada entre cooperados mais engajados. Quando a pessoa entende que também é dona do negócio, o senso de responsabilidade impulsiona a visão de longo prazo.
O contraponto é a cultura do imediatismo, amplificada por aplicativos, parcelamentos instantâneos e ofertas de crédito a um clique de distância. Cabe às próprias cooperativas funcionar como contrapeso a esse ritmo. “Vivemos cercados por mensagens dizendo para consumir agora, resolver tudo rapidamente e pensar pouco no amanhã. A cooperativa precisa ser um espaço que convida as pessoas a desacelerar esse pensamento e enxergar as consequências das escolhas.”
DA ABSTRAÇÃO À PRÁTICA
Se o comportamento é o primeiro desafio, o segundo é técnico, transformar previdência, tema historicamente distante e abstrato, em algo que faça sentido para as decisões do cooperado hoje. Para Denise Maidanchen, CEO na Quanta Previdência, o erro comum é vender como promessa e não como ferramenta. “Precisamos mostrar que a previdência gera valor hoje, e não apenas no futuro.”
No modelo fechado, sem fins lucrativos, esse pacote ganha reforço porque todo ganho de eficiência retorna ao próprio participante, e não a acionistas. “Quando o cooperado percebe que a previdência protege sua família, melhora seu planejamento tributário e faz seu patrimônio trabalhar de forma mais eficiente desde já, ela deixa de ser uma decisão para o futuro e passa a ser uma ferramenta inteligente para o presente.”
O peso do tempo é outro argumento recorrente. Denise aposta no efeito multiplicador dos juros compostos como o principal ativo de quem começa cedo. “Quanto antes se começa, menor é o esforço necessário para alcançar grandes objetivos.”
DISCIPLINA EM TEMPOS INCERTOS
O ambiente macroeconômico brasileiro, de juros elevados e histórico de instabilidade, costuma ser citado como argumento contra o planejamento de longo prazo. Denise defende o oposto, é nos períodos turbulentos que a estrutura de longo prazo se torna mais valiosa do que a tentativa de acertar o timing do mercado.
Essa estrutura se apoia em contas individuais, com transparência sobre a evolução do patrimônio de cada participante, além de governança e fiscalização permanentes. O momento atual de juros no país, segundo Denise, favorece quem mantém constância.”Quem mantém disciplina e constância tende a transformar a volatilidade de curto prazo em oportunidade de acumulação.”

Os números do setor sustentam o argumento. As entidades fechadas de previdência complementar, segundo o Ministério da Previdência, encerraram o primeiro trimestre de 2025 com R$ 1,34 trilhão em ativos, cerca de 11% do PIB, e acumularam rentabilidade de 163,3% entre 2016 e março daquele ano, superando o segmento aberto no período. “As entidades fechadas de previdência complementar administram hoje cerca de R$ 1,37 trilhão em ativos, o que demonstra a solidez e a relevância desse modelo para a poupança de longo prazo do país”, complementa a CEO.
Esse volume de recursos também interessa ao próprio Estado, pressionado pelo envelhecimento populacional e pela conta crescente da previdência pública, o que tende a manter o ambiente regulatório favorável à expansão do modelo fechado.
UM PAÍS, MUITAS REALIDADES
O Brasil que caminha para uma população mais velha também é um país de desigualdades profundas, o que obriga cooperativas e entidades de previdência a abandonar qualquer receita única.”Um jovem que está começando a carreira tem necessidades diferentes de quem está formando patrimônio ou de quem já pensa na aposentadoria […]. As cooperativas têm uma vantagem enorme porque conhecem seus cooperados de perto, algo que nenhuma outra instituição financeira consegue”, reforça Marcelo.
Denise traduz essa diversidade em números da própria carteira. A Quanta atende cooperados com renda mensal superior a R$ 20 mil ou R$ 50 mil, focados em eficiência tributária e planejamento sucessório, e também administra o Prevcoop, voltado a cooperados do Sistema Ailos com renda média inferior a R$ 4 mil por mês. Para o público de menor renda, a eficiência de custo pesa ainda mais, porque a margem para absorver imprevistos é menor. “No Prevcoop, por exemplo, a taxa é de apenas 0,25% ao ano, permitindo que muito mais do resultado dos investimentos permaneça com o participante.”
DA APOSENTADORIA AOS PROJETOS DE VIDA
Outra ideia que tem se fortalecido é a de que fomentar uma nova visão sobre o é a previdência de faot. Denise descreve essa transição como a fronteira de inovação do setor nos próximos anos. “A principal evolução é deixar de enxergar a previdência como um produto para a aposentadoria e passar a tratá-la como uma plataforma para financiar projetos de vida.” Denise Maidanchen, Quanta Previdência
Reserva para educação dos filhos, transição de carreira, período sabático, empreendedorismo, complemento de renda em fases específicas, todos esses objetivos, segundo ela, já podem conviver dentro de um mesmo plano, combinados com coberturas de proteção para morte e invalidez. A régua de sucesso também muda.
No fim, o objetivo declarado por Denise não é o volume acumulado, mas o que esse volume permite fazer. “O maior objetivo da previdência é transformar patrimônio em liberdade de escolha.”
O PRÓXIMO CAPÍTULO
O momento também é de movimento dentro do próprio setor. Martins revela que já trabalha, ao lado de Denise, num projeto que aborda justamente essa complexidade e propõe que, para viver melhor nesse mundo intergeracional, duas forças precisam caminhar juntas. “Uma é a previdência, que oferece segurança financeira para todas as etapas da vida e para uma vida mais longa. A outra é a cooperação, que fortalece as relações entre as pessoas e cria redes de apoio, confiança e desenvolvimento coletivo.”
A base social que sustenta essa aposta já é grande e segue crescendo. Segundo o Banco Central, o cooperativismo de crédito fechou 2025 com 21,2 milhões de cooperados, alta de 10,4% em um ano, e ativos totais que superaram pela primeira vez a marca de R$ 1 trilhão. Há quatro anos, a base era de 13,6 milhões de pessoas, um crescimento acumulado de 56% no período.
É sobre essa massa crítica, cada vez mais numerosa e mais velha, que o setor agora tenta construir um novo tipo de conversa, mais preparada para uma vida que, em média, já dura quase oito décadas.

Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop
Matéria exclusiva publicada na edição 133 da Revista MundoCoop












