O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) anunciou, na quarta-feira (15/7), o encerramento da investigação sobre práticas comerciais brasileiras consideradas injustas pelo governo americano e a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma série de produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos.
A decisão, chancelada pelo presidente americano, Donald Trump, entrará em vigor em 22 de julho. Em resposta, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou que recorrerá aos instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica.
A medida encerra a investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, aberta em julho de 2025. O processo concluiu que práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, aos pagamentos eletrônicos, como o Pix, às tarifas preferenciais concedidas a outros países, ao combate à corrupção, à propriedade intelectual, ao acesso ao mercado de etanol e ao desmatamento seriam “irrazoáveis ou discriminatórias” para o comércio americano.
Com a nova sobretaxa, o Brasil passa a figurar entre os países submetidos às condições mais restritivas para acessar o mercado dos Estados Unidos. Segundo a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), mais de US$ 11 bilhões em exportações industriais e do agronegócio serão diretamente atingidos.
O anúncio também foi repercutido pela imprensa internacional como um sinal de aprofundamento da deterioração das relações entre os dois países em um período anterior às eleições brasileiras, ampliando os riscos políticos e comerciais envolvidos na disputa.
Segundo o representante comercial americano, Jamieson Greer, a medida busca proteger os interesses econômicos dos Estados Unidos e enfrentar práticas que o governo considera desleais, garantindo condições mais equilibradas para trabalhadores e empresas americanas.
Greer afirmou ainda que as negociações realizadas entre os dois países ao longo do último ano não foram suficientes para solucionar as divergências. Apesar da adoção das tarifas, Washington declarou que permanece aberto a novas conversas com o governo brasileiro.
Principais produtos atingidos
Entre os produtos que permanecerão sujeitos à tarifa adicional de 25% estão etanol, máquinas agrícolas e de construção, calçados, vestuário — com exceção de roupas usadas —, açúcar orgânico, papel, componentes de borracha para veículos e equipamentos elétricos.
A celulose de alta pureza chegou a constar em uma versão preliminar da lista de produtos isentos, mas foi retirada após acusações de que fabricantes brasileiros do insumo teriam se beneficiado de práticas relacionadas ao desmatamento ilegal.
Apesar do impacto sobre determinados segmentos, o USTR estabeleceu uma lista extensa de exceções. Ficarão de fora da sobretaxa produtos centrais da pauta exportadora brasileira, entre eles carne, café, laranja, suco de laranja e componentes destinados à fabricação de aeronaves.
Também foram isentos minérios, fertilizantes, couros, madeiras tropicais, frutos do mar, insumos farmacêuticos, antiguidades e obras de arte. Após audiências realizadas antes da conclusão da investigação, produtos como ferro-gusa, café solúvel sem sabor, mel orgânico e hidróxido de alumínio também foram incluídos entre as exceções.
A disputa comercial, no entanto, ainda pode ter novos desdobramentos. O USTR conduz paralelamente uma investigação sobre trabalho forçado envolvendo quase 90 países, incluindo o Brasil. A proposta preliminar prevê uma tarifa adicional de 12,5%, que, caso seja confirmada e aplicada aos mesmos produtos, poderia elevar a sobretaxa total para até 37,5%.
O segundo processo permanece em tramitação e ainda não possui uma decisão definitiva.
Brasil avalia medidas de reciprocidade
O contexto político das negociações também ganhou relevância. Lula e Trump se reuniram em maio, ocasião em que o presidente brasileiro propôs a criação de um grupo de trabalho bilateral para discutir, durante um mês, os temas investigados pelo governo americano.
A conclusão da investigação, porém, foi anunciada antes do encerramento desse prazo. Diante da decisão, o governo brasileiro informou que avaliará a aplicação da Lei da Reciprocidade, que permite a adoção de contramedidas diante de ações unilaterais de outros países que prejudiquem a competitividade internacional brasileira.
Caso o novo tarifaço seja mantido, o Brasil estará entre os países que registraram os maiores aumentos de alíquotas americanas desde o retorno de Trump à Presidência dos Estados Unidos.
A possibilidade de retaliação, contudo, ainda é considerada incerta. Analistas avaliam que o governo brasileiro deverá ponderar os efeitos econômicos e políticos de uma resposta antes das eleições de 2026, ao mesmo tempo em que poderá explorar o episódio como parte do discurso de defesa da soberania nacional.
Impacto econômico tende a ser limitado
Apesar da dimensão política da decisão, a avaliação inicial de economistas e agentes do mercado é de que os efeitos sobre a economia brasileira deverão ser restritos. Isso ocorre porque a lista de exceções preservou alguns dos principais produtos vendidos pelo Brasil aos Estados Unidos, especialmente carne, café e suco de laranja.
Na avaliação da economista Monica De Bolle, o impacto da nova tarifa deve ser limitado e também evidencia as restrições da política protecionista americana.
Felipe Sant’Anna, da Axia Investing, considera que a sobretaxa atingirá uma parcela relativamente pequena do total exportado pelo Brasil para o mercado americano, uma vez que algumas das maiores commodities brasileiras foram retiradas da lista de produtos tarifados.
A reação inicial dos mercados também foi moderada. As cotas do Exchange Traded Fund EWZ iShares MSCI Brazil, que acompanha o desempenho de ações brasileiras negociadas em Nova York, registraram leve retração de 0,3% no pré-mercado, sem indicar um movimento mais amplo de aversão ao risco.
Para Étore Sanchez, da Ativa Investimentos, o efeito líquido sobre a macroeconomia brasileira deverá ser pequeno. Produtos como roupas, calçados e etanol, embora diretamente atingidos, possuem participação relativamente limitada no total das exportações nacionais, reduzindo os possíveis efeitos sobre o Produto Interno Bruto.
Os impactos sobre a inflação também podem ocorrer em direções opostas. A redução das exportações pode ampliar a oferta de determinados produtos no mercado brasileiro, exercendo pressão para baixo sobre os preços. Por outro lado, uma eventual piora da balança comercial pode pressionar a taxa de câmbio e aumentar os custos de produtos e insumos importados.
Comércio bilateral já apresenta retração
Embora os efeitos sobre a economia como um todo possam ser limitados, a Amcham Brasil avalia que a medida tende a aprofundar a retração do comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos, que já acumula queda de 13% em 2026.
A entidade também alerta que as tarifas podem reduzir a participação americana no comércio exterior brasileiro ao menor patamar histórico. O movimento ocorre mesmo após os Estados Unidos terem registrado superávit comercial de US$ 41,8 bilhões nas relações com o Brasil em 2025.
A combinação entre as tarifas, a possibilidade de medidas de reciprocidade e as investigações ainda em curso amplia as incertezas para empresas que dependem do mercado americano. Ao mesmo tempo, a quantidade de produtos isentos reduz o alcance econômico imediato da decisão, concentrando os efeitos em setores específicos da indústria e do agronegócio.
Fonte: BBC e Forbes com adaptações da MundoCoop












