El Niño preocupa agricultura do Sul do Brasil com risco de chuvas excessivas na primavera

Fenômeno será intenso e vai afetar clima no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná

O aquecimento das águas do Oceano Pacífico, associado à formação do El Niño, ligou o sinal de alerta no campo. Produtores do Sul do Brasil acompanham com preocupação os indicativos climáticos, temendo impactos diretos sobre as culturas de inverno.

A condição no momento é de neutralidade após o fim do La Niña, mas, segundo a atualização mais recente da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), divulgada em 4 de maio, a probabilidade de desenvolvimento do fenômeno é de 62% entre maio e julho. Para o período de junho até agosto, o percentual sobe para 79%.

Celso Luis de Oliveira Filho, meteorologista da Tempo OK, explica à Globo Rural que o aquecimento das águas do Pacífico está bem acentuado, o que não descarta a confirmação do El Niño ainda neste mês.

Outro ponto de atenção envolve a intensidade. Os modelos meteorológicos indicam um padrão clássico e forte do fenômeno sobre o clima e, consequentemente, em setores importantes da economia nacional, como o agronegócio, que cresceu 11,7% em 2025 e liderou o avanço do Produto Interno Bruto (PIB).

“Embora não haja uma relação direta e linear, o fato de o El Niño atingir essa intensidade aumenta a probabilidade de que o padrão mais clássico dele apareça, ou seja, que os volumes de chuva fiquem acima da média no Sul, especialmente, nos meses da próxima primavera (setembro, outubro e novembro)”.

O que o El Niño pode causar no Sul do Brasil?

O principal efeito esperado após a confirmação do fenômeno é a intensificação das chuvas. A diferença, segundo Celso Filho, estará no volume para cada Estado e na variabilidade climática ao longo dos meses.

“Em junho, por exemplo, espera-se chuvas acima da média entre Santa Catarina e Paraná e de média a abaixo no Rio Grande do Sul. Já em julho, as anomalias positivas de precipitação nos três diminuem um pouco, porque parte da umidade pode se espalhar no Mato Grosso do Sul e em parte do Sudeste”.

Para agosto, a condição muda novamente, com volumes maiores previstos apenas para o Rio Grande do Sul, enquanto os demais tendem a registrar um padrão mais seco e quente. Em setembro, a chuva volta a se distribuir de forma uniforme pela região.

Como o El Ninõ vai afetar o agro?

O aumento dos volumes de chuva, sobretudo na primavera, preocupa os agricultores porque coincide com o período de colheita de diversas culturas.

Em anos anteriores, levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostraram que eventos associados ao El Niño provocaram reduções significativas na produtividade do trigo, por exemplo.

O cereal não é o único prejudicado. Outros produtos agrícolas também sofrem impactos semelhantes, como aveia e azevém, duas culturas que não toleram excesso de umidade. E, segundo o meteorologista, a quantidade de chuva prevista é elevada.

“O impacto pode ser mais crítico possivelmente para o fim do ciclo de desenvolvimento, entre a maturação e colheita, período em que há previsão de mais chuva”, alerta.

Mais uma consequência da alta umidade é o desenvolvimento de doenças, como a giberela, comum em plantações de trigo, mas que também atinge cevada, aveia e centeio. Conforme a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), duas condições climáticas a favorecem: precipitação pluvial por, no mínimo, 48h consecutivas e temperaturas entre 20°C e 25°C.

“Para piorar, um eventual solo encharcado dificulta a movimentação de máquinas para o controle fitossanitário e aumenta o risco de podridão das raízes”, finaliza.

Atenção das autoridades

Em Santa Catarina, a Defesa Civil e a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Epagri) estão em alerta para os riscos que o El Niño pode causar e desenvolvem, em conjunto, um plano de prevenção.

Para o setor agropecuário, a ação envolve a criação de materiais informativos sobre o fenômeno e os impactos na pecuária e nas culturas agrícolas.

Segundo a Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil de Santa Catarina (SDC), os episódios mais marcantes do fenômeno climático no Estado ocorreram em 1982/1983, 1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024.

No último período citado – 2023/2024 –, a agricultura do Rio Grande do Sul também foi amplamente afetada. Mais de 200 mil propriedades rurais tiveram destruição ou perdas de lavouras nas enchentes que aconteceram entre abril e maio de 2024, de acordo com a Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão.

Além disso, os prejuízos incluíram redução da qualidade dos alimentos, dificuldades no manejo de máquinas para colheita, danos à infraestrutura e restrições logísticas no recebimento de insumos e escoamento da produção.

“Ressalta-se, contudo, que, embora o El Niño contribua para a intensificação das precipitações, ele não é, isoladamente, o único responsável pela ocorrência de eventos extremos. Tais eventos, em geral, resultam da atuação combinada de diferentes fenômenos de escala climática”, destaca a Defesa Civil catarinense.


Fonte: Globo Rural com adaptações da MundoCoop

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