Eficiência em foco: cooperativas de crédito desafiam desempenho de bancos tradicionais

Evidências indicam maior resiliência das cooperativas em crises e reacendem o debate sobre o papel de cada modelo

A eficiência das cooperativas de crédito frente aos bancos tradicionais tem ganhado espaço no debate econômico brasileiro, especialmente diante do avanço dessas instituições e de seu papel na ampliação do acesso financeiro. Um estudo apresentado no 8º Encontro Brasileiro de Pesquisadores em Cooperativismo (EBPC) traz novas evidências sobre o tema, indicando que o desempenho das cooperativas pode ser comparável, e em alguns casos superior, ao de bancos privados, sobretudo na oferta de crédito.

A análise parte de uma pergunta central: quem consegue transformar melhor sua estrutura de custos em operações de crédito? Como aponta Loredany Rodrigues, Professora do Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada do Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa – MG e coautora do estudo, a metodologia considera despesas operacionais e financeiras como insumos e avalia o volume de crédito gerado, permitindo uma comparação mais equilibrada entre modelos distintos.

“Esse critério é relevante porque cooperativas, bancos públicos e bancos privados têm tamanhos, missões e modelos de negócio diferentes. Ao comparar um aspecto comum a todas, que é a capacidade de operar crédito, a análise fica mais justa”, sinaliza.

Eficiência e desempenho ao longo do tempo

Com base em dados do Banco Central entre 2000 e 2022, o estudo composto por mais de 24 mil observações (88,5% desse número, em cooperativas singulares), revela mudanças relevantes na dinâmica do sistema financeiro. De acordo com Mateus Neves, Professor do Bacharelado em Cooperativismo e do Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada do Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa – MG, “até 2008, as cooperativas de crédito apareciam, em média, como o grupo mais eficiente na oferta de crédito. A partir da crise financeira internacional, os bancos públicos passaram a se destacar mais”, destaca.

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“As cooperativas podem não ter a escala dos grandes bancos, mas conseguem competir porque combinam relacionamento, capilaridade e alinhamento de incentivos” – MATEUS NEVES, PROFESSOR DO BACHARELADO EM COOPERATIVISMO E DO PPG EM ECONOMIA APLICADA DO DEPARTAMENTO RURAL DA UFV,

Ainda assim, o comportamento das cooperativas chama atenção pela consistência ao longo dos ciclos econômicos. Enquanto bancos privados tendem a adotar uma postura mais restritiva em cenários de incerteza, as cooperativas mantêm maior estabilidade na concessão.

O estudo destaca que a série histórica sugere exatamente esse cenário, apontando que as cooperativas mantiveram consistência e resiliência na oferta de crédito a seus cooperados, apesar do “vai e vem” do cenário econômico mundial. “No caso das cooperativas, o estudo ajuda a revelar algo muito forte: elas não dependem apenas de um cenário estável para performar bem. Em seu cerne, elas possuem robustez estrutural e também capacidade de adaptação em momentos adversos”, destaca Loredany.

“No caso das cooperativas, o estudo mostra que elas não dependem apenas de cenários estáveis para performar bem, pois combinam robustez estrutural com capacidade de adaptação em momentos adversos” – LOREDANY RODRIGUES, PROFESSORA DO PPG EM ECONOMIA APLICADA DO DEPARTAMENTO RURAL DA UFV

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Impacto, inclusão financeira e vantagem competitiva

Parte do desempenho observado no levantamento, está diretamente ligada às características do modelo. A proximidade com o cooperado, o conhecimento do território e a lógica de geração de valor para os associados aparecem como fatores determinantes. “As cooperativas podem não ter a escala dos grandes bancos, mas conseguem competir porque combinam relacionamento, capilaridade e alinhamento de incentivos”, destaca Mateus Neves.

Na prática, essa dinâmica também se reflete na gestão das instituições. No Sistema Ailos, por exemplo, a conexão com a base de cooperados é apontada como elemento central para a estabilidade. “Essa conexão direta com quem produz nossa movimentação financeira nos dá uma visão real da economia local e permite decisões prudentes, sustentáveis e seguras”, afirma Eduardo Ferrari, Presidente da Ailos Cooperativa Únilos.

Além disso, a proximidade contribui para a redução de riscos, já que, ao conhecer de perto a realidade de cada cooperado, é possível reduzir assimetrias de informação e, com isso, construir uma carteira de crédito mais estável e sustentável.

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“As cooperativas continuarão eficientes e resilientes ao combinar tecnologia com o princípio do relacionamento próximo” – EDUARDO FERRARI, PRESIDENTE DA AILOS COOPERATIVA ÚNILOS

“O Sistema Ailos equilibra prudência financeira e apoio aos cooperados mantendo análises rigorosas de risco, mas sem abrir mão do nosso compromisso com a comunidade. Em crises, ajustamos prazos, ofertas e condições para garantir que o cooperado continue tendo acesso ao crédito de forma responsável. Esse equilíbrio é possível porque conhecemos de perto a realidade dos cooperados e atuamos com gestão sólida, sempre priorizando soluções que preservem tanto a saúde financeira do sistema quanto o desenvolvimento de cada associado”, detalha Ferrari.

Outro ponto relevante é o papel das cooperativas na inclusão financeira e no desenvolvimento regional. Entre 2017 e 2022, o número de cooperativas aumentou 77,43%, chegando a uma presença em 5.542 dos 5.570 municípios do país. No mesmo período, o número de cooperados também cresceu mais de 76%, segundo dados do BACEN. Em mais de 400 municípios, essas instituições são a principal ou única alternativa de acesso ao crédito, o que amplia sua importância além dos indicadores tradicionais de eficiência. Hoje, o setor já lidera em número de agências em três estados: Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso.

Segundo os autores do artigo, um sistema financeiro mais diverso tende a ser também mais robusto, já que diferentes instituições respondem de maneiras distintas aos ciclos econômicos. “O desenvolvimento do sistema financeiro depende menos de uma disputa aberta entre modelos e mais da complementaridade entre eles. Bancos públicos, bancos privados e cooperativas de crédito não cumprem exatamente o mesmo papel, por mais que ofereçam muitos serviços semelhantes”, destaca Mateus.

Nesse contexto, cooperativas contribuem tanto em momentos de estabilidade quanto em períodos de crise, sustentando a oferta de crédito e apoiando economias locais. “Essas instituições não respondem da mesma forma aos ciclos econômicos. O nosso estudo mostra isso: instituições distintas contribuem em momentos distintos e por mecanismos distintos para a eficiência e a estabilidade do sistema. Um sistema financeiro mais diverso tende a ser também mais robusto”, complementa.

Limites e desafios do crescimento

Apesar dos avanços, o estudo também indica limites importantes. Questões como escala, investimento em tecnologia e competição com bancos digitais ainda representam desafios para o setor. A necessidade de manter a governança sólida em meio ao crescimento também aparece como ponto de atenção.

Nas cooperativas, a intercooperação surge como uma importante ferramenta para esse cenário, capaz de ampliar a resiliência do setor. “A intercooperação amplia escala e padronização, garantindo operações mais seguras e consistentes do que modelos tradicionais. Essa combinação sustenta nossa previsibilidade e resiliência ao longo dos ciclos econômicos”, aponta Ferrari,

Ainda assim, o modelo tem demonstrado forte capacidade de adaptação, especialmente em um cenário de acelerada transformação digital, no qual as instituições precisam se atualizar continuamente. No caso das cooperativas, a combinação entre inovação tecnológica e o seu “modo de fazer”, tende a definir os próximos passos de crescimento e competitividade do setor.

“As cooperativas continuarão eficientes e resilientes ao combinar tecnologia com o princípio do relacionamento próximo. A digitalização traz agilidade e competitividade, enquanto o vínculo com o cooperado garante conhecimento real da base e decisões mais assertivas”, completa Ferrari.

A discussão sobre eficiência não aponta para uma substituição entre modelos, mas para complementaridade. Como resume o estudo, o fortalecimento do sistema financeiro brasileiro passa pela convivência entre diferentes instituições, cada uma contribuindo com suas características para ampliar o acesso, a estabilidade e a competitividade no crédito.


Por Leonardo César, Redação MundoCoop

DESTAQUE ED. 129

Matéria exclusiva publicada na edição 129 da Revista MundoCoop

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