Autonomia econômica e deficiência: os desafios da inclusão financeira no cooperativismo brasileiro – Michele Catarine é jornalista com experiência em comunicação institucional

Como a exclusão do crédito limita a autonomia das pessoas com deficiência e aponta o cooperativismo como caminho para inclusão econômica no Brasil

A autonomia econômica é um pilar da cidadania, mas, no Brasil, ainda é um direito frequentemente negado. Dados da PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2024, indicam que o país possui cerca de 18,6 milhões de pessoas com deficiência, das quais apenas 26,6% estão inseridas no mercado de trabalho. O dado evidencia uma exclusão estrutural persistente, sustentada por um modelo biomédico que reduz a pessoa à sua condição clínica e ignora o conceito estabelecido pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que compreende a deficiência como resultado da interação entre impedimentos e barreiras de uma sociedade capacitista.

Essa exclusão se manifesta de forma crítica no acesso ao crédito. No sistema financeiro tradicional, critérios de risco padronizados marginalizam quem não se enquadra em parâmetros convencionais de produtividade, criando um ciclo em que a falta de crédito restringe a geração de renda. O desafio se intensifica com as transformações demográficas. O envelhecimento da população amplia a sobreposição entre capacitismo e idadismo, aprofundando a invisibilidade econômica de pessoas que envelhecem com deficiência ou adquirem impedimentos ao longo da vida.

Embora o cooperativismo de crédito se apresente como uma alternativa baseada na solidariedade, na participação e no desenvolvimento local, a presença de pessoas com deficiência nesse sistema ainda carece de protagonismo efetivo. Estudos da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) indicam que, apesar de avanços institucionais, a ocupação de cargos de liderança permanece limitada. Superar esse cenário exige que as cooperativas reconheçam a pessoa com deficiência como agente econômico ativo, indo além de ações pontuais e rompendo com práticas assistencialistas.

Na prática, experiências como a da Cooperativa Social de Trabalho de Pessoas com Deficiência e Familiares (COEPAD), fundada em 1999 em Florianópolis (SC) e considerada a primeira cooperativa social do Brasil nos moldes da Lei nº 9.867/1999, evidenciam como o cooperativismo pode se consolidar como estratégia concreta de inclusão econômica. Voltada principalmente a pessoas com deficiência intelectual e seus familiares, a cooperativa atua no mercado por meio da produção de papel artesanal, itens de papelaria e serviços de coffee break, estruturando um ambiente produtivo acessível e colaborativo.

Nesse modelo, os participantes não são tratados como beneficiários passivos, mas como cooperados. Isso significa que participam das assembleias, votam nas decisões e compartilham os resultados da produção. A organização do trabalho considera as habilidades de cada pessoa, promovendo geração de renda, desenvolvimento de competências e fortalecimento da autonomia.

Ao combinar atividade produtiva, gestão coletiva e espaços de formação que estimulam a criatividade, a coordenação e a socialização, a experiência demonstra que a inclusão econômica se torna efetiva quando o foco deixa de ser assistencialista e passa a reconhecer o trabalho como ferramenta de emancipação. Experiências como essa mostram que a inclusão econômica não é uma abstração, mas uma construção possível quando há estrutura, participação e reconhecimento de capacidades.

Para que esse impacto se amplie, é fundamental tratar o crédito como ferramenta de equidade. Isso significa reconhecer que pessoas com deficiência enfrentam custos adicionais decorrentes de barreiras sociais, como tecnologias assistivas e mobilidade, e que políticas e soluções financeiras precisam considerar essas especificidades para garantir condições reais de participação.

O diferencial do modelo cooperativista reside na copropriedade. Nele, a pessoa com deficiência pode ser não apenas cliente, mas também integrante do processo decisório, com direito à voz e ao voto. Potencializar essa característica é um passo essencial para que o setor avance na promoção da inclusão econômica e no fortalecimento da justiça social.

Inclusão financeira não é apenas sobre acesso a serviços. É sobre garantir que cada pessoa com deficiência tenha condições reais de decidir sobre a própria trajetória, com autonomia, dignidade e pertencimento.


Michele Catarine Machado é Jornalista com experiência em comunicação institucional, política, mídias sociais e produção de conteúdos acessíveis e inclusivos

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