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Cooperativas ampliam papel no financiamento do agro com avanço do crédito privado

Cooperativas avaliam que o Estado perdeu capacidade de financiar o agro, forçando o avanço do crédito privado no campo.

Mundo Coop POR Mundo Coop
21 de março de 2026
AGRONEGÓCIO
Cooperativas ampliam papel no financiamento do agro com avanço do crédito privado

Cooperativas ampliam papel no financiamento do agro com avanço do crédito privado

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As prioridades dos governos no Brasil colocam em xeque a capacidade do setor público de sustentar o financiamento da agropecuária. A avaliação das cooperativas brasileiras é de que o modelo passa por uma mudança estrutural, com maior participação do mercado de capitais e instrumentos privados, enquanto o crédito público perde peso relativo.

A leitura do setor é que o Plano Safra segue relevante como referência de taxas e diretrizes, mas deixou de ser o principal motor de financiamento da produção.

“Nós vamos ter dificuldade. A capacidade dos governos de arrumar crédito para a agricultura brasileira está cada vez mais diminuída. E não é só incompetência, é impotência. Os governos têm outras prioridades”, afirmou o presidente do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), Márcio Lopes de Freitas, ao CNN Agro durante apresentação da agenda do setor nesta terça-feira (17).

Segundo ele, hoje, enquanto o Tesouro Nacional destina cerca de R$ 13 bilhões para equalizar juros, a agropecuária brasileira movimenta algo próximo de R$ 2 trilhões — diferença que tem sido suprida por operações privadas, como barter, crédito de fornecedores e emissões no mercado financeiro.

Freitas pontua que o avanço desse modelo depende de condições básicas, como segurança jurídica e instrumentos de mitigação de risco.

“As maiores cooperativas já operam na B3, emitindo títulos, inclusive internacionais. Essa é a tendência. O que nós precisamos é garantir segurança jurídica e um bom seguro. Se a cooperativa é bem gerida, sempre há interesse em investir no agro brasileiro”, frisou.

Esse movimento já vem sendo observado dentro do próprio governo e no mercado.

Dados do Ministério da Agricultura mostram que o estoque de instrumentos privados — como CPR (Cédula de Produto Rural), LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) e CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) — já supera R$ 1,4 trilhão no país, ampliando de forma consistente a participação do mercado de capitais no financiamento da produção.

Na avaliação de técnicos e integrantes da Esplanada, a diversificação das fontes de recursos deixou de ser apenas uma tendência e passou a ser uma necessidade diante das limitações fiscais e do custo crescente do crédito público.

Renda menor e produtores pressionados

Essa mudança ocorre em um momento de perda de renda e maior fragilidade financeira no campo.

Freitas aponta que a combinação de queda nos preços das commodities com custos ainda elevados reduziu a margem da atividade, especialmente para produtores com menor escala e mais expostos a choques recentes, como a guerra no Oriente Médio e os preços mais baixos no mercado internacional.

“Hoje a perda de renda do setor agrícola é muito grande. Nós vendíamos soja dois anos atrás a R$ 200, hoje está a R$ 110. Com custo subindo, com guerra, com insumo e diesel mais caros, o produtor fica pressionado”, afirmou o presidente da OCB.

Segundo ele, esse cenário já se traduz em aumento do endividamento e necessidade de ajustes, com impacto mais forte entre os produtores menores, que passam a demandar maior suporte das cooperativas.

“Os menos eficientes estão com problema, e essa parcela não é pequena. Vamos ter que alongar, vamos ter que dar prazo, dá para renegociar e dar fôlego até que eles se ajustem. Tem produtor que já vem descapitalizado por problemas climáticos e entra agora numa fase de preço ruim, o que agrava a situação”, disse.

Dependência de insumos expõe vulnerabilidade

Nesse contexto, a dependência de produtos importados para alimentar as cadeias produtivas ganha peso como risco estrutural para o agro brasileiro.

A presidente executiva da OCB, Tânia Zanella, destacou que esse cenário expõe fragilidades do setor que precisam ser enfrentadas com políticas estruturantes.

“Quando há guerra, quando há instabilidade geopolítica, a gente percebe o quanto nós precisamos pensar numa política estruturante aqui no nosso país. O Brasil é muito dependente ainda dessa questão dos insumos fertilizantes de outros países”, afirmou ao CNN Agro.

Segundo ela, o cenário reforça a necessidade de desenvolver alternativas domésticas e diversificar fontes de suprimento.

“É fundamental trazer essa discussão para o Brasil, discutir fontes, iniciativas que sejam mais locais, para que o país possa, quem sabe, ser autossustentável também nessa questão”, disse.

Cooperativas ampliam papel no novo modelo

Com o crédito mais caro e a maior participação do mercado, as cooperativas tendem a ganhar ainda mais relevância como elo entre produtores e financiamento.

Hoje, cerca de 54% da originação da produção passa por cooperativas, que atuam na oferta de crédito, insumos, armazenagem e comercialização.

Nesse ambiente, a tendência é de fortalecimento do cooperativismo como canal de acesso a recursos e organização da produção.

“As cooperativas têm uma participação muito grande dentro do setor produtivo agropecuário. Hoje, 54% da originação vem de cooperativa. A gente tem uma crescente também das nossas agroindústrias”, afirmou Zanella.

Agenda mira seguro, crédito e redução de riscos

Diante desse diagnóstico, o setor apresentou sua agenda institucional para 2026 com foco em instrumentos que reduzam riscos e ampliem a previsibilidade.

O seguro agrícola aparece como uma das principais prioridades, em meio ao aumento do endividamento e da volatilidade.

“O seguro agrícola é uma falta fundamental, não só para os nossos cooperados, mas para todo o agronegócio brasileiro. O projeto que está hoje na Câmara pode mudar consideravelmente o panorama de endividamento do setor”, afirmou Zanella.

A agenda também inclui a manutenção e ampliação do crédito rural, o estímulo a instrumentos privados de financiamento, políticas para reduzir a dependência de fertilizantes e investimentos em logística e armazenagem.


Fonte: Poral Região News com adaptações da MundoCoop

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