A expansão da geração distribuída tem reposicionado o setor elétrico brasileiro ao incorporar modelos mais descentralizados, sustentáveis e orientados à previsibilidade de custos. Nesse movimento, o cooperativismo ganha relevância ao estruturar soluções coletivas que ampliam o acesso à energia e reorganizam a relação de consumo.
Os números ajudam a dimensionar esse avanço setorial. Dados apresentados no Anuário do Cooperativismo 2025 indicam que 906 cooperativas já atuam com geração distribuída no Brasil, envolvendo cerca de 8,37 milhões de cooperados. A potência instalada chegou a 550,4 MW, crescimento de 125%, e a geração por fontes renováveis evitou a emissão de aproximadamente 1 milhão de toneladas de CO₂ em 2024. No ambiente de contratação livre, cooperativas registraram economia média de 20% nas tarifas.
A COGECOM, cooperativa fundada em 2017, é um dos destaques desse cenário. Com 432 MW em contratos e presença em oito estados, consolidou-se como a maior marca de geração distribuída do país. O desempenho reflete um modelo baseado no compartilhamento de créditos energéticos, que permite ao consumidor participar da geração sem necessidade de investimento próprio em infraestrutura.
A seguir, em entrevista exclusiva à MundoCoop, Lissandra Busnardo Prestes, representante comercial da COGECOM, analisa os fatores que impulsionam o crescimento da geração distribuída, os desafios operacionais do segmento e as perspectivas de expansão do modelo cooperativo no mercado energético.
Confira!
MundoCoop: A geração distribuída tem avançado no Brasil nos últimos anos. Na sua avaliação, quais fatores têm sustentado esse crescimento e qual é o papel das cooperativas nesse processo?
Lissandra Busnardo: O crescimento da geração distribuída no Brasil reflete uma mudança de comportamento clara. Hoje, pessoas e empresas querem mais eficiência, previsibilidade e soluções energéticas sustentáveis. Além disso, a tecnologia avançou e os modelos compartilhados facilitaram o acesso a esse tipo de energia.
As cooperativas têm um papel central nisso. Na COGECOM, usamos o excedente de energia de nossas usinas parceiras e transformamos em créditos para os cooperados. Assim, mesmo quem não tem sistema próprio consegue participar da geração de energia e reduzir a fatura. É um jeito de ampliar o alcance de forma justa e coletiva.
MC: No caso das cooperativas, a geração distribuída assume uma lógica diferente de organização do consumo e da produção de energia. Quais elementos desse modelo têm contribuído para ampliar o acesso a esse tipo de solução?
LB: O grande diferencial é o compartilhamento. Quando os consumidores se unem em uma cooperativa, é possível dividir custos, ganhar escala e tornar a energia renovável acessível para todos.
Na COGECOM, a energia excedente das usinas gera créditos que vão para os cooperados. Assim, quem não tem espaço ou recursos para instalar um sistema próprio também participa, economiza na conta e colabora com um modelo mais sustentável.
MC: Na prática, o que tem motivado consumidores e empresas a buscar modelos compartilhados de energia? Existe hoje uma mudança de mentalidade em relação ao consumo energético?
LB: Sim, há uma mudança grande. Hoje, consumidores e empresas estão mais conscientes sobre custos e eficiência. As empresas, especialmente, querem previsibilidade e soluções que tragam resultados consistentes.
Os modelos compartilhados atendem bem a essa demanda. Na COGECOM, os cooperados reduzem suas faturas enquanto participam de um sistema colaborativo, moderno e sustentável. É uma forma de economizar e, ao mesmo tempo, fazer parte da transformação do setor energético.
MC: Mesmo com o crescimento do setor, a geração distribuída ainda enfrenta entraves estruturais. Quais são hoje os principais desafios para consolidar esse mercado no Brasil?
LB: Apesar do crescimento rápido, há desafios estruturais. Um deles é o tempo que leva para processar e compensar créditos de energia, que pode gerar defasagem entre a geração e o consumo.
Outro desafio é a diferença de tecnologia e digitalização entre distribuidoras. O crescimento foi tão rápido que algumas infraestruturas ainda não acompanharam a expansão da geração distribuída.
MC: A relação com as concessionárias é frequentemente apontada como um ponto sensível nesse processo. O que precisa evoluir para que a expansão da geração distribuída ocorra de forma mais equilibrada dentro do sistema elétrico?
LB: As concessionárias são fundamentais. Toda a operação depende da rede e da compensação de energia. Por isso, é importante que cooperativas, geradores e distribuidoras trabalhem juntos.
Algumas concessionárias já evoluíram bastante, como a COPEL e a CELESC, que acompanham o mercado de perto. Mas, de forma geral, ainda é preciso modernizar tecnologia, automatizar processos e integrar dados para que tudo funcione de maneira mais eficiente.
MC: A geração distribuída costuma ser associada principalmente à redução da conta de luz. Mas que outros impactos esse modelo pode gerar para consumidores e para o próprio sistema energético?
LB: Economizar na conta é só a ponta do iceberg. A geração distribuída também ajuda a diversificar a matriz energética, aumentar o uso de fontes renováveis e reduzir perdas na transmissão de energia.
Além disso, transforma a relação do consumidor com a energia. Ele deixa de ser apenas um usuário passivo e passa a participar ativamente do sistema, colaborando para uma produção e consumo mais consciente e sustentável.
MC: Pensando no médio prazo, quais movimentos serão decisivos para que a geração distribuída alcance um novo patamar de escala no Brasil?
LB: Para crescer ainda mais, é preciso modernizar as distribuidoras, integrar sistemas e amadurecer a regulação do setor. Mas os modelos coletivos, como o cooperativismo, terão papel decisivo.
A COGECOM já está em oito estados, com 432 MW em contratos e consumo aproximado de 70 GWh por mês. Isso mostra que o cooperativismo consegue ampliar o acesso à energia renovável, de forma estruturada, eficiente e inclusiva.
Por João Victor, Redação MundoCoop












