Um levantamento divulgado nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, lança água fria sobre um dos principais argumentos contrários ao fim da escala 6×1. Segundo o estudo, o mercado de trabalho brasileiro teria capacidade de absorver os custos decorrentes de uma eventual mudança na jornada sem abalos significativos.
O aumento total de gastos não ultrapassaria 7% em nenhum setor. Em alguns casos, ficaria abaixo de 1%, especialmente na indústria e no comércio.
A conclusão contrasta com o discurso alarmista que associa a redução da jornada a perdas automáticas de produtividade e retração do PIB. Para o Ipea, os impactos estimados são limitados e comparáveis a reajustes já absorvidos antes pelo mercado de trabalho – como, por exemplo, quando o salário mínimo teve reajustes acima da inflação.
A análise parte de dados da Relação Anual de Informações Sociais, a Rais, de 2023 e simula a adoção de uma jornada de 40 horas semanais, em substituição às atuais 44. O setor de serviços, intensivo em mão de obra, aparece como o mais sensível à mudança. Em atividades de vigilância, por exemplo, o aumento de custos poderia chegar a 6,65%, o maior percentual estimado pelo instituto.
Também estão entre os segmentos mais impactados a seleção, agenciamento e locação de mão de obra (6,3%), correio e entregas (4,3%), serviços de escritório (4,08%), serviços especializados para construção (4,05%) e coleta e tratamento de resíduos (3,53%).
Nas grandes atividades econômicas, especialmente aquelas com mais de 500 mil vínculos formais, os efeitos tendem a ser modestos. No comércio varejista, que reúne quase 7 milhões de vínculos, o aumento estimado é de 1,04%. No atacado, seria ainda menor: 0,41%.
O diagnóstico converge com análise do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, o Cesit, ligado à Universidade Estadual de Campinas. O centro sustenta que o fim da escala 6×1 pode, além de administrável, tornar-se um vetor de dinamização econômica, com potencial para aumentar a produtividade e estimular a criação de novas vagas.
O Cesit também destaca efeitos indiretos da medida: maior consumo em lazer, impulsionado pelo aumento do tempo livre; possível redução de afastamentos por questões de saúde mental; ampliação do tempo disponível para qualificação profissional; e, como consequência, a formação de empregos mais qualificados.
Do outro lado do debate, entidades empresariais mantêm resistência. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) afirmam que a mudança pode provocar repasse de custos, perda de competitividade e até retração de até 7% do PIB. As confederações apontam, sobretudo, um impacto sobre empresas de pequeno e médio porte.
Fonte: Carta Capital












