A economia global entra em 2026 atravessada por um sentimento difuso de incerteza. Não se trata apenas do risco de uma crise clássica, mas de um ambiente marcado por fragmentação geopolítica, menor coordenação internacional e múltiplas pressões simultâneas sobre crescimento, inflação, cadeias produtivas, mercados financeiros e avanços tecnológicos. O resultado é um cenário em que governos, empresas e instituições passam a operar com horizontes mais curtos, maior aversão ao risco e foco crescente em resiliência.
Levantamento recente do Fórum Econômico Mundial (FEM), que ouviu mais de 1.300 especialistas de diferentes regiões e setores, aponta que metade dos respondentes espera um ambiente global turbulento nos próximos dois anos — percentual que sobe para 57% quando considerada a próxima década. A leitura predominante é de que os riscos deixaram de ser eventos isolados e passaram a se sobrepor, criando um sistema global mais vulnerável a choques.
Geoeconomia no centro das tensões
Pela primeira vez, o confronto geoeconômico aparece como o principal risco global para 2026, à frente de conflitos armados tradicionais e de eventos climáticos extremos. Tarifas, sanções, controles de exportação e o uso estratégico das cadeias de suprimento como instrumento de poder vêm substituindo, em grande medida, o multilateralismo que marcou as últimas décadas.
Esse movimento se reflete na percepção de que o mundo caminha para uma ordem multipolar, porém com menos mecanismos de coordenação. Segundo o FEM, 68% dos entrevistados acreditam que a próxima década será caracterizada por maior fragmentação e menor capacidade das instituições globais de responder de forma conjunta a crises financeiras, sanitárias ou ambientais.
No Fórum Econômico Mundial de 2026, em Davos, esse pano de fundo ficou evidente. Embora o encontro tenha sido organizado sob o lema “A Spirit of Dialogue”, a leitura dominante foi de que a competição entre blocos e países se intensificou e criou um ambiente estruturalmente mais instável para comércio, investimentos e cooperação.
Crescimento frágil e riscos financeiros
As projeções discutidas em Davos apontam para um crescimento global em torno de 3,1% em 2026. A inflação tende a recuar em relação aos picos observados no período pós-pandemia, impulsionada em parte pela queda nos preços de energia, mas ainda deve permanecer acima das metas em algumas economias relevantes, como os Estados Unidos.
Esse cenário dá origem ao que o Global Risks Report 2026 descreve como uma “era de acerto de contas econômico”, marcada por preocupações com sustentabilidade da dívida pública, possibilidade de estouro de bolhas de ativos e nova fase de volatilidade financeira. A combinação entre juros ainda relativamente elevados, alto endividamento e expectativas intensas em torno de tecnologias como inteligência artificial amplia a sensibilidade dos mercados a revisões abruptas de cenários.
Entre os riscos que mais avançaram no ranking do Fórum estão a desaceleração econômica, a inflação persistente e os temores de bolhas no mercado financeiro, sinais de que a estabilidade macroeconômica segue longe de ser um dado adquirido.
Negócios em um mundo mais difícil
A deterioração da cooperação global já aparece de forma concreta no ambiente empresarial. Pesquisa recente do FEM com executivos de 81 economias indica que 43% consideram que fazer negócios ficou mais difícil em 2025 em comparação com o ano anterior, enquanto apenas 7% avaliam que houve melhora.
Quase quatro em cada dez executivos apontam que o aumento de barreiras ao comércio, à circulação de talentos e aos fluxos de capital transfronteiriços tem dificultado operações e decisões de investimento. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de enfraquecimento da cooperação em áreas como paz e segurança, clima e recursos naturais.
Ainda assim, parte das empresas tem buscado se adaptar ao novo contexto, ajustando estratégias, diversificando mercados e redesenhando cadeias de suprimento, que indica a resposta ao cenário adverso passa menos por esperar uma normalização rápida e mais por reorganizar modelos de negócio.
Cinco desafios estruturais
A programação de Davos 2026 foi organizada em torno de cinco grandes desafios: cooperar em um mundo contestado, destravar novas fontes de crescimento, investir em pessoas, implantar inovação de forma responsável e construir prosperidade dentro dos limites do planeta.
No campo do trabalho, o relatório Future of Jobs projeta que um em cada quatro empregos deve mudar até 2030 e que 39% das habilidades atuais tendem a se tornar obsoletas, pressionadas por automação, inteligência artificial, mudanças demográficas e transição energética. Isso reforça a centralidade de políticas de requalificação e educação contínua.
Já na agenda ambiental, o Fórum voltou a defender modelos de economia circular e “nature-positive”, destacando que negócios alinhados à restauração ambiental podem destravar até US$ 10 trilhões por ano até 2030, em um contexto em que cerca de 75% das terras do planeta já apresentam sinais de degradação.
Oportunidades e riscos da IA
A inteligência artificial ocupa posição ambígua no debate global. De um lado, é vista como vetor capaz de adicionar trilhões de dólares ao PIB mundial por meio de ganhos de produtividade e reorganização de processos. De outro, aparece associada a riscos crescentes, como concentração de poder em grandes plataformas, impactos no emprego, desafios à integridade da informação e possíveis distorções de mercado.
No ranking de riscos do FEM, desinformação figura como o segundo maior risco no horizonte de dois anos, enquanto os efeitos adversos da IA estão entre os que mais sobem de posição no horizonte de dez anos, alcançando o quinto lugar.
Brasil com crescimento moderado
O Brasil deve iniciar 2026 em um ambiente de crescimento mais contido, com projeção de avanço do PIB em torno de 1,7%, refletindo os efeitos prolongados de uma política monetária restritiva. Embora haja expectativa de início de um ciclo de cortes ao longo do ano, a taxa Selic deve encerrar 2026 ainda em patamar elevado, próximo de 12%, enquanto a inflação tende a seguir em processo gradual de desaceleração, com IPCA ao redor de 4,0%. Esse conjunto de fatores mantém as condições financeiras apertadas, mesmo com sinais pontuais de alívio.
No campo fiscal, o cenário segue como principal foco de atenção. A dificuldade de geração de superávit primário e o peso dos juros elevados devem manter a trajetória de alta da dívida pública, ampliando a percepção de vulnerabilidade das contas públicas. Apesar desse contexto, o mercado de trabalho permanece relativamente resiliente, ajudando a sustentar consumo e demanda por crédito, que deve crescer de forma moderada em 2026, ainda pressionado pelo custo das linhas livres e com maior participação de operações direcionadas e programas de apoio.
Ambiente de adaptação
As discussões em Davos apontam para uma economia global em crescimento moderado, com inflação em desaceleração, mas ainda resistente em algumas economias, e condições financeiras que seguem relativamente restritivas. Ao mesmo tempo, o confronto geoeconômico foi apontado pelo Fórum Econômico Mundial como o principal risco global para 2026, em um contexto de maior fragmentação das relações internacionais e menor capacidade de coordenação entre países.
Esse conjunto de fatores tende a manter um ambiente mais volátil para comércio, investimentos e cadeias produtivas ao longo do próximo ano.
Fontes: Gazeta Mercantil, Exame e InvesTalks com adaptações da MundoCoop












