O avanço do cooperativismo brasileiro em escala, diversidade e impacto socioeconômico tem ampliado também o grau de responsabilidade das cooperativas diante de seus cooperados, das comunidades onde atuam e do próprio mercado.
Em um ambiente cada vez mais regulado, competitivo e exposto a riscos, a governança deixa de ser apenas um conjunto de regras formais e passa a exercer papel central na definição de comportamentos, na orientação das decisões e na geração de valor de longo prazo. Essa leitura ganha ainda mais relevância com o lançamento do livro “Governança para cooperativas: fundamentos legais e recomendações práticas”, publicado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) no dia 3 de dezembro. O estudo sistematiza princípios, papéis e diretrizes voltados à realidade cooperativista e reforça a governança como instrumento de organização, direcionamento estratégico e preservação da identidade institucional.
Nesse contexto, a governança se consolida como elemento estruturante da estratégia das cooperativas. Ao organizar responsabilidades, delimitar instâncias decisórias e instituir mecanismos de controle e transparência, ela alinha propósito, desempenho e sustentabilidade institucional, ao mesmo tempo em que fortalece a confiança dos cooperados e dos demais públicos envolvidos.
Crescimento e a arte de decidir bem
À medida que o cooperativismo amplia sua atuação, a tomada de decisão passa a exigir maior capacidade de articulação entre participação democrática e critérios técnicos. A convivência entre diferentes perfis de cooperados, interesses econômicos e responsabilidades institucionais torna a governança um fator decisivo para garantir coerência estratégica e efetividade nas escolhas.
Para Rodrigo Casagrande, conselheiro de administração da Viacredi, cooperativa do Sistema Ailos, a governança ocupa um papel central na organização da tomada de decisão das cooperativas, especialmente em um ambiente marcado por maior complexidade e exposição a riscos. Ao estabelecer parâmetros claros de atuação e orientar o direcionamento estratégico, a governança contribui para alinhar propósito, desempenho e visão de longo prazo, o que acaba por reforçar a geração de valor para os cooperados e para as comunidades onde as cooperativas estão inseridas. “A governança é muito importante porque aporta clareza nos comportamentos esperados e, também, naquilo que não deve ser tolerado pela cooperativa”, afirmou.

“A governança aporta clareza sobre os comportamentos esperados e orienta as decisões de forma estruturada, sempre com foco na geração de valor para os cooperados e para as comunidades.” – Rodrigo Casagrande, conselheiro de administração da Viacredi
Nesse cenário, a separação entre funções estratégicas e executivas surge como um dos pilares da boa governança. Conselhos de administração mais maduros se concentram em pautas estratégicas, enquanto a diretoria executiva responde pela condução tático-operacional, evitando sobreposição de papéis e decisões desalinhadas. Para Casagrande, essa distinção é essencial para preservar a efetividade do processo decisório e proteger institucionalmente a cooperativa, sobretudo em um ambiente marcado por riscos emergentes, avanços tecnológicos e pressões regulatórias crescentes.
Cultura cooperativa e geração de valor
Se a governança organiza estruturas e processos, é a cultura cooperativa que orienta o sentido das decisões. Sob essa perspectiva, princípios como gestão democrática, interesse pela comunidade e participação econômica dos cooperados funcionam como referências permanentes para conselhos e dirigentes, garantindo coerência entre discurso institucional e prática cotidiana. Nesse sentido, a governança não se sustenta apenas por normas, mas, sim, pela capacidade de traduzir valores em escolhas concretas.
Na avaliação de Rodrigo Casagrande, os conselheiros de administração atuam como ‘guardiões da cultura, da missão e dos valores cooperativistas’, especialmente em momentos que exigem clareza e coerência nas decisões estratégicas. Ele ressalta que, mesmo inseridas em ambientes altamente competitivos, as cooperativas precisam manter escolhas orientadas à construção de um futuro mais próspero e inclusivo. “A clareza e a coerência nas decisões precisam levar em consideração a cultura cooperativista, que requer escolhas amparadas em um comportamento genuíno de criação de um futuro melhor e mais próspero para todos”, destacou.
Um exemplo dessa conexão entre governança, cultura e impacto está na chamada “Economia da Cooperação”, conceito adotado pela Viacredi para mensurar o valor econômico gerado aos cooperados. A metodologia calcula quanto os associados economizam ao utilizar produtos e serviços da cooperativa, considerando tarifas, juros, rendimentos, juros sobre capital e distribuição de sobras. Ao traduzir resultados em indicadores claros, a iniciativa amplia a transparência e evidencia como a governança contribui diretamente para o desenvolvimento local, o estímulo a novos negócios e o fortalecimento da renda nas comunidades onde a cooperativa atua.
Fiscalização além da conformidade
Com o crescimento do cooperativismo, a governança também se fortalece por meio da atuação dos órgãos de fiscalização. O conselho fiscal deixa de ser percebido apenas como instância formal de verificação de contas e passa a exercer papel estratégico na prevenção de riscos, na orientação da gestão e na preservação da perenidade institucional.
Para Marta Bezerra, conselheira fiscal da OCB Ceará, os princípios do cooperativismo já incorporam, desde a origem, elementos fundamentais de governança, como transparência, prestação de contas e participação. No entanto, o avanço do movimento exige práticas que vão além da conformidade legal, sobretudo para garantir sustentabilidade econômica e social. “Adotar práticas que contemplem princípios e mecanismos de governança, para que seja garantida a perenidade e a sustentabilidade, é urgente”, avaliou.
“A atuação do conselho fiscal precisa ir além da conformidade legal e assumir um papel estratégico na prevenção de riscos, no fortalecimento da transparência e na garantia da perenidade das cooperativas.” – Marta Bezerra, conselheira fiscal da OCB Ceará

Nesse contexto, a atuação preventiva do conselho fiscal ganha centralidade. Antecipar riscos, acompanhar recomendações de auditorias e manter diálogo permanente com áreas de compliance, gestão de riscos e auditoria interna fortalece a governança e amplia a confiança institucional. Segundo Marta, quando bem estruturada, essa atuação contribui para que a relação com órgãos reguladores seja percebida mais como orientação do que como punição.
A transparência e a clareza na prestação de contas também se mostram decisivas para o engajamento da base cooperada. Assembleias bem conduzidas, com linguagem acessível e informações compreensíveis para diferentes perfis de cooperados, reforçam a participação democrática e o papel do associado como dono da organização. “Quando explicamos algo e os ouvintes não entendem, geralmente nem nós mesmos temos conhecimento suficiente para explicar. Isso pode afastar o interesse e a participação dos cooperados”, ressaltou Marta Bezerra.
Profissionalização e os desafios do futuro
O fortalecimento da governança cooperativa também passa pela profissionalização das estruturas de gestão e, especialmente, pela qualificação contínua dos conselhos. Temas como sucessão, formação de lideranças, uso estratégico de dados, gestão de riscos e sustentabilidade tem ganhado espaço nas agendas e exigido conselheiros cada vez mais preparados para lidar com decisões de longo prazo.
Rodrigo Casagrande destaca que a profissionalização não pode se dissociar dos valores cooperativistas, devendo considerar tanto os resultados alcançados quanto a forma como eles são obtidos. Nesse sentido, a educação e a formação permanente dos cooperados e dirigentes, previstas no quinto princípio do cooperativismo, assumem papel estratégico para garantir decisões baseadas em dados, planejamento estruturado e visão de futuro.
Além disso, a intercooperação surge como uma das principais oportunidades de amadurecimento do sistema. Casagrande cita a experiência da Unium, formada pela união de cooperativas do Paraná, como exemplo de como a colaboração pode gerar ganhos de escala, inovação e fortalecimento institucional, ampliando a competitividade sem perder a identidade cooperativista.
Para o futuro, tanto Rodrigo quanto Marta coincidem ao apontar que a avaliação de que a governança precisará incorporar, de forma cada vez mais consistente, temas como riscos climáticos, métricas ESG e conselhos mais diversos e qualificados. A presença de conselheiros independentes alinhados à cultura cooperativista, a definição de pautas estratégicas enxutas e a autonomia harmônica dos órgãos de governança aparecem como fatores essenciais para sustentar a confiança, a credibilidade e a perenidade das cooperativas nos próximos anos, conforme ressaltaram os entrevistados.
A agenda estratégica da governança cooperativa
Na avaliação de Rodrigo Casagrande, a governança precisa lidar com uma agenda cada vez mais ampla e complexa. Entre os principais temas que devem ganhar espaço nas pautas dos conselhos, ele destaca:
- riscos geopolíticos e impactos econômicos globais;
- segurança cibernética e proteção de dados;
- uso estratégico da inteligência artificial;
- riscos climáticos e adaptação dos modelos de negócio;
- reputação institucional e confiança dos cooperados;
- critérios ESG e sustentabilidade de longo prazo.
O papel estratégico do Conselho Fiscal
Para Marta Bezerra, a governança cooperativa se fortalece quando a fiscalização atua de forma preventiva e integrada à gestão. Entre os principais pilares dessa atuação, ela destaca:
- articulação com auditorias, compliance e controles internos;
- transparência e clareza na prestação de contas;
- linguagem acessível para ampliar a participação dos cooperados;
- foco na perenidade e na sustentabilidade institucional.
Por João Victor, Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 127 da Revista MundoCoop












