COLUNA SAÚDE MENTAL INTEGRATIVA
O aumento do interesse por bonecas hiper-realistas, conhecidas como reborn, pode parecer uma curiosidade excêntrica à primeira vista. Mas por trás da pele de silicone, dos olhos vívidos e da textura e peso de recém-nascido, o que se revela é algo muito mais profundo: um espelho simbólico do que falta nas relações humanas incluindo, claro, as relações de trabalho.
Agora pense: se uma boneca pode simbolizar tanto, o que isso diz sobre o tecido emocional da nossa sociedade? O quanto as pessoas estão sendo levadas a buscar afeto em objetos, porque não o encontram em suas redes humanas — nem mesmo no ambiente onde dedicam a maior parte de suas vidas: o trabalho?
Na psicologia, em alguns casos essas bonecas funcionam como objetos transicionais. Elas substituem ausências, oferecem sensação de acolhimento e criam a ilusão de vínculo seguro. O aumento de sua procura não é aleatório — é sintoma de um tempo em que o afeto está escasso, o vínculo rarefeito e a escuta emocional, negligenciada.
Esse cenário não acontece apenas na esfera íntima. Ele se reflete, com frequência crescente, nos ambientes profissionais.
A NR-01, inclui os riscos psicossociais como parte obrigatória da gestão de saúde e segurança do trabalho. E esse não é apenas um detalhe técnico — é uma mudança de paradigma. Pela primeira vez, líderes e gestores são convidados, formalmente, a enxergar o sofrimento psíquico como um risco organizacional. E a cuidar disso.
Mas o cuidado verdadeiro não nasce da obrigatoriedade. Ele floresce na escuta ativa, na presença genuína e na capacidade de atribuir sentido humano à norma. Ambientes tóxicos não surgem por acaso — eles se constroem aos poucos, no acúmulo de silêncios, na normalização do excesso, na valorização de quem ignora seus próprios limites.
São alimentados por metas inatingíveis, jornadas inflexíveis e lideranças que ainda não aprenderam a fazer a pergunta mais simples — e talvez mais transformadora:
“Como você está – de verdade?”
Bonecas reborn são, no fundo, metáforas do que muitos gostariam de receber: atenção, segurança, validação. Elas simbolizam uma falta — e um desejo. Se profissionais adultos estão buscando conforto emocional em objetos, talvez devêssemos nos perguntar: o que está faltando nos espaços coletivos, especialmente no trabalho, que os humanos não estão mais encontrando entre si?
A verdadeira gestão de saúde emocional nas empresas começa antes dos protocolos. Ela começa quando líderes entendem que saúde mental não é pauta da moda — é sustentabilidade. E que cuidar de pessoas é, sim, uma estratégia de negócio.
As cooperativas, por sua essência mais comunitária, têm a chance de liderar esse novo modelo. Um modelo em que pertencimento, escuta e segurança psicológica sejam premissas de gestão. Porque só cresce quem está emocionalmente inteiro para colaborar.
Este artigo não fala sobre bonecas. Fala sobre pessoas. Sobre a urgência de humanizar os ambientes de trabalho e desenvolver líderes capazes de ver além dos indicadores de desempenho.
Os bebês reborn não são apenas bonecas — são o grito calado de um tempo que desaprendeu a cuidar.
Finalizo este artigo com um convite: que possamos enxergar a NR-01 como uma oportunidade de criar organizações onde escuta, acolhimento e cuidado não sejam exceção — mas cultura. Porque cuidar de pessoas não é um custo — é o solo onde toda cooperação verdadeira se sustenta.
*Tais Di Giorno é Jornalista e Fundadora da Sálvia Soluções

Reportagem exclusiva publicada na edição 124 da Revista MundoCoop