Com o fim do Ano Internacional das Cooperativas 2025, proclamado pela ONU, surge uma pergunta essencial: o que ficará quando a campanha terminar? Se o cooperativismo brasileiro quiser transformar 2025 em um marco (e não em um ponto isolado) precisará manter viva a comunicação, ampliar públicos e romper definitivamente sua bolha histórica.
O movimento cooperativista no Brasil é robusto, moderno e tecnicamente estruturado, mas ainda fala muito para dentro. A percepção pública segue restrita a setores tradicionais, principalmente agro e crédito, enquanto cooperativas urbanas, de tecnologia, cultura, cuidados, reciclagem, saúde e plataformas digitais permanecem quase invisíveis. Para a maior parte da população, cooperativa ainda não é vista como solução contemporânea para problemas reais de renda, trabalho, moradia ou empreendedorismo. Exatamente os temas mais urgentes do país.
A visibilidade trazida por 2025 foi inédita, mas visibilidade sem continuidade vira ruído. O pós-2025 é tão importante quanto o próprio ano. O cooperativismo precisa transformar a energia acumulada nesta celebração global em uma comunicação permanente, moderna e capaz de dialogar com públicos que hoje sequer sabem que esse modelo existe para além do agro.
Para continuar furando a bolha, o movimento deve transformar a campanha de 2025 em presença constante na vida social: ocupar debates nacionais como trabalho em plataformas, economia verde, inteligência artificial, juventudes e cuidados; fortalecer sua atuação digital com conteúdos curtos, acessíveis e frequentes; diversificar porta-vozes com jovens, mulheres e profissionais de tecnologia; contar histórias humanas que conectem cooperativas ao cotidiano das pessoas; e construir, entre OCB, centrais e cooperativas, uma estratégia nacional conjunta que ultrapasse o calendário da ONU. Em síntese, é preciso estar onde o Brasil está, não apenas onde o movimento já está.
O Ano Internacional ofereceu luz, narrativa e oportunidade. Agora, cabe ao cooperativismo decidir se essa luz se apaga ou se se transforma em posicionamento permanente. O movimento tem força econômica, relevância social e legitimidade global. Falta apenas algo essencial: ser compreendido por quem está fora.
Se o cooperativismo continuar a dialogar apenas consigo mesmo, 2025 terá sido só um ano simbólico. Mas, se mantiver coragem comunicacional, presença social e conexão com os debates contemporâneos, poderá finalmente ocupar o espaço que merece no futuro do país. O cooperativismo tem tudo para transformar o Brasil. Para isso, precisa, de forma contínua, sair da bolha.
Contem comigo pra isso, sempre.
Marina Lopes é Sócia do escritório BMAS advogados

Coluna exclusiva publicada na edição 127 da Revista MundoCoop












