Se você estiver lendo esse artigo depois do dia 18 de março, já saberá qual foi a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) sobre a taxa Selic. A previsão é de uma redução de 0,25 ponto ou de 0,5 ponto percentual.
Trata-se, assim, do início de um ciclo de queda de juros após a Selic permanecer no patamar elevadíssimo de 15% ao ano desde junho de 2025. Curiosamente, foi a gestão do presidente do BC, Gabriel Galípolo, escolhido pelo presidente Lula, que tomou a decisão de endurecer ainda mais a política monetária. Decisão correta, que fique bem claro.
Galípolo herdou da gestão Roberto Campos Neto uma Selic em 12,25% ao ano e promoveu quatro altas consecutivas, contrariando a cartilha dos economistas de esquerda que pregava a redução dos juros básicos para estimular a economia. Na minha visão, não havia outro caminho para o BC que não fosse a elevação da Selic diante de um cenário em que o governo não para de gastar, pressionando a inflação.
Gastos excessivos com programas sociais, por exemplo, estimulam artificialmente o consumo, o que dificulta o cumprimento das metas inflacionárias estabelecidas pelo próprio governo. Além disso, o desequilíbrio fiscal costuma empurrar o valor do dólar para cima (há muito tempo acima dos R$ 5,00), o que também não ajuda no combate aos preços altos. Portanto, sem saída, o BC precisou apertar a política monetária para compensar a frouxidão da política fiscal.
Com um aperto nos juros tão forte – a Selic em 15% é a maior desde 2006 –, era inevitável uma desaceleração do crescimento econômico. Após uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) superior a 3% nos dois primeiros anos do Governo Lula, o ritmo da economia diminuiu para o patamar em torno de 2% a 2,5% em 2025 e, talvez, cresça ainda menos do que isso neste ano.
A partir de agora, no entanto, o cenário começa a mudar com o ciclo de queda dos juros, que deverá ser lento e gradual. Nas minhas previsões, a Selic cairá, na melhor das hipóteses, até o patamar de 12% neste ano eleitoral. Isso, é claro, se as expectativas inflacionárias não se distanciarem da meta de 3% em 2027, que é o horizonte vislumbrado pelo BC em suas próximas decisões.
No curto prazo, a queda dos juros terá um efeito financeiro positivo principalmente nas empresas excessivamente endividadas. Com Selic a 15% ao ano, é comum analisarmos balanços operacionais positivos, mas com prejuízo na última linha. O cooperativismo financeiro, por exemplo, vem sofrendo com associados do agronegócio que entraram em recuperação judicial diante do enorme impacto dos juros altos nos seus cofres.
O Brasil que produz e gera empregos clama por uma Selic inferior a 10%. Para isso acontecer, só há um caminho. O governo que assumir em 2027, independentemente de sua ideologia, precisará perseguir superávits fiscais (gastar menos do que arrecada) para ajudar o BC no combate à inflação. Caso contrário, continuaremos a vivenciar um cenário esquizofrênico no qual o governo pisa no acelerador (mais gasto público) ao mesmo tempo que o Banco Central pisa no freio (mais juros). O carro vai acabar derrapando…
*Luís Artur Nogueira é economista, jornalista e palestrante. Atualmente é comentarista do programa “Faroeste à Brasileira” no Youtube da Revista Oeste e colunista da MundoCoop

Coluna exclusiva publicada na edição 128 da Revista MundoCoop









