O debate sobre modelos de jornada de trabalho ganhou força no Brasil em decorrência da ampliação do debate a respeito do equilíbrio entre vida profissional e pessoal e das condições de trabalho nas rotinas contemporâneas. A discussão reflete mudanças nas expectativas dos trabalhadores e pressiona empresas a reverem rotinas historicamente consolidadas.
Levantamento da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados indica que a maioria dos brasileiros apoia o fim da escala 6×1, desde que não haja redução salarial. Ao mesmo tempo, o tema avançou para a agenda política e econômica, impulsionado por propostas legislativas e estudos técnicos que analisam os impactos de uma eventual redução da jornada.
Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que a redução da jornada semanal poderia ser absorvida por setores como comércio e indústria, com impacto inferior a 1% nos custos operacionais. O levantamento também indica que mudanças dessa natureza não implicam necessariamente redução de empregos e podem estimular ganhos de produtividade ou novas contratações.
Adaptação do varejo
Enquanto o debate avança no campo institucional, empresas já começam a antecipar mudanças nas jornadas de trabalho. Redes do varejo farmacêutico e supermercadista vêm adotando a escala 5×2 como estratégia para melhorar a qualidade de vida dos colaboradores e enfrentar desafios de atração e retenção de mão de obra.
No setor farmacêutico, executivos destacam que a mudança contribui para o bem-estar das equipes e fortalece a sustentabilidade do negócio. Já redes supermercadistas relatam ajustes operacionais e revisões no funcionamento das lojas como parte do processo de adaptação.
Para o economista Marcelo Manzano, Professor Doutor nas áreas de Economia Brasileira e de Economia Social e do Trabalho do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp) e Pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit/Unicamp), a revisão das jornadas reflete uma transformação estrutural no mercado de trabalho, impulsionada por mudanças culturais, demográficas e econômicas. “O Brasil está atrasado nessa mudança, mas ela vai ocorrer”, afirma em declaração ao portal Repórter Brasil.
A dificuldade crescente para atrair trabalhadores também pressiona o setor. Representantes sindicais apontam que jornadas extensas perderam atratividade, especialmente entre os jovens, o que tem levado empresas a rever modelos tradicionais.
Pessoas e estratégia
Nesse contexto, a Coop anunciou a adoção da escala 5×2 em todas as suas drogarias, localizadas na região do ABC paulista e em cidades do interior de São Paulo. O novo modelo amplia o número de folgas semanais e integra uma estratégia voltada à valorização das pessoas e ao fortalecimento do ambiente de trabalho.
A iniciativa reflete um princípio historicamente associado ao cooperativismo: o cuidado com as pessoas como elemento central da sustentabilidade organizacional. Ao priorizar o bem-estar dos colaboradores, a cooperativa reforça sua cultura de participação, pertencimento e desenvolvimento humano.
Em entrevista exclusiva à MundoCoop, o diretor-geral Celso Furtado afirma que a iniciativa está alinhada ao propósito da cooperativa. Para ele, o fortalecimento das relações de trabalho contribui para o engajamento das equipes e para a qualidade do atendimento. “Tornar a jornada do colaborador com menos atrito é um dos nossos principais objetivos”, destaca.
Segundo o executivo, a relação entre bem-estar e desempenho organizacional é direta e se reflete na produtividade, no engajamento das equipes e na qualidade do atendimento. “Se associarmos o bem-estar do colaborador ao seu desenvolvimento, cumpriremos nosso propósito”, acrescenta.
Transformação consciente
A implementação teve início pelas drogarias em razão das características específicas desse formato de operação. O fluxo de atendimento, a cobertura de horários e a organização das jornadas tornam a adaptação mais previsível e permitem ajustes mais precisos.
Essa etapa inicial funciona como um laboratório operacional. A experiência possibilita avaliar impactos na organização das equipes, na rotina de trabalho e na qualidade do atendimento, oferecendo subsídios técnicos para decisões futuras.
Desafios do varejo alimentar
No varejo alimentar, a dinâmica operacional é mais complexa em razão da maior variação de demanda ao longo do dia e da necessidade de atendimento contínuo. Esse cenário exige planejamento rigoroso das escalas, dimensionamento adequado das equipes e soluções que preservem a eficiência operacional.
A Coop iniciou um projeto piloto em sua unidade de Piracicaba como forma de testar o modelo em um ambiente controlado e avaliar seus impactos antes de qualquer ampliação. De acordo com Celso Furtado, a escolha permite uma condução estruturada da experiência, com análise consistente dos resultados.
O diretor ressalta que mudanças dessa natureza exigem cautela e mensuração. “Mudanças estruturais precisam ser mensuradas e os riscos, calculados”, afirma.
Com base nos resultados, a cooperativa pretende avaliar os próximos passos. “Com os resultados em mãos, a tomada de decisão se torna menos impactante”, acrescenta.
O futuro das jornadas
A revisão das jornadas de trabalho ocorre em meio a transformações mais amplas no mundo do trabalho. Estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e de instituições de pesquisa em saúde ocupacional indicam que jornadas extensas estão associadas ao aumento do adoecimento físico e mental, à queda da qualidade de vida e à redução do engajamento profissional.
Pesquisas também apontam que a insatisfação com rotinas extenuantes reflete uma mudança cultural mais profunda, especialmente entre trabalhadores mais jovens, para os quais o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal tornou-se um fator determinante na escolha e permanência no emprego.
Do ponto de vista econômico, análises indicam que a redução da jornada pode gerar efeitos compensatórios, como aumento da produtividade, redução do absenteísmo e melhoria do clima organizacional. Ao mesmo tempo, o ganho de tempo livre tende a estimular consumo, lazer e atividades culturais, contribuindo para o dinamismo econômico.
Nesse cenário, iniciativas que buscam conciliar eficiência operacional e bem-estar das equipes tendem a ganhar relevância. Para Celso Furtado, diretor-geral da Coop, o momento exige olhar atento às transformações do trabalho. “Mudanças estruturais precisam ser mensuradas e os riscos, calculados”, afirma.
Por João Victor, Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 128 da Revista MundoCoop












