A falta de planejamento sólido figura entre os principais entraves ao desenvolvimento dos pequenos negócios no Brasil. Pesquisa realizada pela Febracis, com base na análise de 32.435 perfis comportamentais, aponta que planejamento (50%), paciência (50,8%) e prudência (49%) estão entre as competências menos desenvolvidas entre os empreendedores brasileiros.
O levantamento mostra que esse público tende a ser altamente influente e orientado a resultados rápidos, mas enfrenta dificuldades quando o desafio exige organização, constância e visão estratégica de longo prazo. As competências mais desenvolvidas são entusiasmo (62%), extroversão (61,9%) e persuasão (61,3%), traços que impulsionam a comunicação e o relacionamento, mas que nem sempre se traduzem em processos estruturados de gestão.
De acordo com Paulo Vieira, responsável técnico pelo CIS Assessment, os dois perfis mais recorrentes, dominante e influente, podem ser virtudes ou armadilhas. “Um líder dominante sem inteligência emocional pode atropelar pessoas no caminho dos resultados. Um influente desregulado pode gerar entusiasmo sem entrega. Quando o empreendedor entende seus pontos fortes e suas brechas, ele passa a liderar com mais consciência, e não apenas por instinto”, destaca.
Cooperativas e o acesso ao crédito orientado
Diante desse cenário, o cooperativismo de crédito tem ampliado sua atuação junto aos micro e pequenos empresários, oferecendo não apenas financiamento, mas também orientação consultiva. No Espírito Santo, o Sicoob liderou 58% das operações de crédito para micro e pequenas empresas em 2025, segundo levantamento do Sebrae, consolidando-se como a instituição mais procurada por esse público no estado.
Além da liderança nas concessões, o Sicoob opera programas nacionais que integram fundos garantidores, como o Movimento de Apoio ao Empresário Brasileiro, em parceria com o Sebrae, que utiliza o Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe). A iniciativa prevê beneficiar mais de 300 mil empresários em todo o país, com cerca de R$ 5 bilhões disponíveis em crédito.
Segundo o diretor-executivo do Sicoob Central ES, Nailson Dalla Bernadina, a estratégia vai além da liberação de recursos. “Buscamos ofertar o crédito com orientação para a aplicação correta, responsável e voltada à geração de oportunidades. Cada operação representa um investimento direto no fortalecimento das micro e pequenas empresas, que são uma engrenagem importante da economia”, afirma.
Fortalecimento da gestão dos pequenos negócios
Outro eixo de atuação das cooperativas está na capacitação empreendedora. Em Mato Grosso, o Sicredi, em parceria com o Sebrae e a Icatu, promoveu a série de palestras Conexões que transformam, que reuniu mais de 500 microempreendedores em quatro municípios do estado.
Segundo Leidiane Almeida Valadares, assessora de negócios do Sicredi Sudoeste, a adesão ao evento evidencia a busca por qualificação. “Cada cidade mostrou o quanto os pequenos negócios têm sede de conhecimento e inovação. Nosso propósito é seguir criando oportunidades que transformem realidades e promovam desenvolvimento sustentável”, afirma.
A programação contou com palestras sobre práticas sustentáveis, relacionamento com clientes, escuta ativa e construção de confiança nas vendas. Além do conteúdo técnico, os encontros estimularam networking e troca de experiências, fortalecendo a rede de apoio entre os empreendedores locais.
Empreendedorismo feminino
O incentivo ao empreendedorismo feminino também se destaca no cooperativismo. O Sicredi conquistou o primeiro lugar na categoria “Melhor Financiador para Mulheres Empreendedoras das Américas”, no Global SME Finance Awards 2025, reconhecimento internacional promovido pelo SME Finance Forum.
Um exemplo desse apoio é a trajetória de Jane Theodoro, associada do Sicredi Progresso PR/SP. Após iniciar com vendas porta a porta, ela formalizou o negócio, abriu conta PJ e, com apoio da cooperativa, estruturou sua empresa. “O modelo me chamou atenção, quis conhecer mais e agendei a conversa. Desde o começo senti que fazia parte. Esse acolhimento me fez sentir valorizada”, relata.
Durante a pandemia, Jane contou com suporte financeiro da cooperativa. Mais recentemente, utilizou a linha Pronampe para adquirir sua loja física. “Quando precisei, tive apoio. Esse relacionamento, ser ouvida e atendida prontamente com o melhor direcionamento, é um diferencial que me incentiva”, afirma. Hoje, o negócio vende cerca de 1.500 peças por mês e conta com 30 revendedoras.
Planejamento no campo
No segmento agropecuário, a Cocari atua diretamente no planejamento produtivo dos cooperados por meio de consultorias agronômicas e veterinárias. O acompanhamento começa ainda no pré-plantio, com análises de solo, escolha de cultivares e definição de estratégias produtivas.
Segundo Rodrigo Rombaldi, supervisor do Departamento Técnico (Detec), o objetivo é reduzir riscos e ampliar a eficiência. “A consultoria auxilia desde o planejamento pré-safra, na escolha de cultivares e na correção do solo, com base no histórico da área”, explica. O monitoramento contínuo das lavouras também permite ações preventivas, mais eficientes do que intervenções corretivas.
Na pecuária, o suporte inclui sanidade, nutrição e reprodução. De acordo com Eduardo Henrique Berns, supervisor do Departamento Veterinário (Devet), a prevenção é um dos pilares do trabalho. “Atuamos com diagnóstico precoce, protocolos sanitários e manejo adequado. Esse acompanhamento contribui diretamente para o aumento da eficiência produtiva do rebanho”, afirma.
Em comum, os casos mostram uma atuação consistente das cooperativas para suprir a lacuna de planejamento identificada pela pesquisa da Febracis, combinando crédito, capacitação e acompanhamento técnico como estratégia para fortalecer pequenos negócios e impulsionar o desenvolvimento local.
Por João Victor, Redação MundoCoop












