Apesar do comunicado conciso, o Copom trouxe mudanças relevantes em sua comunicação em relação à reunião anterior.
No cenário internacional, foi mantida a visão de que a política econômica dos Estados Unidos pode impactar as condições financeiras globais, o que segue exigindo cautela.
Na avaliação do cenário doméstico, o comitê manteve a percepção de que a atividade segue em trajetória de moderação, conforme esperado. No entanto, manteve também a leitura de que o mercado de trabalho segue resiliente. Na nossa avaliação, o mercado de trabalho aquecido seguirá sendo um ponto de atenção e desconforto para o comitê, já que traz um risco relevante de manter ou até mesmo acelerar a inflação de serviços, que está em patamar relativamente desconfortável.
A projeção de inflação para o horizonte-alvo da política monetária, atualmente o 3º trimestre de 2027, manteve-se em 3,2%. Em nossa avaliação, a manutenção da projeção neste patamar, ainda acima do centro da meta (3,0%), tem peso relevante para ditar o ritmo de início do ciclo de cortes.
No balanço de riscos para a inflação, não houve mudança em relação à reunião anterior. A avaliação é de que persistem riscos de alta e de baixa, com grau de incerteza acima do usual. Contribuem para uma inflação mais elevada as expectativas desancoradas (acima da meta), a inflação de serviços em nível elevado e resiliente, os gastos do governo em alta e o risco de desvalorização da taxa de câmbio. Por outro lado, a desaceleração mais rápida da atividade, a contração no comércio global e os menores preços de commodities podem favorecer um cenário desinflacionário.
Apesar de reconhecer que o cenário ainda é desafiador, marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e mercado de trabalho aquecido, permeado também por riscos geopolíticos e fiscais, o Copom retira um trecho importante da sua comunicação: a necessidade de juros em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado.
Diante da sua ponderação de um ambiente de inflação menor e maior evidência da transmissão da política monetária, o comitê sinalizou que deve iniciar o ciclo de cortes na próxima reunião, caso o cenário evolua como esperado. Isto é, caso a inflação continue convergindo para a meta, as expectativas sigam em queda e a atividade moderando.
A clara sinalização de início de cortes na próxima reunião surpreendeu, mas no bom sentido. Em nossa avaliação, além de convergir para a atual expectativa do mercado, a sinalização também deixa explícito que o início do ciclo de cortes trata-se de uma calibração do nível de juros, e não de uma intenção de levar a Selic para um nível estimulativo.
Nesse sentido, a discussão agora passa a ser o ritmo inicial do ciclo de cortes: 0,25 p.p., conforme nosso cenário, ou 0,50 p.p.. Sua comunicação, no entanto, ressaltou que o comitê agirá com “serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo”, o que nos leva a esperar um ritmo mais lento. Iremos aguardar a Ata da próxima semana para reavaliar nosso cenário, mas, por ora, vemos que a comunicação converge para nossa projeção de Selic em 12,50% a.a. ao final de 2026.
André Nunes de Nunes é Economista-Chefe do Sicredi












