A crescente demanda por transparência ambiental nas cadeias globais de alimentos tem colocado a agenda climática no centro das discussões do agronegócio. Pressões de mercados internacionais, investidores e consumidores já influenciam decisões comerciais e ampliam a necessidade de monitorar e reportar emissões de gases de efeito estufa (GEE). No cooperativismo agropecuário brasileiro, esse movimento começa a ganhar escala.
Para apoiar as cooperativas nessa jornada, o Sistema OCB reuniu, nesta sexta (13), representantes de organizações de diferentes regiões do país no início do ciclo 2026 da Solução Neutralidade de Carbono, iniciativa que orienta as cooperativas na elaboração de inventários de emissões e na construção de estratégias de descarbonização.
Participam desta edição 13 cooperativas agropecuárias: Coamo, Cocari, Primato, Cogran, Coocafé, Capul, Fecoagro/SC, Nater Coop, Coabra, Coopercarne, Coplana, Copercana e Cotrirosa.
Durante a reunião de abertura, a gerente de Desenvolvimento de Cooperativas do Sistema OCB, Débora Ingrisano, ressaltou que a agenda ESG passou a exigir indicadores concretos e capacidade de comprovação de resultados. “ESG é sustentabilidade com comprovação de desempenho. Não basta afirmar que uma organização é sustentável. É preciso apresentar indicadores e evidências que demonstrem essa atuação”, afirmou.
Segundo ela, o inventário de carbono é uma das ferramentas que ajudam as cooperativas a transformar compromissos em dados mensuráveis. “A partir dele, a cooperativa consegue entender se emite ou sequestra carbono e identificar caminhos para estruturar um plano de descarbonização”, acrescentou.
A iniciativa integra o conjunto de soluções desenvolvidas pelo Sistema OCB para fortalecer a agenda ESG no cooperativismo e preparar as cooperativas para novas exigências de mercado e de regulação ambiental.
Agenda climática impacta o agro
A líder global de Estratégia e Soluções de Carbono da Biofílica Ambipar, Soraya Pires, que apresentou aspectos técnicos da solução durante o encontro, destacou que os impactos das mudanças climáticas já fazem parte da realidade da produção agropecuária. “Durante muito tempo se falou sobre quando as mudanças climáticas chegariam. Hoje não existe mais esse ‘quando’. Já vivenciamos esses impactos no dia a dia”, afirmou.
Para ela, iniciativas de mensuração de emissões são essenciais para que organizações compreendam seu papel na mitigação dos impactos climáticos. No caso do agronegócio, explicou, a relação entre produção e clima torna a agenda ainda mais estratégica. “Grande parte da segurança alimentar depende diretamente das condições climáticas. Por isso, medir emissões e entender as fontes de impacto é um passo importante para construir soluções”.
Inventário como ferramenta de gestão
Ao longo do ciclo, as cooperativas participantes receberão apoio técnico para estruturar seus inventários de emissões, considerando os chamados escopos 1, 2 e parte do terceiro — metodologia internacional utilizada para contabilizar emissões diretas e indiretas das organizações.
O trabalho envolve a identificação das principais fontes de emissão, coleta de dados operacionais e cálculo das emissões associadas às atividades das cooperativas. A partir dessas informações, é possível identificar oportunidades de melhoria e estruturar estratégias de redução ou mitigação.
Para muitas cooperativas, o processo também representa um avanço importante na maturidade da agenda de sustentabilidade. Foi o que destacou o especialista de Sustentabilidade e ESG da Holambra Cooperativa Agroindustrial, Flávio Miranda Mota, ao relatar a experiência da organização com a iniciativa. “O impacto foi muito positivo. Conseguimos avançar no nível de maturidade da cooperativa nessa agenda e despertar o interesse dos próprios cooperados”, afirmou.
Preparação para novas exigências
A necessidade de medir e reportar emissões também está relacionada às mudanças em curso nas cadeias globais de valor. Grandes empresas do setor de alimentos e indústrias já começam a solicitar informações sobre a pegada de carbono dos produtos que adquirem.
De acordo com o coordenador de Sustentabilidade e Meio Ambiente da Frísia Cooperativa Agroindustrial, Jean Andrusko, essa tendência começou a chegar ao campo. “Ainda não temos uma cobrança direta sobre as emissões da cooperativa, mas já sentimos uma pressão crescente ligada ao produtor rural”, explicou. “Cadeias como cevada, leite, soja e trigo estão discutindo o tema. Por isso, precisamos nos antecipar e preparar os produtores para essa realidade”.
Caminho para a descarbonização
Ao mensurar suas emissões, as cooperativas dão o primeiro passo para estruturar estratégias de descarbonização e fortalecer sua posição nas cadeias globais de alimentos. Além de responder às novas exigências de mercado, a iniciativa também contribui para ampliar a capacidade de planejamento das cooperativas e valorizar práticas sustentáveis já presentes no campo.
Fonte: Sistema OCB












