O agronegócio foi responsável por cerca de 60% de toda a energia renovável ofertada no Brasil em 2023. O dado faz parte do estudo Dinâmicas de Demanda e Oferta de Energia pelo Agronegócio, produzido pelo Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV), que analisa o papel do setor tanto como consumidor quanto como fornecedor de energia.
A dimensão dessa participação aparece com ainda mais clareza quando o levantamento simula a matriz brasileira sem a contribuição das cadeias agropecuárias e agroindustriais. Nesse cenário, a presença das fontes renováveis cairia de 49,1% para cerca de 20%, aproximando o país da média global, estimada em 15%.
O resultado coloca o agronegócio em uma posição particular na transição energética. Ao mesmo tempo em que depende de energia para mecanização, irrigação, climatização e transporte, o setor tornou-se fornecedor de biocombustíveis, biomassa e outras fontes utilizadas dentro e fora das cadeias agropecuárias.
Agro ganha espaço na matriz
A participação da bioenergia associada ao agronegócio cresceu de forma expressiva ao longo das últimas décadas. Em 1970, início da série histórica analisada pela FGV a partir do Balanço Energético Nacional, essas fontes representavam 9,7% da oferta interna de energia. A parcela chegou a 30,1% em 2020 e permaneceu em 29,1% em 2023.
Com esse resultado, a bioenergia vinculada ao agro respondeu por quase um terço de toda a energia ofertada no país em 2023. Entre as diferentes origens da matriz brasileira, ficou atrás apenas do petróleo e seus derivados, responsáveis por 35,1% da oferta.
A biomassa da cana-de-açúcar concentra a maior parcela dessa contribuição, com 16,87% da oferta energética nacional. Também fazem parte desse conjunto a lenha e o carvão vegetal provenientes da silvicultura, a lixívia da indústria de papel e celulose, óleos vegetais, outras biomassas e o biogás produzido a partir de resíduos agrossilvipastoris.
A mudança foi acompanhada pela diversificação das fontes. Desde o início dos anos 2000, a oferta energética proveniente da cana quase triplicou, impulsionada pela expansão dos veículos flex e da bioeletricidade produzida com o bagaço. No mesmo período, a oferta associada à lixívia cresceu perto de 300%, acompanhando o avanço da indústria de papel e celulose.
Energia ultrapassa o campo
A energia gerada a partir das cadeias do agro também abastece outros segmentos da economia. Segundo a FGV, a indústria se consolidou como principal consumidora dessa bioenergia, absorvendo aproximadamente metade da oferta nas últimas décadas. Alimentos e bebidas, papel e celulose, cerâmica e metalurgia estão entre as atividades que utilizam essas fontes para geração de calor e vapor.
Em algumas cadeias industriais intensivas em calor, a participação da bioenergia do agronegócio já supera 70% do consumo energético. O setor de transportes também ampliou sua utilização, principalmente com a consolidação do etanol e do biodiesel na matriz brasileira.
Essa presença amplia o papel do agro na discussão sobre descarbonização. O estudo aponta que recursos provenientes da cana-de-açúcar, florestas plantadas, oleaginosas, resíduos orgânicos, pecuária e coprodutos agroindustriais passaram a compor uma oferta energética cada vez mais diversificada.
Dependência de fósseis
A posição como fornecedor de renováveis convive, entretanto, com um desafio dentro das próprias atividades agropecuárias. Em 2022, 73% da energia consumida diretamente pela agropecuária brasileira teve origem em fontes fósseis, proporção ligeiramente superior à média mundial de 70%. O cálculo considera o consumo realizado diretamente nas propriedades e não inclui insumos, máquinas, fertilizantes ou outras etapas da cadeia de suprimentos.
A redução dessa dependência aparece no estudo como uma das próximas frentes para o setor. Entre os caminhos apontados estão a substituição gradual do diesel por biometano, etanol e biodiesel em veículos pesados, a eletrificação das operações e a ampliação da infraestrutura necessária para levar energia elétrica ao campo. Tecnologias de baixa emissão e políticas de eficiência energética também integram essa agenda.
Por Redação mundoCoop com informações da Fundação Getúlio Vargas












