Virar gestor deixou de ser o único caminho para o topo de uma empresa há alguns anos. Áreas de tecnologia, jurídico e ciência de dados já mantêm, paralelamente ao cargo de chefia, uma trilha técnica que leva especialistas a posições de Staff, Principal ou Distinguished, com influência e remuneração equivalentes às de um diretor, sem gerenciar uma única pessoa.
O que mudou em 2026 é o critério que decide quem avança nessa trilha. Uma pesquisa da Writer com a consultoria Workplace Intelligence, feita com 1.200 executivos do C-level e 1.200 funcionários de empresas nos Estados Unidos, mostra que 92% dos executivos já cultivam deliberadamente um grupo de funcionários de elite em Inteligência Artificial dentro das próprias equipes.
E 60% dizem planejar desligar quem não conseguir, ou não quiser, acompanhar esse uso.
A trilha sem virar chefe sempre existiu, o filtro é que ficou mais duro
A lógica por trás dessa trilha paralela é conhecida havia tempo: nem todo profissional de alto desempenho tem perfil, ou interesse, para administrar pessoas, e forçar essa transição costuma produzir o resultado oposto do esperado, um gestor de equipe frustrado no lugar de um especialista produtivo.
Por isso, empresas de tecnologia, consultoria e ciência de dados mantêm dois caminhos correndo em paralelo até o topo, um de gestão e outro técnico, com paridade de remuneração entre os dois.
Nesse caminho técnico, o que sempre separou quem sobe de quem estaciona foi a capacidade de resolver problemas que ninguém mais resolve, influenciar decisões sem cargo formal para isso e traduzir uma escolha técnica em impacto de negócio. Esses três critérios continuam valendo — o que mudou é a régua.
A IA dividiu esse grupo em dois
A mesma pesquisa da Writer identificou um grupo de “super-usuários” de IA, cerca de 40% dos funcionários em áreas como marketing, vendas e atendimento, que já usa a tecnologia de forma sistemática. Esse grupo economiza em média 9 horas por semana, contra 2 horas dos demais funcionários, e tem três vezes mais chance de ter recebido promoção e aumento salarial no último ano.
A distância não para de crescer. Segundo o mesmo levantamento, ganhos individuais de produtividade com IA já chegam a cinco vezes em alguns times, mas apenas 29% das empresas conseguem transformar esse ganho individual em retorno mensurável para o negócio.
A diferença entre o profissional que usa IA bem e o que usa mal, no mesmo cargo, com o mesmo título, está ficando visível para a liderança a cada trimestre, mesmo quando a empresa como um todo ainda não sabe capturar esse resultado.
Da ferramenta ao critério
O erro mais comum de quem tenta entrar nesse grupo é tratar IA como curiosidade técnica, testar uma ferramenta nova a cada semana sem método e sem medir resultado. O que separa quem realmente avança não é saber operar mais aplicativos.
É saber decidir onde a IA cria valor de verdade dentro da própria função, avaliar risco e dado antes de aplicar, e apresentar esse resultado na linguagem de quem decide o orçamento.
O topo já não tem um caminho só
Quem chega às posições mais estratégicas da próxima década não vai ser, necessariamente, quem melhor administra pessoas. Vai ser quem consegue resolver os problemas mais complexos, influenciar sem depender de cargo e usar Inteligência Artificial numa escala que o restante do time ainda não alcançou.
A trilha sem virar chefe sempre existiu — o que ficou mais rígido foi o exame de admissão para ela.
Fonte: Exame com adaptações da MundoCoop












